quinta-feira, 15 de novembro de 2012

E como sempre, andamos longe do ideal.

Nos últimos 20 anos, dos mais de 90 acordos firmados pelos países em prol de acordo climáticos, apenas 4 tiveram algum avanço. E eu disse algum avanço, não um avanço significativo... 

Pois é... De 20 anos pra cá pouco ou nada mudou... Isso se deve em grande parte por conta do jogo de empurra que sempre há em cada acordo que se tenta realizar. 

Dessa situação resulta o famoso empurrar com a barriga. Enquanto isso, somos cada vez mais assolados pelos efeitos das mudanças climáticas. 

Fica até repetitivo citar aquela famosa frase do Greenpeace sobre as árvores e o dinheiro mas, cada vez mais, ela soa como a mais pura verdade. 

Eu só desejo que não precisemos chegar a esse extremo para comprovar essa tão famosa citação. 

Apenas quatro de 90 acordos ambientais internacionais assinados depois da Conferência Mundial do Meio Ambiente das Nações Unidas (Eco-92) tiveram avanços significativos. Esse e outros fatos negativos sobre a situação do planeta estão no 5º Panorama Ambiental Global (Geo-5), divulgado nesta quarta-feira (6) pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).
Em 24 das metas acordadas internacionalmente nos últimos 20 anos, nenhum avanço foi registrado, com destaque para as relacionadas a mudanças climáticas, estoques pesqueiros e processos de desertificação e secas.
“Os problemas estão ficando cada vez mais graves e a comunidade internacional não está conseguindo implementar ações necessárias em um ritmo adequado. Existem certas urgências que só podem ser sanadas individualmente. É preciso cooperação e vontade política”, disse o diretor executivo do Pnuma e sub-secretário Geral da ONU, Achim Steiner.
As áreas em que as metas foram cumpridas são eliminação da produção e uso de substâncias que destroem a camada de ozônio; eliminação do uso do chumbo em combustíveis; acesso crescente a fontes melhoradas de água e aumento de pesquisas para reduzir a poluição do meio ambiente marinho.
Apesar do panorama sombrio das últimas duas décadas, o estudo identificou alguns avanços nas 40 metas, inclusive na que prevê a expansão de areas protegidas e esforços para reduzir o desmatamento. O executivo do Pnuma elogiou medidas de sucesso que estão sendo tomadas por algumas nações para conter a devastação dos recursos naturais e o aquecimento global.
“Estudamos centenas de políticas realizadas individualmente por alguns países e descobrimos que muitos conseguiram avançar na proteção do meio-ambiente. O Brasil é um bom exemplo, com a queda gradativa do desmatamento e políticas regulatórias progressivas, de que é possível criar uma economia mais verde”, avalia Steiner.
O funcionário da ONU alertou que inúmeras ameaças são desconhecidas pela sociedade por falta de informação e estudos mais aprofundados. Ele deu como exemplo as mais de 90 mil substâncias químicas que circulam na economia moderna, sendo que algumas não possuem nenhum estudo sobre possíveis efeitos colaterais.
“Para muitos desses agentes químicos não há análise científica sobre os impactos na saúde do indivíduo e eles estão sendo comercializados e consumidos pela população”, explicou Steiner. De acordo com o relatório do Pnuma, 90% da amostra de água e peixes do mundo estão contaminados por agrotóxicos.
O estudo mostra também que o crescimento do lixo eletrônico é o preocupante. A produção de lixo eletrônico varia entre 20 e 50 milhões de toneladas por ano em todo o mundo, com o agravante de ser um lixo, na sua maioria, tóxico para o solo e para a vida.


domingo, 4 de novembro de 2012

Transgênicos: uma longa discussão

Pois é... A discussão é longa e parece não ter fim. Uns dizem que fazem bem outros que fazem mal (bem verdade que isso depende de quem financia a pesquisa). Mas, o assunto parece ainda longe do fim... 

Já discutida aqui em situação anterior a polêmica dos transgênicos ganha agora um novo capítulo. Se antes as pesquisas ficavam entre a dubiedade de fazer ou não bem a saúde, agora cada vez mais pesquisas revelam o quão mal fazem esses produtos. (lógico que as pesquisas isentas e praticamente feitas na clandestinidade, pois as públicas entram praticamente em conjunto com os interesses das empresas e quando as pesquisas vêm das mesmas, aí mesmo é que devemos desconfiar delas). 


Bom, se você ainda tem algo a considerar positivamente sobre essa questão, também te recomendo esse filme

Discussões a parte, me questiono sobre quando sairemos dessa inércia da discussão e faremos algo efetivo (punitivo?) contra essas questões dos transgênicos. Vamos esperar uma epidemia de câncer? Pessoas sofrendo deformações? Ou sabe-se lá o que... 

Mesmo que os resultados sejam inconclusos, alguns já apontam para a nocividade desses alimentos. Diante disso, uma postura que fiscalize, oriente e faça-se cumprir é mais do que necessário; isso claro desvencilhada de interesses... É aí que está a parte difícil... 


No cruzamento da reflexão sobre a ética, a ciência, a tecnologia e a governança, o Fórum China Europa se interessou em 2007 e 2010 pelo domínio social das ciências e tecnologias, pelo papel dos consumidores, a bioética e, mais especificamente, pelos cultivos agroalimentares duradouros. Através de diferentes oficinas, notamos uma atitude mais crítica dos europeus que dos chineses em relação à ciência, e certos europeus não hesitaram em questionar o caráter automático dos benefícios da ciência para a sociedade, insistindo na responsabilidade dos pesquisadores sobre o impacto de seus trabalhos e do uso que se faz deles. Alguns falaram até na necessidade de um novo contrato entre a pesquisa científica e a sociedade, considerando que não poderíamos confiar ao Estado as opções tecnológicas. Do lado chinês, expressou-se de modo geral uma maior confiança na ciência e na tecnologia, que pareciam fatores suscetíveis de trazer prosperidade ao país. Em outra oficina, dedicada especificamente aos cultivos agroalimentares duradouros, os europeus manifestaram suas dúvidas sobre a introdução de culturas de plantas geneticamente modificadas, mas a oficina especificamente dedicada aos organismos geneticamente modificados (OGMs) não pôde ser realizada em 2010.
Desde então, os escândalos repetidos que afetam a qualidade da alimentação na China e a eficácia dos controles dessa segurança pelas autoridades públicas tornaram a opinião pública chinesa muito mais sensível ao que as famílias colocam em seus pratos e ao impacto da alimentação sobre a saúde, a ponto de ver ressurgir uma agricultura de proximidade, em que as famílias podem controlar o que comem. Em contraste com a permissividade das autoridades chinesas, as europeias, com seus mecanismos de avaliação científica e independente, previamente à colocação no mercado de novos pesticidas ou novos OGM, pareciam isentas de qualquer censura.
Na realidade, na Europa também se manifestaram dúvidas, cada vez mais numerosas, em relação à neutralidade e à objetividade proclamadas pelas instâncias de avaliação, e o Parlamento Europeu tratou do problema, mostrando os diversos conflitos de interesses nessas instâncias de avaliação: peritos e órgãos de direção aparecem muito ligados ao lobby das firmas de sementes e químicas e do agronegócio. Ainda mais que os exemplos históricos do amianto e do tabaco demonstraram nesses últimos anos que as firmas produtoras negaram os efeitos perigosos para a saúde, não hesitando em financiar cientistas para semear dúvidas sobre todos os estudos científicos que demonstravam, há vários anos, a periculosidade desses produtos. Tudo isto pôs em questão certamente a ideia de um especialista neutro, que se pronuncia com base em uma certeza científica que não sofre qualquer controvérsia.
Um novo passo muito importante acaba de ser dado nesse debate: os testes apresentados até hoje como “científicos” para avaliar o risco de um novo produto são realmente científicos? Não foram concebidos para evitar salientar o perigo potencial dos novos produtos colocados no mercado, sendo sua duração definida não em função do que seria preciso fazer para avaliar esse risco, mas em função dos interesses das firmas de limitar ao máximo o tempo dos estudos para garantir a rentabilidade de sua pesquisa? Acusação gravíssima! Ainda mais grave porque a lei europeia responsabiliza os produtores pelo impacto de seus produtos, exceto… se os conhecimentos científicos não forem suficientes para avaliar esse impacto. Daí é apenas um passo para se pensar que houve cumplicidade entre as grandes empresas e as autoridades de avaliação, com o fim de não ter condições de saber, de maneira que as empresas que colocam no mercado, os especialistas consultados e os responsáveis pelas instâncias de avaliação sejam todos isentados de responsabilidade, em nome de sua ignorância.
E quando descobrimos que os testes supostamente científicos se baseavam em hipóteses que não têm nada de científico, começamos a duvidar cada vez mais da seriedade da perícia. Assim, adotávamos até hoje a hipótese de que um efeito só estava demonstrado quando ele era mais forte conforme a força da dose. Mas todos os estudos convergem para mostrar que, para todos os produtos que têm um impacto no sistema endócrino, uma exposição prolongada a uma dose muito fraca pode ter um efeito mais grave que uma exposição mais curta a uma dose forte. Do mesmo modo, segundo testes oficiais, para que um efeito fosse reconhecido era preciso que ele fosse igual para homens e mulheres: estranha concepção da ciência, na verdade.
Até hoje, empresas e órgãos de controle haviam-se recusado a efetuar estudos de longa duração de impacto sobre a saúde, limitando-se a fazer testes de 90 dias com ratos, ou seja, o equivalente a testes em seres humanos durante alguns anos, e não a vida inteira. E o sistema era tão bem estabelecido que uma firma como a Monsanto, que produz a maioria dos OGM encontrados no mercado, proibia que os compradores de sementes as utilizassem para fazer pesquisas: a empresa se reservava o monopólio dos estudos. Podemos ver bem a neutralidade!
Essa lei do silêncio acaba de explodir. Por iniciativa do Criigen, o Comitê de Pesquisa e Informação Independentes sobre Genética, um instituto independente de avaliação criado originalmente pela advogada Corinne Lepage, ex-ministra francesa do Meio Ambiente e deputada europeia muito envolvida nesses assuntos, uma pesquisa independente foi realizada durante dois anos, financiada por verbas privadas, pois os poderes públicos se recusaram durante anos a fazer essa pesquisa com verbas públicas. Ela examinou uma variedade de milho geneticamente modificada e comercializada pela Monsanto, o milho NK603, autorizado no mercado. Ela teve de ser realizada na clandestinidade, com todas as garantias científicas necessárias. Seus resultados acabam de ser publicados pela renomada revista americana Food and Chemical Toxicology e tiveram o efeito de uma bomba, evidenciando uma séria consequência tanto do milho OGM como do pesticida Roundup, ao qual esse milho é tolerante e que ele veicula nos ratos. Esse efeito se manifesta, como por acaso, apenas a partir dos 90 dias a que são limitados os estudos exigidos antes da colocação no mercado. O primeiro-ministro francês reagiu muito rapidamente junto às autoridades europeias e pretende não mais respeitar as decisões europeias se os procedimentos de avaliação não forem revisados. O debate já causa furor em Bruxelas.
O público chinês pode ser deixado de lado, ignorante desses riscos? Não é por excelência um tema social, para o qual nosso Fórum deve criar um espaço de diálogo tranquilo mas exigente? E os procedimentos de autorização na China? Constatamos os mesmos conflitos de interesse que na Europa? Os cidadãos chineses não têm nada a dizer? Podemos continuar pensando que tudo o que se proclama científico o é realmente? E se é verdade que brincamos com nossa saúde, fingindo nos alimentar de maneira “moderna”, quem finalmente será responsável? São muitos temas que agora é necessário colocar em praça pública.


sábado, 3 de novembro de 2012

o Ártico por água abaixo

A galera que me acompanha aqui já me viu escrever diversas vezes acerca do aquecimento global que, agora, faz uma nova vítima: o Ártico. 

Esse ano pesquisadores registraram um derretimento recorde do famoso Pólo Norte e isso já começa a preocupar cientistas pois, essa redução só estava programada para acontecer em décadas a frente. 

Os prejuízos são incontáveis: desde alterações climáticas causadas por alterações nas correntes marítimas e ao aumento da intensidade da energia solar que penetrará na região a danos a espécies que habitam e se reproduzem nessa área, como plânctons e fitoplânctons (base da cadeia alimentar). Isso sem falar em animais e nos esquimós onde os primeiros terão que se adaptar rapidamente as novas condições previstas pelos cientistas e os últimos, por sua vez, têm suas vidas baseadas na caça de animais que vivem no Ártico como focas e baleias.

Por incrível que pareça, pelo menos enquanto geopolítica, esse derretimento possui suas vantagens - ATENÇÃO VESTIBULANDOS, ISSO JÁ FOI QUESTÃO DE GEOGRAFIA, ESPECÍFICA, DA UFRJ - e alguns países já começam a se movimentar em razão disso. 

A primeira vantagem é que a redução ou até mesmo extinção do Ártico facilitaria a navegação e a consequente troca de mercadorias, poupando uma viagem de milhares de quilômetros que seria facilmente cortada sem precisar cruzar continentes inteiros ou navegar até seus estreitos mais próximos. 

A segunda vantagem seria a exploração de riquezas minerais existentes na região, principalmente o petróleo. Essa questão, em princípio, geraria um grande conflito entre nações pelo direito de explorar a região, já que a mesma não possui um tratado que defina muito bem isso, como há o tratado da Antártida assinado em 59, que entrou em vigor em 61. 

Entre a vantagem e a desvantagem, fato é que o ártico está se reduzindo cada vez mais e, apesar de existirem vantagens nisso, se colocar ambas na balança, acredito que penderá mais para o lado das perdas do que dos ganhos... 

Os alarmes no Ártico, ano a ano, vêm disparando. A cobertura de gelo do oceano alcançou, no dia 16 de setembro, o menor tamanho já registrado, desde que medições começaram a ser feitas no local, em 1979. O derretimento recorde fez com que a extensão da camada de gelo no oceano se reduzisse a apenas 3,41 milhões de quilômetros quadrados, número 18% menor ao de 2007, quando foi registrado o último recorde antes do verão de 2012.
Para entender o que esse número representa, é importante conhecer o ciclo da região. A extensão do gelo no Oceano Ártico cresce a cada inverno, quando o Sol se põe por vários meses, e encolhe a cada verão, quando o sol sobe mais alto no céu e a claridade toma conta da região. A cada ano, a cobertura registra seu ponto mínimo em setembro, com o fim do verão, o que é um fenômeno natural. O inédito é a redução dessa cobertura na comparação ano a ano, que vem acontecendo de forma acelerada.
Em agosto, o tamanho de 4,1 milhões de quilômetros quadrados foi encarado não apenas como um novo recorde, mas também um alarme para as consequências das mudanças climáticas. Embora pareça isolado do resto do mundo, o oceano que rodeia o Polo Norte afeta todo o planeta. As mudanças climáticas que lá estão mais evidentes podem, já a curto prazo, acentuar eventos climáticos extremos, como secas e chuvas fortes. A seguir, reunimos as características do Oceano Ártico e explicamos suas principais mudanças.
O mar congelado e a Criosfera
Atualmente, 10% da superfície da Terra é coberta por neve e gelo, formando a Criosfera. Este termo é usado para se referir coletivamente a todo gelo e neve existentes na superfície terrestre. Forma-se basicamente por duas maneiras: pela precipitação e acumulação de neve sobre continentes ou ilhas, constituindo as geleiras e os dois grandes mantos de gelo (massa de neve e gelo com grande espessura e área maior do que 50 mil quilômetros quadrados) da Antártica e da Groenlândia. E pelo congelamento da água do mar, formando uma fina capa de gelo marinho sobre o Oceano Ártico e o Oceano Austral, aquele que rodeia o continente antártico.
Os oceanos polares são cobertos por uma fina capa de mar congelado, mas com características diferentes que refletem, antes de tudo, a distribuição da massa continental. No Ártico, o oceano é circundado por continentes, permitindo a estabilidade do pacote de gelo marinho no seu interior. Na Antártica, o Oceano Austral é aberto e a extensão desse pacote tem grande variação entre o verão e o inverno.
Quando o inverno se aproxima e a temperatura cai abaixo do ponto de congelamento do mar, –1,83°C graças à salinidade, o pacote de gelo marinho (a banquisa) expande-se. Esse gelo, que no primeiro ano terá entre 15 e 60 centímetros de espessura, poderá ultrapassar 2 metros de espessura, se sobreviver ao derretimento de verão. No Hemisfério Norte, esse gelo pode expandir-se para mais de 15 milhões de quilômetros quadrados no inverno, avançando muitas vezes até 55°N, na região da Terra Nova (Canadá) e no Mar de Okhotsk (extremo leste da Rússia).
Por outro lado, seu derretimento também é rápido, e no fim de setembro a extensão de gelo é reduzida para 7 milhões de quilômetros quadrados, medida mínima média até a década de 1990. Já a variação do mar congelado ao redor da Antártica é o fenômeno natural com maior variação de área ao longo de um ano – salta de 1,8 milhão de quilômetros quadrados para até 20 milhões de quilômetros quadrados, entre o verão e o inverno. Portanto, essa variação sazonal na extensão de gelo do mar é um ciclo normal.
A capa de gelo marinho do ártico
Nas últimas três décadas, no entanto, a extensão mínima do gelo ártico decresceu rapidamente. A figura da página ao lado mostra a área mínima da cobertura do gelo marinho no Oceano Ártico no mês de agosto desde 1979 até 2012. A extensão de agosto de 2012 é 2,9 milhões de quilômetros quadrados menor do que a média entre 1979 e 2000. Ainda: no dia 17 de setembro de 2012, o mar congelado atingiu a menor extensão já constatada, somente 3,4 milhões de quadrados quilômetros.
Essa rápida redução do gelo marinho ártico surpreendeu a comunidade científica, pois as previsões indicavam que tal redução ocorreria somente em algumas décadas. Também é observada a redução da espessura desse gelo marinho, conforme indicam os dados de sonares de submarinos nucleares obtidos durante as décadas de 1960 e 1970. A causa é o aquecimento da atmosfera regional, um dos maiores do mundo. A manter-se a tendência das últimas duas décadas, prevê-se um verão ártico sem mar congelado já na década de 2020.
Tal modificação tem sérias implicações climáticas, para os habitats de várias espécies polares e até geopolíticas. O desaparecimento desse mar congelado tende a deixar mais quente o Ártico, pois a superfície do oceano absorve mais energia que chega do Sol do que aquela superfície de neve e gelo. Isso ocorre porque o oceano é mais escuro do que a superfície de neve e gelo. Além disso, o próprio oceano transfere mais energia para a atmosfera, o que aquece mais ainda o ar da superfície do Ártico. Seria como removêssemos um cobertor do oceano, que então começa a perder energia mais rapidamente para a atmosfera. Em suma, dá–se o início a um retroprocessamento, em que o derretimento do gelo aquece ainda mais o Ártico, que derrete mais gelo, que aquece mais o Ártico, e assim por diante.
A circulação geral da atmosfera e dos oceanos, que origina o clima planetário, basicamente é o transporte de energia dos trópicos (que recebe mais energia do Sol) que perde para o espaço exterior para as regiões polares (que perde mais energia para o espaço exterior que recebe do Sol). Assim, o aquecimento e a remoção do gelo do Oceano Ártico certamente causarão mudanças do clima afetando todo o planeta.
Tanto as espécies que se movem sobre o gelo marinho para caça e migração, urso e raposas polares, por exemplo, quanto o plâncton que prolifera logo abaixo do gelo terão de passar por rápidas adaptações. O caso dos mamíferos que caçam parte do ano sobre o gelo marinho já recebe muita atenção da imprensa, mas é o fitoplâncton ártico, base da teia alimentar, que é muito mais sensível ao aumento da radiação solar, decorrente da remoção da capa de gelo, que deveremos observar.
Sobre o ponto de vista histórico, abre definitivamente uma passagem entre a Europa e a Ásia via norte da Sibéria. Essa é a passagem do Nordeste, sonhada desde a época dos Grandes Descobrimentos, reduzindo a rota marítima em milhares de quilômetros e facilitando a exploração de recursos minerais na Sibéria. Em particular, facilita a exploração de recursos de óleo e gás na costa e plataforma continental norte-americana e siberiana.
Esse é o motivo básico das diferentes ações russas ao longo dos últimos anos para reforçar sua soberania no alto ártico, inclusive para estender sua plataforma continental conforme permite a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar. Ainda, não devemos esquecer o impacto dessas rápidas modificações nas comunidades autóctones, como os inuits (esquimós) que têm seu modo de vida baseado na caça e pesca ártica.
Essas rápidas modificações na extensão do gelo marinho do Oceano Ártico são uma das mais fortes evidências das rápidas modificações globais no clima do planeta. A comunidade científica já tem evidências indiretas (pelo estudo de amostras de neve e gelo da Groenlândia e de outras ilhas canadenses) que tal processo não ocorreu pelo menos nos últimos 1,5 mil anos, ou seja, estamos tratando de um fenômeno drástico, com provável causa antrópica e cujas consequências ainda não são totalmente entendidas. Finalmente, ressaltamos que o derretimento do gelo do Oceano Ártico não afeta o nível dos mares, pois ele já se encontra flutuado.






segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Entre a Cruz e a Espada: A política externa dos EUA em relação ao Oriente Médio

As eleições norte-americanas estão chegando e cada vez mais os debates entre Romney e Obama estão se acirrando, embora Obama tenha apresentado um despenho meio fraco no último debate. 

Contudo, sempre que há eleições nos EUA, a uma questão sempre está em pauta: Como lidar com o Oriente Médio. 

Região do globo considerada um barril de pólvora, a política externa norte-americana para a região tem sido motivo de preocupações nessas eleições, principalmente quando os dois lados não tem posturas muito agradáveis para com a Região. É como se os eleitores tivessem que escolher a menos pior ou invés da melhor. 

Enquanto Obama se mostra contraditório: já que apoiou o Egito e a Tunísia em seus processos de democratização, embora os governos sejam fundamentalistas, ao mesmo tempo em que não mexe uma vírgula quando tentativas da primavera árabe rondam a Arábia Saudita, por exemplo. Como se isso não bastasse a omissão (ou lentidão) do governo de Obama em se pronunciar quanto a certas questões do Oriente Médio como a paz entre israelenses a palestinos (talvez seja por conveniência...) é outra postura que não agrada. 

Mesmo que tenha tirado as tropas do Afeganistão, Obama ainda tem muito o que remar... 

Já Romney... Bom, é parar para respirar e ir com calma... 

A postura que ele adota já é mais incisiva que a de Obama e isso pode ser o estopim para uma área que está sempre prestes a explodir...

Para Romney a questão se resolve com maior interferência militar dos EUA, maior apoio a Israel, retirada do apoio a governos já eleitos, associado a negação de que os EUA merecem se retratar com o Oriente Médio em relação a visão que foi criada pelos EUA em relação a essa área.

Mais parece receita para coquetel Molotov do que plataforma de campanha, não? Pois é, mas para Romney essa é a forma como o Oriente Médio deve ser visto pelos EUA. 

Entre a veemência de um e a passividade do outro, não resta dúvidas de que a menos pior é a segunda. Até porque, mesmo com essa lentidão, Obama até que tem conseguido suas conquistas; além disso, se com a diplomacia já anda difícil, imaginem com uma certa ostensividade ?

Um discurso de Mitt Romney, candidato do Partido Republicano à presidência dos Estados Unidos, marcou o debate político norte-americano nesta semana. Na segunda-feira 8, Romney foi ao Instituto Militar da Virgínia e acusou o presidente Barack Obama de ser um líder fraco, responsável pela redução da influência norte-americana no mundo, especialmente no Oriente Médio, e pelos questionamentos à liderança de Washington. É difícil, por enquanto, mensurar a influência do tema política externa nas eleições de 6 de novembro, mas pode-se vislumbrar os impactos das ações de cada um na região mais tensa do mundo.
A política externa dos Estados Unidos para o Oriente Médio é marcadamente hipócrita. A contradição emerge do conflito entre os valores americanos (a democracia) e os interesses do país na região (petróleo, evitar ataques contra os EUA, a segurança de Israel e prevenir a obtenção de armas nucleares pelo Irã). Os dois pesos e duas medidas ficam claros quando Washington propaga a democratização do Oriente Médio e, ao mesmo tempo, apoia governos ditatoriais. Esta situação não foi inventada por Obama. O atual “comandante-em-chefe”, no entanto, deu continuidade a ela, marcadamente ao apoiar (com entusiasmos diferentes) protestos populares no Egito, na Tunísia e na Líbia e se calar quando o mesmo ocorreu na Arábia Saudita e no Bahrein.
Se eleito, Romney vai acentuar a hipocrisia da política externa americana. Em seu discurso, prometeu insistir para o Egito criar instituições democráticas e apoiar os opositores sírios que “compartilham os valores” americanos. Ao mesmo tempo, entretanto, prometeu “aprofundar a cooperação com os parceiros no Golfo”, as monarquias absolutistas de Arábia Saudita, Bahrein e Catar. Romney é um “falcão” na política externa, como dizem os analistas em contraposição a ideia do pacifismo das “pombas”. Romney deseja uma Casa Branca mais assertiva, capaz de “evitar questionamentos” de aliados sobre o compromisso de Washington e de evitar “dúvidas nos inimigos” a respeito da determinação norte-americana para derrotá-los. Para o candidato republicano, esta é a forma ideal para EUA defenderem seus interesses e fazerem prevalecer seus ideais.
A visão de Romney, entretanto, é um equívoco. A contradição valores x interesses, somada ao apoio a Israel e à intensa presença militar americana no Oriente Médio, é o combustível para o sentimento negativo direcionado aos EUA da maioria da população em todos os países árabes-muçulmanos. Os inúmeros protestos contra os EUA em setembro foram abastecidos por este ódio, e não motivados pela suposta fraqueza de Obama ou por um duelo entre “liberdade e tirania”, como Romney afirma.
Como já dito, Obama mantém as contradições da política externa americana. Ele faz isso porque abrir mão das alianças com Israel ou a Arábia Saudita é uma tarefa política e praticamente impossível atualmente. Obama, entretanto, entende que grande parte da hostilidade aos Estados Unidos emana de ações que o próprio governo americano tomou ao longo das últimas décadas, como apoiar golpes de Estado, ditadores e realizar invasões. Esta não é uma visão partidária ou ideológica. É uma simples constatação, feita até mesmo pelo governo de George W. Bush. Em 2005, num famoso discurso, a ex-secretária de Estado americana Condoleezza afirmou que os EUA passaram décadas tentando defender seus interesses em detrimento de seus valores e não conseguiram nem uma coisa nem outra.
É por ter esta visão que Obama enxerga a proteção aos interesses americanos como um processo de longo alcance. Assim, busca, aos poucos, reduzir as impressões negativas a respeito dos Estados Unidos no Oriente Médio. Conta contra Obama o fato de ele buscar a remenda das relações com as populações árabes de forma errática. O ponto positivo de sua política externa na região é o apoio dado aos governos islamistas eleitos na Tunísia e no Egito. Este apoio ainda é tímido, pois a estratégia é delicada a curto prazo. A Primavera Árabe libertou inúmeras forças nas sociedades árabes, inclusive algumas contrárias à democracia, aos direitos das minorias e das mulheres. Essas forças são minoritárias, mas capazes de realizar estragos grandes, como o assassinato do embaixador Chris Stevens em Benghazi, na Líbia. Há, no entanto, espaço para os EUA trabalharem com as forças mais moderadas, e Obama demonstra entender isso.
Em seu discurso, Romney apresentou poucas alternativas práticas ao atos do governo Obama. As diferenças eram majoritariamente na forma. Romney acredita no “excepcionalismo” americano e rejeita a ideia de que os EUA devem algum pedido de desculpas aos árabes pelo atos do passado. Para Romney, e para muitos no Partido Republicano, o fundamentalismo muçulmano surgiu de forma espontânea no Oriente Médio, sem contribuições do Ocidente. Muitos republicanos defendem, inclusive, o fim do apoio dos EUA aos governos eleitos, porém fundamentalistas, da Tunísia ou do Egito. Talvez por isso Romney tenha deixado de fora de seu discurso a palavra mais comum nas análises do Oriente Médio atualmente: o islamismo, como sinônimo de Islã político.
Obama deve ser criticado por sua lentidão em responder a alguns desdobramentos (como no início da Primavera Árabe e na morte de Chris Stevens) e por não dar a atenção devida a determinados temas (como a paz entre israelenses e palestinos). Esses erros, ao menos, são corrigíveis. Romney, por sua vez, prega mais pressões políticas, econômicas e militares contra os “inimigos do EUA” no Oriente Médio e mesmo contra potenciais aliados. É um caminho que, se pode dar algum alívio aos americanos no curto prazo, sem dúvida servirá como combustível para o antiamericanismo a médio prazo, colocando num risco ainda maior os interesses norte-americanos.




quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Da notoriedade a atuação discreta: o novo perfil das milícias

Quem assistiu tropa de elite 2 tem uma certa noção de como as milícias agem. Se você mora no Rio de Janeiro, especialmente na Zona Oeste ou na Baixada, aí você realmente faz ideia, infelizmente, de como elas agem. 

Se antes elas atuavam de forma notória, talvez com o intuito de mostrar que uma nova força paramilitar surgira, as milícias agora agem de forma discreta. 

Talvez isso tenha algo a ver com o efeito UPP que diminuiu mas, não encerrou, vamos ser francos, a atividade do tráfico nas áreas que ocupou. Depois de figurarem nos principais noticiários durante a década passada, atualmente não se houve falar tanto nessas milícias. O que não quer dizer que suas ações diminuíram. 

Mas, a questão mais preocupante é que, segundo estudo publicado pela UERJ, as milícias estão ultrapassando as barreiras do estado carioca e migrando para outras regiões do Brasil. Ainda é cedo para dizer se vai figurar em escala nacional mas, só o fato de sua expansão se fazer notória já é motivo de preocupação para o Governo dar a devida atenção e solução a esse problema.

Já não bastasse termos que lidar com as facções criminosas, termos que lidar com organizações que se travestem de protetoras quando na verdade se mostram uma verdadeira indústria da extorsão é demais. 

Rio de Janeiro – Os grupos de milicianos estão reinventando o modo de agir para não chamar a atenção do Estado e poder continuar a operar negócios criminosos altamente lucrativos. A conclusão é parte do estudo No Sapatinho – Evolução das Milícias no Rio de Janeiro (2008-2011), lançado ontem (10) à noite na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).
A pesquisa coordenada por Ignacio Cano e Thais Duarte, do Laboratório de Análise da Violência (LAV-Uerj), teve o patrocínio da Fundação Heinrich Böll, da Alemanha. O resultado foi transformado em um livro de 150 páginas, com textos sobre a origem das milícias no Rio, depoimentos, gráficos, tabelas e mapas que traduzem a atuação desses grupos armados no estado, principalmente na região metropolitana.
Cano explicou que as milícias foram enfraquecidas pela ação do Estado e por problemas internos de disputas, mas continuam operando nos mesmos territórios que tinham há quatro anos, só que de forma menos ostensiva.
“O esforço do Estado foi muito importante para cortar o avanço desses grupos e sua expansão, mas não conseguiu erradicar o problema. A nova milícia é muito mais discreta que a antiga. Não tem mais 50 homens armados andando por aí, não marcam mais as casas, mas é igualmente violenta e intimidadora. É um fenômeno mais sutil, eles não se candidatam na proporção que faziam antes aos cargos públicos, mas o terror e a extorsão continuam da mesma forma”, apontou o pesquisador.

Ele destacou que as evidências mostram que os grupos milicianos têm menos força do que antes, controlam menos atividades econômicas, mas continuam matando com frequência. Só que de forma dissimulada, para não chamar a atenção. Se anteriormente fazia questão de matar desafetos à luz do dia, como exemplo, agora a tendência é assassinar as vítimas e fazer desaparecer seus corpos.
Os pesquisadores constataram, observando as estatísticas oficiais, que há um aumento no número de desaparecidos, ao mesmo tempo em que se observa um declínio no de mortes violentas, em áreas de milícia.
“Há muitos assassinatos, torturas e o clima de terror nas comunidades é ainda mais alto do que anos atrás. É um sinal de alarme comprovar que a razão entre mortes violentas e desaparecidos aumenta justamente nas áreas onde a milícia atua. É um sinal sobre a possibilidade de que as milícias estejam desaparecendo com os corpos das vítimas em vez de matá-las publicamente.”

O pesquisador destacou que o apogeu de expansão das milícias foi o período 2006-2007 e que, atualmente, a repressão do Estado, inclusive com a prisão dos principais líderes, mudou sua forma de agir. “Em 2008, começou a repressão a elas e hoje em dia são muito mais tímidas em sua exposição pública. Estão se afastando do modelo do tráfico, de controle de entrada e saída [do território], de ter alguém sempre presente e indo mais na direção de grupos de extermínio ou da máfia, de forma mais sigilosa, para manter os lucros, com uma exposição menor. Os grupos não estão mais se exibindo, como eles faziam antes. Hoje, a investigação ficou mais complicada, justamente em função da discrição dessas milícias.”
Cano alerta que ao mesmo tempo em que há certa diminuição do poder miliciano no Rio, em outras partes do país novos grupos estão se organizando, nos mesmos moldes. São igualmente formados por militares, ex-militares e policiais que oferecem serviços de combate ao crime, aliados à exploração clandestina de produtos e serviços, incluindo a venda de botijões de gás, comercialização de sinal de televisão a cabo e o transporte de vans.
“Temos informações de outros estados de que fenômenos semelhantes estão começando a ocorrer. Então, o Brasil como um todo tem que começar a olhar para este problema, porque daqui a pouco não será exclusivo do Rio de Janeiro. Milícia é um negócio, você tem que conseguir pegar o dinheiro ou, pelo menos, aumentar os custos desse negócio. Prender pessoas é importante mas, em sua grande maioria, são descartáveis e acabam substituídas. Atacar o coração do negócio é essencial para poder desarticular esses grupos.”