quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Trem bala: necessário?

Desde que tentam implementar esse projeto ando me perguntando: é necessário?

Não seria melhor investir na melhoria e expansão das ferrovias? Não seria melhor investir num sistema de trens, em escala nacional, que sejam baratos, eficientes e que comportem a necessidade de descolamento da população. Aliás, não só em escala nacional, mas regional e local também.

Implementar um trem bala, em nome da modernidade só vai reforçar o quanto somos um país de contradições. Pois, enquanto ainda temos trens puxados a máquina em certas regiões do nosso país, estão querendo implementar um trem moderno que não vai atender nem 20% da população e com um preço mais caro do que andar de avião (segundo cálculos até quatro vezes mais). 

Brasil: o país não só do absurdo, mas das disparidades... 


A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) anunciou nesta quinta-feira 23 que o leilão do Trem de Alta Velocidade (TAV) ligando Campinas, São Paulo e o Rio de Janeiro será realizado em 29 de maio de 2013. Os consórcios interessados em construir a infraestrutura para o trem-bala e também em operar a primeira linha deste tipo de transporte no Brasil poderão apresentar suas propostas até 30 de abril. O investimento no projeto é avaliado na casa dos 33 bilhões de reais.
A ANTT anunciou também a realização de sete audiências públicas em que pessoas físicas e empresas poderão fazer sugestões para a elaboração do edital e do projeto. As audiências ocorrem entre 11 e 21 de setembro, em Brasília, São José dos Campos, Aparecida, Rio de Janeiro, Barra Mansa, Campinas e São Paulo (confira os detalhes no site da ANTT). As sugestões serão analisadas pelo governo e podem ser incluídas no edital.
Em maio, serão realizados dois leilões. O primeiro é para o fornecimento e montagem da superestrutura ferroviária, do material rodante e dos sistemas necessários à futura operação do trem bala. O segundo é para a operação, manutenção e conservação do TAV Rio de Janeiro-Campinas, nome oficial do projeto. No total, serão construídos 510,8 quilômetros de percurso e a tarifa-teto a ser ofertada não poderá ultrapassar 0,49 centavos por quilômetro, na classe econômica.

O trem-bala será administrado por uma Sociedade de Propósito Específico, em que a concessionária vencedora do leilão terá como sócia minoritária a estatal Empresa de Planejamento e Logística (EPL), criada na semana passada pela presidenta Dilma Rousseff. Apesar de minoritária, a EPL terá o poder de vetar decisões em temas sensíveis.
A EPL será responsável pelo planejamento, pelo desenvolvimento, pela prestação de serviços e pelas pesquisas na área de logística e também pela “integração das diversas modalidades de transportes”. A primeira atribuição da EPL será cuidar do trem-bala. O presidente da EPL será Bernardo Figueiredo. De acordo com o plano de concessões de estradas e ferrovias, lançado na semana passada pelo governo, serão investidos R$ 133 bilhões em logística nos próximos 25 anos.

O Excepcionalismo da Primavera Árabe

Pois é, olhando para a primavera árabe, podemos perceber que ela tem uma mira seletiva digamos assim... Ela pode ter acertado Tunísia, Líbia, Egito e Iêmen, mas... E a Arábia Saudita ou mesmo o Bahrein?

Isso só pra pegar os exemplos de governos que fazem certas ditaduras parecem brincadeira de criança... Mas é aquilo, se interessa ao Tio San então é intocável. 

Enquanto o xadrez político vai se desenhando e os Estados Unidos mexem no tabuleiro a seu bel prazer. Imagino como esse povo árabe não se sente vendo que o país que ajudou a disseminar a xenofobia contra o árabes em escala mundial, é exatamente o mesmo que manipula governos que por sua vez são repressivos com suas populações...

Lembram da história do excepcionalismo do post anterior? Pois é...Olha ela aqui novamente... 



A chamada Primavera Árabe foi, para muitos, o início de um movimento de reafirmação da força de transformação do campo político. Ela teria sido também a prova de que as sociedades árabes não estavam imersas em alguma forma de arcaísmo teológico antimodernizador que se manifestaria através de tendências latentes de constituição de sociedades teocráticas. Como se eles estivessem fadados a viver entre regimes laicos ditatoriais e sociedades que usam a religião como motor cego de mobilização popular.
No entanto, a análise da situação atual do mundo árabe pode parecer desoladora. Por enquanto, quatro países tiveram mudanças de regime: Tunísia, Líbia, Egito e Iêmen. Um quinto está em via de ver a sua ditadura cair, a Síria. Outro que teve grandes manifestações por mudanças, o Bahrein, está cirurgicamente longe dos noticiários internacionais.
Aliado importante do mundo ocidental, sede de uma base militar dos EUA, o Bahrein foi invadido por tropas sauditas a fim de garantir a perpetuação de uma monarquia absoluta. Nada disso causou indignação na opinião pública internacional com sua sensibilidade democrática seletiva e sua tendência a cobrar respeito aos direitos humanos apenas dos inimigos.
Outros países que tiveram manifestações, como o Marrocos, parecem agora imunes a revoltas. Da mesma forma, a pior ditadura teocrática do mundo, aquela que faz o Irã parecer uma democracia escandinava, continua firme com o apoio irrestrito dos defensores ocidentais da democracia. Na verdade, a Arábia Saudita continua sendo um foco de desestabilização de todo movimento democrático na região, já que financia generosamente movimentos salafitas pelo mundo.
Se levarmos tudo isso em conta e olharmos para os países onde a Primavera Árabe desabrochou, teremos a impressão de que o mundo árabe, de fato, tem uma tendência subterrânea à regressão. Na Tunísia, a queda do governo Ben Ali colocou no poder um partido islâmico, o Ennahda. Setores da sociedade tunisiana lutam diariamente para o país não regredir em matéria de laicidade e liberdade de expressão. Grupos salafistas invadem exposições de artes para destruir obras que julgam ofensivas aos preceitos islâmicos, além de paralisar universidades por exigir o direito de mulheres frequentarem aulas de burqa.
No Egito, a Irmandade Muçulmana lidera o governo e a frente que ainda luta por tirar os militares do poder. Embora já tenha dito não querer islamizar a sociedade egípcia, é fato que isso não seria necessário: o Egito já é um país onde é possível processar um ator por ele ter representado um papel ofensivo ao Islã, onde cristãos não podem ser governadores de estado ou reitores de universidade e onde tomar uma cerveja em um bar não é exatamente algo simples.
Tal situação nos leva a duas reflexões. Primeira, o que vimos em 2011 foi um ensaio geral. Os grupos que deram início à sequência da Primavera Árabe não eram islâmicos, mas jovens diplomados desempregados e sindicalistas. No Egito, por exemplo, foi o Movimento 6 de abril, composto por jovens das mais variadas tendências, a iniciar o processo de ocupação da Praça Tahir. Esses grupos ainda não encontraram uma forma institucional que os fortaleça. Eles não têm unidade. Na ausência disto, o grupo mais organizado e disciplinado é, no caso, os muçulmanos, que conduz o processo.
A história conhece vários exemplos de revoluções traídas. Tais exemplos não podem ser lidos como meros fracassos, são movimentos duros de compreensão de limites de ação política. A espontaneidade impressionante da Primavera Árabe demonstrou sua força e sua fraqueza. Sua força fica clara quando a revolução ganha. Sua fraqueza aparece quando os embates em torno do saldo da revolução entram em cena.
Por outro lado, é inegável que a força dos movimentos muçulmanos vem principalmente do sentimento de humilhação que os povos árabes nutrem em relação ao Ocidente. Há um ressentimento profundo vindo de promessas de modernização não cumpridas, continuidade de sistemas de influência colonial e xenofobia internacional contra os árabes, muitas vezes tratados implicitamente como “povo terrorista”. Os muçulmanos sabem instrumentalizar bem tal afeto, dando a esses povos um sentimento de orgulho.
A única maneira de quebrar tal força viria da capacidade de setores dos países árabes em encontrar, dentro de sua própria tradição, correntes que constituam promessas de formas de vida distantes dos preceitos religiosos do islamismo conservador. Isso passa por saber explorar de maneira mais radical o caráter liberal de várias tradições do nacionalismo árabe. A Primavera Árabe aparece como a abertura de uma sequência imprevisível. E a maneira mais certa de garantir o pior é deixando-se tragar pelo imediatismo do derrotismo.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Quando atende ao interesse do Tio San, aí tudo pode...


Pois é... Em se tratando de Tio San, nada mais espanta. Ainda mais quando a história vem desde 1979... 

Me refiro a revolução iraniana que veiculou a imagem dos EUA como grande Satã e, desde então, tem sido a pedra no sapato no que se refere a Oriente Médio para os EUA. 


Direta ou indiretamente os EUA sempre tentam uma forma de derrubar os xiitas que estão no poder no Irã...  Principalmente depois que o país passou a lidar com armas nucleares. 

De lá pra cá muita coisa não mudou... Seja arrebentando com o Afeganistão, Seja arrebentando com o Iraque; os EUA não desistem de derrubar aqueles que não atendem aos seus poderes... O governador Sírio que o diga... 

Tanto que emudecem para o financiamento da Arábia Saudita para com grupos de derrubada da Síria, sendo que a própria Arábia é uma ditadura que os EUA tanto criticam quando se referem a Bashar... Ou seja ditadura pode, mas só se o governo for seu amigo e defender os seus interesses... 


O que me lembra... 


Já houve uma guerra no Oriente Médio com tanta hipocrisia? Uma guerra com tanta covardia e imoralidade, falsa retórica e humilhação pública? Não estou falando sobre as vítimas físicas da tragédia síria. Estou me referindo às mentiras e enganações de nossos mestres e de nossa opinião pública — oriental e ocidental — em resposta à matança, à pantomima perversa que mais lembra uma sátira de Swift do que Tolstoy ou Shakespeare.
Enquanto o Qatar e a Arábia Saudita armam e financiam os rebeldes da Síria para derrubar a ditadura alawita/xiita-Baathista de Bashar al-Assad, Washington não profere uma palavra de crítica contra eles. O presidente Barack Obama e sua secretária de Estado, Hillary Clinton, dizem que querem democracia na Síria. Mas o Qatar é uma autocracia e a Arábia Saudita está entre as mais perniciosas ditaduras-reinos-califados do mundo árabe. Os governantes dos dois estados herdam o poder de suas famílias — assim como Bashar — e a Arábia Saudita é aliada dos rebeldes salafistas-wahabistas da Síria, assim como foi um dos mais fervorosos apoiadores do medieval Talibã durante a idade da escuridão afegã.
De fato, 15 dos 19 sequestradores-assassinos em massa de 11 de setembro de 2001 vieram da Arábia Saudita, depois do que, naturalmente, bombardeamos o Afeganistão. Os sauditas estão reprimindo sua própria minoria xiita da mesma forma como pretendem destruir a minoria alawita-xiita da Síria. E acreditamos que a Arábia Saudita quer instalar uma democracia na Síria?
Temos então o partido-milícia xiita Hezbollah no Líbano, mão direita do Irã xiita e apoiador do regime de Bashar al-Assad. Por 30 anos, o Hezbollah defendeu os xiitas oprimidos do sul do Líbano contra a agressão israelense. Eles se apresentam como defensores dos direitos dos palestinos da Cisjordânia e de Gaza. Mas, diante do lento colapso de seu aliado implacável na Síria, perderam a língua. Não disseram uma palavra — nem mesmo Sayed Hassan Nasrallah — sobre os estupros e o assassinato em massa de civis sírios por soldados de Bashar e pela milícia Shabiha.
E temos também os heróis dos Estados Unidos — La Clinton, o secretário de Defesa Leon Panetta e Obama. Clinton divulgou uma “advertência” para Assad. Panetta — o mesmo homem que repetiu para os últimos soldados dos Estados Unidos no Iraque a velha mentira sobre a conexão de Saddam com o 11 de setembro — anunciou que as coisas “estão saindo do controle” na Síria. Mas isso está acontecendo há seis meses. Descobriu isso agora? E Obama nos disse na semana passada que “dado o estoque de armas químicas do regime, continuaremos a deixar claro para Assad… que o mundo está de olho”. Mas, não foi aquele jornal do Condado de Cork, chamado Skibbereen Eagle, que temendo a cobiça da Rússia em relação à China declarou “que estava de olho… no czar da Rússia?”. Agora foi a vez de Obama enfatizar o pouco que pode influir nos grandes conflitos do mundo. Bashar deve estar tremendo de medo.
Será que o governo dos Estados Unidos realmente gostaria de ver os atrozes arquivos da tortura de Bashar abertos para nós? É que, apenas alguns anos atrás, o governo Bush mandava muçulmanos para Damasco para que os torturadores de Bashar arrancassem suas unhas em troca de informação, presos a pedido do governo dos Estados Unidos no mesmo buraco infernal que os rebeldes sírios implodiram na semana passada. As embaixadas ocidentais diligentemente ofereciam aos torturadores as perguntas que deviam ser feitas às vítimas. Bashar, vejam bem, era nosso bebê.
Ah, existe aquele país da vizinhança que nos deve muita gratidão: o Iraque. Na semana passada, sofreu em um dia 29 ataques a bomba em 19 cidades, com a morte de 111 civis e ferimentos em outros 235. No mesmo dia, o banho de sangue da Síria consumiu um número parecido de inocentes. Mas o Iraque estava no pé da página, enterrado abaixo da dobra, como dizem os jornalistas; porque, naturalmente, nós demos liberdade ao Iraque, uma democracia jeffersoniana, etc, etc, não é verdade? Então essa matança a leste da Síria não tem a mesma importância, certo? Nada que fizemos em 2003 levou ao que o Iraque sofre hoje, certo?
Por falar em jornalismo, quem na BBC World News decidiu que os preparativos para as Olimpíadas deveriam preceder no noticiário os ultrajes da Síria na semana passada? Os jornais britânicos e a BBC no Reino Unido naturalmente deveriam destacar as Olimpíadas, como notícia local. Mas, em uma decisão lamentável, a BBC — transmitindo para o mundo — também decidiu que a passagem da tocha olímpica era mais importante que crianças sírias morrendo, ainda que os despachos viessem do corajoso repórter da emissora, diretamente de Aleppo.
E, naturalmente, há nós, os queridos liberais que rapidamente enchem as ruas de Londres para protestar contra a matança israelense de palestinos. Justo, com certeza. Quando nossos líderes políticos se contentam em condenar os arábes por sua selvageria mas se mostram muito tímidos para dizer uma palavra de tênue crítica quando o exército israelense comete crimes contra a humanidade — ou assiste a aliados fazendo isso no Líbano –, gente comum deve relembrar ao mundo que não somos tão tímidos quanto nossos líderes. Mas quando a matança na Síria atinge de 15 mil a 19 mil pessoas — talvez 14 vezes mais que as mortes causadas pela investida selvagem de Israel em Gaza, em 2008-2009 — praticamente nenhum manifestante, a não ser pelos exilados sírios, foi para as ruas condenar estes crimes contra a humanidade. Os crimes de Israel não atingem esta escala desde 1948. Certo ou errado, a mensagem é simples: demandamos justiça e direito à vida para árabes se eles forem massacrados pelo Ocidente ou seus aliados israelenses;  mas não quando eles são massacrados por outros árabes.
E enquanto isso, nos esquecemos da “grande” verdade. Que esta é uma tentativa de esmagar a ditadura síria não por causa de nosso amor pelos sírios ou nosso ódio pelo nosso ex-amigo Bashar al-Assad, ou por causa de nosso ódio pela Rússia, cujo lugar está garantido no panteão dos hipócritas quando vemos a reação do país às pequenas Stalingrados que se espalham na Síria. Não, esta guerra é sobre o Irã e nosso desejo de esmagar a República Islâmica e seus planos nucleares infernais — se eles existirem — e não tem nada a ver com direitos humanos ou com o direito à vida ou à morte dos bebês sírios. Quelle horreur!

Seca no Nordeste ? Forte indício de Indústria da seca !

Pois é... Infelizmente notícias como a que está relacionada abaixo, me causam certa aflição. Toda vez que vejo notícia sobre seca no Nordeste, penso logo nessa maldita indústria da seca.  

Pra você que desconhece, ela funciona da seguinte forma:

Ocorre quando há estiagem prolongada no sertão, o que dificulta a prática da agricultura na área. Diante disso é decretado estado de calamidade pública pelos governos locais, o que acionada a ajuda (dinheiro) do Governo Federal.

A liberação de verbas ocorre e é direcionada para frentes de trabalho que ocorrem, no geral, através de obras públicas que geralmente são atividades como construção de poços e açudes em latifúndios; que são justificados pela proteção a população (crianças podem tomar banho e poluir o açude).

Porém, essa prática mantém o coronelismo, já que os donos das grandes propriedades podem trocar a água de seus açudes pelo voto de seu candidato a um cargo político. Ou até mesmo manter a exploração para com os pequenos e médios proprietários, já que os grandes proprietários podem cobrar uma taxa dos pequenos e médios por água retirada de seus açudes.  

Agora, juntando a notícia abaixo, com esse esquema sujo e o ano em que estamos (ano eleitoral), qual você acha que é a possibilidade disso realmente acontecer? Pois é... 

Balanço das defesas civis estaduais aponta que 8,3 milhões de pessoas já são afetadas pelos problemas da estiagem em oito dos nove Estados nordestinos –somente o Maranhão não informou os afetados nas cinco cidades com decreto reconhecido. O número vem crescendo ao longo das semanas, já que muitas comunidades estão consumindo o restante da água armazenada em chuvas do ano passado.
Segundo dados de um mapa de chuvas do Nordeste em julho, divulgado pelo Lapis (Laboratório de Processamento e Imagens de Satélite da Universidade Federal de Alagoas), as regiões semiáridas dos Estados de Sergipe e Alagoas registraram precipitações, mesmo que em pequena quantidade, que ajudaram a revitalizar o pasto dos animais. Já Estados como Bahia, Ceará, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Paraíba continuam sem chuvas nas regiões semiáridas.
Dados de estações de captação de chuvas instaladas na região, em áreas como o Sul do Ceará e Piauí, noroeste da Bahia e oeste de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte, não registram nenhuma chuva este mês. A previsão é de que só chova dentro de dois meses.

A SECA DO NORDESTE EM JULHO

  • Lapis/Ufal
    Cor vermelha mostra onde situação é mais crítica

Agravamento

“As chuvas têm se concentrado na faixa litorânea do Nordeste, onde a estação chuvosa vai de abril e agosto. Mas nas regiões agreste e sertão, os meses de maior concentração das chuvas são fevereiro, março, abril e maio. E este ano as chuvas foram consideravelmente abaixo da média histórica. A seca ambiental já está deflagrada há três meses. E como a distribuição das chuvas é pequena, nos próximos meses a tendência é de a situação agravar mais nessas duas regiões”, informou o meteorologista e coordenador do Lapis, Humberto Barbosa.
Apesar das chuvas que caíram em algumas áreas, os problemas causados pela falta de água persistem no Nordeste. “As chuvas registradas nos poucos municípios do agreste e do sertão do Nordeste não são suficientes para reverter as secas hídrica e agrícola. As chuvas que poderão alterar o quadro atual de secas na maior parte do Nordeste, sobretudo do sertão, estão previstas a partir de outubro”, disse.
Na Bahia, Estado mais atingido pela estiagem e onde 2,7 milhões de pessoas são afetadas, a situação ainda é considerada crítica. “Choveu muito pouco, quase que de forma insignificante. Nesse inverno houve algumas chuvinhas que molharam o solo, fizeram brotar a vegetação. Mas do ponto de vista do acúmulo de água, que é o mais importante, não existiu. A chuva, sem sombras de dúvida, ameniza o calor, diminui a evaporação, mas não reverte o quadro”, disse o coordenador da Defesa Civil da Bahia, Salvador Brito.
Com o fim da validade dos decretos municipais, muitas prefeituras já publicaram novos decretos de situação de emergência para garantir a agilização de gastos públicos. “Vários municípios estão demandando esses novos decretos, embora tenhamos uma portaria federal que está em vigência até 23 de setembro. Até lá eles estão cobertos, mas precisam renovar, para atender as necessidades do ente município. Verbas federais já estão garantidas.
Por conta da falta de acúmulo de água nos municípios, o serviço de assistência aos moradores de áreas atingidas aumentou durante o inverno. “A distribuição de carro-pipa aumentou porque essa água dessas chuvas não fizeram reserva nos municípios mais afetados”, disse Brito.

NÚMEROS DA SECA NO NORDESTE

  • Arte/UOL

Prejuízos

A seca causa uma série de prejuízos à área rural. Em Pernambuco, o prejuízo na produção de carne já chega a R$ 824 milhões, além de mais R$ 32 milhões na pecuária de leite, entre os meses de março e abril, totalizando R$ 856 milhões, segundo dados da Agência de Defesa e Fiscalização Agropecuária de Pernambuco. A estimativa de perda de peso dos animais nesses três meses é de 30% para os bovinos e de 15% para os caprinos e ovinos.
No Ceará, houve redução de 87% na safra de grãos de 2012, em comparação com o ano anterior. Dos 178 municípios, 162 tiveram perda de mais de 50% na produção, segundo dados do Comitê de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) do Ceará. As culturas mais afetadas são feijão, milho, mamona, arroz e algodão.
Na Bahia, a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado da Bahia (Faeb) avalia que a pecuária de corte, assim como a de leite, apresenta sinais de redução de oferta de animais para abate. A previsão é de que, em 2013, haja menor oferta de bois prontos para serem comercializados, devido à antecipação de animais que só seriam ofertados no próximo ano.

Investimentos


Em balanço encaminhado ao UOL, o Ministério da Integração Nacional informou que já foram gastos mais de R$ 300 milhões em ações emergenciais. A principal das medidas, o Bolsa Estiagem, havia pagado até este mês de julho R$ 60 milhões a 113 mil famílias de regiões atingidas, incluindo Minas Gerais, onde 4.587 famílias afetadas pela seca são beneficiadas. Outra medida direta ao agricultor foi o pagamento do Garantia Safra, que destinou R$ 158 milhões a 233 mil beneficiados.Investimentos

O ministério também afirma que já empenhou R$ 60 milhões para a recuperação de 2.400 poços, que devem atender a 120 mil famílias. Desse total, R$ 48,1 milhões já foram empenhados e R$ 6,5 milhões pagos aos Estados de Bahia, Minas Gerais, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe. Os demais Estados ainda dependem de envio de documentos. Para socorro e assistência já foram pagos R$ 101 milhões dos R$ 125 milhões previstos no orçamento. (Com Agência Brasil)





domingo, 22 de julho de 2012

Eternamente Ab’Saber !

Um belo texto sobre um dos maiores e melhores geógrafos de nosso país...

Herdeiro de uma filosofia nos moldes das antigas escolas de formação humanística, o professor Aziz Nacib Ab’Saber é dono de uma importante trajetória intelectual associada à geografia, às ciências humanas e à sociedade em geral. Emborageógrafo especializado em geomorfologia, Aziz fazia parte de uma geração de cientistas rara, com formação escolar holística, característica da educação pública brasileira até os anos 1960. Nela, valorizavam-se a transmissão do conhecimento, a preparação do aluno para compreender o mundo na sua totalidade e o saber como algo constituinte da soma interdisciplinar das diferentes ciências. Essa herança resulta dos ensinamentos das escolas da Grécia Antiga, em que os filósofos também possuíam conhecimento de Matemática, Medicina e Economia, entre tantos outros campos do saber. Enfim, dedicavam-se a resolver os mistérios da vida em todos os seus aspectos, do natural ao social, do universal ao particular.
Sua produção acadêmica tem grande relevância para vários campos do saber e vem carregada de inovações no uso do método para analisar as questões associadas à dinâmica da natureza e da relação do homem com seu espaço geográfico. Conhecedor como poucos do território brasileiro em suas múltiplas escalas, Ab’Saber foi um dos precursores da Teoria dos Redutos, importante para explicar a evolução e a dinâmica de determinados ambientes naturais do território nacional. Esse estudo pioneiro (complementar à Teoria dos Refúgios) foi acompanhado de muitos outros tratando de temas que possuem interface entre as ciências naturais e as humanas.
Pesquisou de maneira detalhada o relevo brasileiro, sua gênese e evolução desenvolvendo classificações que se tornaram referência tanto para os estudos geográficos quanto para os de outras ciências. Entre os muitos trabalhos, destaca-se a proposta de análise da estrutura e compartimentação do relevo brasileiro, estabelecendo associação da geomorfológica com os processos geológicos, edáficos, climáticos e botânicos. É a partir dessa concepção que o professor propôs uma classificação para o que ele chamou de os grandes domínios morfoclimáticos e fitogeográficos do País. Essa proposta de classificação do relevo brasileiro, juntamente com o material cartográfico e os desenhos esquemáticos elaborados é um rico acervo didático, amplamente utilizado no ensino da Geografia nos níveis da Educação Básica e Superior.
No campo da geografia humana, dedicou-se em parte à compreensão da interferência do homem no ambiente natural. Nesse sentido, uma de suas preocupações incidia sobre o papel da urbanização como fator de alteração da natureza e seus reflexos no conjunto da sociedade, especialmente de que maneira o crescimento urbano desordenado produzia exclusão e perigos para as pessoas que habitavam as vertentes íngremes e as várzeas inundáveis. Com o enfoque na geografia urbana, Ab’Saber desenvolveu vários trabalhos versando, entre outras, sobre as cidades de Salvador, Porto Alegre, Manaus e São Paulo. No que se refere à última, fez relevantes reflexões sobre o sítio urbano, descrevendo e analisando as diferentes regiões da cidade. Em sua tese de doutorado A Geomorfologia do Sítio Urbano de São Paulo, defendida em 1957, observou a ocupação da -planície do Rio Tietê com suas colinas no entorno, quando o rio ainda era meandrante e a planície uma várzea coberta de pastos onde os animais de serviço pastavam, frequentemente muares que transportavam em suas carroças mercadorias para o centro da cidade. Nessas áreas, havia também, além dos clubes de regata e natação, os campos de futebol de várzea, chamados “campos de várzea”, onde surgiram tradicionais clubes e importantes jogadores do futebol paulista.
Os grandes romances e o ambiente
A formação acadêmica e humanista de Aziz Ab’Saber foi também inspirada na produção literária, especialmente a de caráter regional. Ele fazia questão de lembrar que a leitura de importantes romancistas representava o passaporte para o resgate de uma gama de elementos presentes na paisagem e que as narrativas dos romances permitiam explicar a geografia no seu sentido mais amplo, incluindo tanto a natureza quanto o homem.  Foi um leitor atento dos seguintes romances: Os Sertões, de Euclides da Cunha; Vidas Secas, de Graciliano Ramos; Capitães da Areia e Jubiabá, de Jorge Amado, entre muitos outros. Em algumas dessas obras aparecem características associadas à dinâmica da natureza, mas também as mazelas humanas, como as grandes desigualdades sociais, em lugares marcados pela concentração da propriedade da terra e pela exploração da população mais pobre. Contrastes semelhantes ao que o professor verificou em seus trabalhos de campo tanto no sítio urbano da cidade de São Paulo e em seus arredores quanto nos distintos lugares do Brasil por onde ele passou.
Ab’Saber obteve reconhecimento também por seus estudos e atuações em favor da causa ambiental. No Brasil, foi um dos primeiros a ser reconhecido como ambientalista por sua obstinação pela preservação das áreas naturais, já prevendo que esse seria um dos grandes problemas que a humanidade enfrentaria no fim do século XX e início deste novo milênio. Quando foi presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), de1993 a1995, conclamava os pesquisadores brasileiros a realizar estudos que tivessem caráter interdisciplinar e lhes chamava a atenção para nossas riquezas naturais. Foi, nesse sentido, um defensor da Amazônia e do uso racional dos seus recursos naturais e da preservação dos modos de vida das populações dessa região. Com essa mesma ênfase defendeu, nos anos1990, anão privatização da Companhia Vale do Rio Doce, um patrimônio da sociedade brasileira que estava sendo usurpado pelos representantes do neoliberalismo, sem que esses esboçassem qualquer compromisso pelo bem-estar da nossa população.
O professor Ab’Saber pertencia a um grupo de expoentes intelectuais que não via a academia apenas como um lugar de produção de conhecimento destinada a uma parcela privilegiada da população ou de poucas empresas hegemônicas. Antes, acreditava que a universidade deveria cumprir o seu papel social, de produzir conhecimento também para os excluídos, exatamente os que mais necessitam dos avanços conquistados pela academia. Por isso, pregava uma democratização desse espaço de produção do conhecimento, rompendo os seus muros e irradiando o conhecimento gerado para os diversos cantos do País.  Essa democratização, entretanto, passa também, segundo avaliava, pelo acesso dos pobres à universidade e, nesse sentido, foi um incansável defensor de melhorias nas escolas públicas do Ensino Básico, por achar que essa seria a melhor alternativa para que o Brasil verdadeiramente se transformasse numa nação. Foi com esse espírito humanista que ele também se juntou aos movimentos sociais, buscando apoiá-los em suas manifestações, especialmente naquelas que lhes davam mais possibilidades de exercer a sua cidadania.
O acesso das pessoas ao livro, por exemplo, foi uma das suas buscas obstinadas. Para ele, a leitura permitia ao ser humano alcançar novas descobertas e se emancipar das amarras das classes dominantes. Por isso, empreendeu uma luta para ampliar os canais de leitura nas periferias das grandes cidades, especialmente do estado de São Paulo.
A Geografia em sala
A mesma dedicação que possuía em relação à pesquisa, ao trabalho de difundir as atividades de leitura ou de defender a nossa biodiversidade, também demonstrava em relação ao ensino de Geografia. Preocupou-se sempre em fazer mais acessível às pessoas os seus estudos, produzindo material didático que pudesse ser utilizado no ensino da disciplina. Como professor, não fazia distinção se o local era uma universidade renomada ou um pequeno salão coberto por lona, se era para alunos de pós-graduação ou pré-vestibulandos da periferia, a postura sempre foi a mesma e com o mesmo entusiasmo discutia seus apontamentos.
A erudição era ponto de destaque em suas aulas, entretanto, sem que a análise de uma teoria se transformasse em algo que pudesse caminhar para a incompreensão de seus alunos e/ou ouvintes. Ab’Saber possuía uma didática invejável. Nas suas exposições eram transmitidos os conceitos de determinados fenômenos físicos ou humanos com todo o rigor acadêmico, mas também para ensiná-los recorria a situações do cotidiano, contadas frequentemente com muito humor.
Essa maneira de ensinar do professor Ab’Saber, combinada com o seu amplo conhecimento teórico e empírico das dinâmicas geográficas, especialmente do território brasileiro, fazia com que as salas de aula, os anfiteatros ou qualquer outro recinto estivessem sempre lotados por distintos tipos de público, especialmente por jovens estudantes que viam no discurso do velho professor a proposição de questões muito atuais sobre os problemas do mundo contemporâneo.