terça-feira, 22 de outubro de 2019

Acordo do Brexit é aprovado por diferença de 30 votos, mas nada está definido.

Depois de três anos, desde o início do processo, foi aprovado no parlamento europeu  o acordo conhecido como "brexit", que estipula os termos de saída do Reino Unido da União Europeia. Embora o acordo ainda tenha que passar pela Câmara dos Comuns, é a primeira vitória de um primeiro-ministro neste processo, que teve início há três anos e há três ministros. 

Mesmo com a pequena vitória, o atual primeiro-ministro, que tem enfrentado resistência no parlamento por sua postura mais radical em relação ao Brexit, expondo publicamente que o acordo sairá no dia 31 de outubro de qualquer jeito, ainda tem uma árdua batalha pela frente para concretizar a saída do Reino Unido da União Europeia. 

O acordo costurado por ele tem mais de 100 páginas e precisa ser lido pelos participantes da Câmara dos Comuns para ser votado. Há 8 dias do prazo final para o Brexit, não nos parece que este prazo será cumprido. Entra aí mais um pedido de extensão do prazo para definir o Brexit, agora para janeiro de 2020. 

Entretanto, esta não parece ser a vontade do primeiro-ministro que fez sua campanha prometendo o Brexit ao final deste mês. Mas, ao que tudo indica, não vai cumpri-la. Tanto que já mandou ofício, embora não assinado, o que expressa sua insatisfação, pedindo a extensão do prazo para saída da União Europeia. Algo que pode ser negado pelo bloco e forçaria um Brexit sem acordo, ou Brexit duro, como andam dizendo. 

Entre as questões que promovem esse entrave, está a questão das fronteiras entre as Irlandas e os acordos econômicos relacionados as tarifas alfandegárias entre eles (explicações mais detalhadas você encontra clicando aqui e aqui). Ambas causam divergências dentro do parlamento e da Câmara dos Comuns que já promoveram a chegada do terceiro ministro em três anos, por não conseguir um acordo que agrade não só aos ingleses como ao bloco. 

Apesar da vitória, o primeiro-ministro ainda tem muito a fazer para tirar esse acordo do papel e conseguir por ele em prática. Contudo, a não ser que haja uma reviravolta digna de um Oscar, o prazo de um Brexit em 31 de outubro certamente não será cumprido por ele. 

terça-feira, 8 de outubro de 2019

A importância da P**** da árvore!

Muitos apoiadores da economia marrom, vem contestando e entoando políticas de exploração agressiva em relação a floresta amazônica que tem sido vista como um empecilho para a ambição humana. Especialmente nos últimos tempos, em épocas de marmanjos usando fotos fake para atacar meninas de 13 anos que realmente lutam por uma causa justa. 

Diante disso, resolvemos listar aqui a importância, não só da Floresta Amazônica, mas de qualquer árvore para o planeta e para a vida nele. Vamos a ela... 

  • Servem como "casa" para milhares de animais, fungos e bactérias, contribuindo para a biodiversidade no planeta, abrigando diversas espécies. 
  • Atuam ajudando a regulação do clima global. Suas raízes permitem a absorção da água do solo e suas folhas a enviam para atmosfera, ajudando no regime de chuvas. 
  • Evitam inundações, pois retém água que poderia ir para os corpos hídricos facilitando esses eventos. 
  • Servem para fixar o solo e impedir que o mesmo seja transportado em eventos de chuva por meio de escorregamentos de massa. 
  • Freiam a erosão que teria um alto poder em ilhas e áreas litorâneas, podendo levar tanto ao desaparecimento de ilhas quanto a perda de recifes e corais por "soterramento".
  • Fornecem sombra, o que ajuda a reduzir a temperatura local, além do fato de absorverem calor ou invés de refleti-lo, o que torna o microclima mais agradável em áreas onde sua presença é maciça. 
  • "Combatem" o aquecimento global já que são sequestradoras de carbono da atmosfera, que fica armazenado em seus troncos. 
  • Fornecem "remédios", aquecem a população fornecendo lenha (que também pode ser usada para cozinhar), e são usadas na construção de casas (claro que esses usos devem ser moderados e sustentáveis). 
  • Garantem o sustento de vários setores da economia: madeireiros, extrativistas, fruticultores, carpinteiros e etc... (mais uma vez: de forma sustentável!).
  • Evitam que milhões de pessoas sofram com problemas respiratórios ou ameniza esses problemas por absorver carbono que ficaria na atmosfera, além de outros poluentes. 
  • Ajudam na recuperação de doentes. Estudos mostram o uso de árvores em tratamento de pacientes com os mais diversos distúrbios, incluindo os mentais. 
  • "Chove porque tem árvore e não tem árvore porque chove": as árvores são grandes responsáveis pelo regime de chuvas de uma região, por conta da evapotranspiração que leva grande quantidades de vapor d´água para a atmosfera que, ao se condensar, viram a chuva nossa de cada dia. 

Esperamos que essa "pequena" lista, ajude as pessoas que não veem importância alguma na árvore a entender a real e profunda dimensão de sua contribuição para a manutenção da vida no planeta. E, quem sabe, entender o que até crianças de 13 anos já entendem e divulgam por aí: a p**** da árvore é sim importante! e cuidarmos delas será vital para nossa sobrevivência neste planeta, bem como das futuras gerações. 



Com informações da BBC Brasil.      

terça-feira, 1 de outubro de 2019

O discurso por trás do discurso na ONU

Foi assunto notório na semana passada, e ainda é, o discurso do presidente brasileiro na ONU, principalmente sobre a forma como a questão indígena foi tratada pelo mesmo, inclusive dedicando a maior parte do seu discurso a isso. 

O discurso está abaixo. 


Alguns pontos, chamam a atenção neste discurso e nós comentaremos eles rapidamente

1 - Não é de se espantar que de cara um dado já esteja errado neste discurso. Quando o presidente afirma que 14% das terras brasileiras estão protegidas, ele comete um erro de dado, já que, segundo dados da FUNAI, nem se somarmos todos os percentuais de terras homologadas e em estudos chegaremos aos 14% do território brasileiro. Você pode até nos acusar de preciosismo, mas uma imprecisão vinda de um representante máximo da nação que "comanda" inclusive o órgão responsável por produzir o dado dito em seu discurso não pode e não deve passar desapercebido. 

2 - Nem vamos nos alongar na parte do "à beira do socialismo", pois este nunca existiu em lugar algum além do papel. Se você discorda, compare os países ditos socialistas, inclusive a URSS e veja se o "socialismo" deles era o mesmo, ou até mesmo compare com o dito socialismo de mercado chinês. O que se teve por aí foram apropriações da ideologia socialista, deturpadas de acordo com os interesses de cada governo que o "adotou". Dizer que um país esteve à beira do socialismo faz tanto sentido quanto nazismo de esquerda... 

3 - Atacar líderes de outros países, direta ou indiretamente, atacar a ONU e trazer uma indígena sem representatividade alguma para legitimar a destruição da Floresta Amazônica é de fazer qualquer agricultor e minerador vibrar de alegria. Isso sem falar do ataque direto ao cacique Raoni que dedicou praticamente a sua vida inteira em defesa da Floresta Amazônica, chamando o mesmo de monopolizador. Monopolizador  do quê? Dá vontade dos indígenas de manter a floresta em pé? Ou da vontade da população brasileira de não explorar a floresta como mostrou uma pesquisa?

4 - É de se observar que o discurso do presidente nos remonta à ditadura militar e seu discurso "integrar para não entregar", onde se pregava a exploração econômica da Amazônia para que outros países não a façam por nós e invadam nosso território. 
Algo que soa mais ou menos como "A Amazônia é nossa, então devemos explorá-la ao máximo, pois, senão, outros virão e farão isso em nosso lugar". Mas, aí vem outra questão, cadê a tal bradada soberania brasileira na hora de defender que os tais interesses internacionais se apossem da Amazônia? Em que esfera a destruição da floresta por motivos puramente econômicos significa a demonstração de nossa soberania sobre o lugar? Voltamos aos tempos de colônia onde forçavam nosso domínio através da exploração? É de uma mentalidade colonialista invejável... 


5 - Como se isso não fosse pouco, ainda tenta pifiamente legitimar o seu discurso levando a tiracolo uma indígena (Ysani Kalapalo) cuja representatividade é zero, já que não representa nem o pensamento de sua própria tribo, os Kalapalo, que aliás vivem no território do XIngu, enquanto ela vive em São Paulo (algo que mostra bastante conexão com sua terra natal e o quanto ela está alinhada ao pensamento de sua tribo); algo que pode ser visto em carta aberta assinada por mais de 10 tribos indígenas, inclusive a tribo dela, discordando veementemente do discurso do presidente na ONU.

6 - Isso sem contar a tentativa de desmerecer o cacique Raoni, que tem décadas de sua vida dedicada a preservação da floresta amazônica, assumindo assim um papel de representatividade e liderança no combate a exploração ilegal e desenfreada da floresta amazônica, sendo figura internacionalmente conhecida e de representatividade ímpar. Desmerecer o cacique e acusá-lo de monopolizador é tentar desqualificar anos de luta em favor da floresta e dos povos que precisam dela "em pé" para sobreviverem, que a tratam com respeito e têm muito a ensinar ao "homem branco" sobre a preservação da floresta. 

São atitudes como essa que explicam os recordes negativos que a Floresta Amazônica vem batendo nos últimos meses, que tentam legitimar discursos infundados de que o país preserva suas florestas mais do que os outros (comparação que jamais deve ser feita, salvo as guardadas proporcionalidades entre pontos de comparação, algo que jamais foi ponderado em comparação feita pelo presidente ou qualquer um dos seus), também explicam o aumento recorde de invasão de terras indígenas, mas também mostram a fragilidade de um discurso que se baseia no radicalismo, esbanjando palavras agressivas, mas de conteúdos profundos como um pires. 

Algo que pode ser notado de maneira simples, neste mesmo episódio, ao observarmos que o discurso abaixo, foi atacado desta maneira


  

Quando não se tem ideias concretas, quando o discurso proferido é baseado no radicalismo e o conhecimento é raso, o resultado não pode ser mais vexaminoso. Pior ainda é ver um adulto usar de mentiras para desqualificar uma criança, que ao que parece, entende muito mais sobre a questão climática global do que quem a atacou. Atitude covarde, mas que expressa bem como a opinião neste governo é calcada: usando ataques pessoais e inverídicos ao invés de uma argumentação embasada no diálogo e na troca de conhecimento. 

Não à toa uns ganham o Nobel alternativo da paz e outros...   

Para encerrar, gostaríamos de dividir a utopia de um discurso que, certamente, jamais será proferido pelo atual presidente na ONU, mas esperamos e torcemos para que um dia, alguém seja capaz de fazê-lo como representante máximo de nosso país. 

O discurso é esse aqui.  


terça-feira, 17 de setembro de 2019

Geoplaylist (Caetano Veloso - Um Índio)

Já faz um tempo que não publicamos essa seção aqui no blog, mas devido aos últimos acontecimentos e a postagem anterior, hoje decidimos colocar aqui uma música antiga, mas que não perdeu sua contemporaneidade. Estamos falando de "Um Índio" de Caetano Veloso. 


Apesar da qualidade do vídeo ser um tanto desejável, conseguimos depreender a letra e nos atentarmos ao fato da mesma fazer uma denúncia a como o "homem branco" vem tratando os indígenas desde a época colonial. 

Infelizmente, mesmo séculos depois, o tratamento destinado não só aos indígenas como aos demais povos da floresta é o de vendê-los como um entrave para a exploração dos recursos que habitam as reservas e florestas naturais do nosso país. 

Atualmente, vemos o indígena ainda mais ameaçado. Sua existência, cultura e toda sua influência que compõem a colcha de retalhos que é a cultura brasileira, nunca sofreram um ataque tão nítido quanto agora.  Diante deste cenário, o que é descrito na música, já são parece mais um desejável futuro longínquo, mas uma triste realidade que se aproxima a passos largos. 

Diante disso, deixamos aqui esta música e, como sugestão de atividade, a ideia de trabalhar a importância dos indígenas não só em termos culturais, mas também ambientais. Explorar sobre o seu modo de vida, sua relação com a natureza e coletar lições valiosas que nos convidam a repensar nosso modo de vida e o tratamento que damos ao meio ambiente. 

Além disso, podemos também olhar os indígenas sobre o prisma do desmatamento das florestas e as ameaças que os interesses por trás deste desmate acarretam as reservas indígenas e até mesmo a população indígena como um todo e, num olhar mais amplo, ao mundo inteiro. 

terça-feira, 3 de setembro de 2019

O que não pode ser omitido de você sobre a questão ambiental brasileira

Ultimamente não se fala em outra coisa sobre o aumento no desmatamento da Amazônia, devido as marcas históricas alcançadas por ele, especialmente no mês de agosto e por eventos como o "dia do fogo". Inclusive tem rodado um vídeo no Youtube, que você pode conferir abaixo, sobre algumas afirmações a cerca da agricultura brasileira e alguns dados de relação ao uso da terra em nosso país. 


Antes do vídeo, vamos deixar algumas coisas claras:

1 - Muito tem se falado que "só agora descobriram que a Amazônia queima?". Não. A questão não é essa. Se sabe que as práticas de queimada na Amazônia são antigas e isso, infelizmente não é nenhuma novidade. O problema é que os dados estão ultrapassando marcas históricas, de forma negativa. 

Já temos o pior Agosto dos últimos 20 anos em relação ao desmatamento. Isso sem contar eventos como o terrível "dia do fogo" e o dia em que São Paulo ficou mais cinza do que costume, gerando até trending topics no Twitter. ESSES SÃO OS PROBLEMAS!

2 - Não é difícil de encontrar também pessoas que justificam o desmatamento da Amazônia, visto que ela não é o pulmão do mundo. Embora a afirmação sobre o pulmão do mundo seja verdadeira - isso fica a cargo das algas nos oceanos - a questão não é pautada nisso. A floresta amazônia tem importância climática, biológica, genética e etc. para o mundo, não somente para o Brasil (vídeo abaixo). 



3 - Justificar o desmatamento em cima de um argumento que não cabe, não é só tendencioso como reforça uma espécie de cultura rasa que vem se estabelecendo nos últimos anos, especialmente com o advento da internet, onde as pessoas não checam mais as informações e reproduzem o que veem nas redes sociais, muitas vezes não se dando nem ao trabalho de ler a notícia na íntegra, parando no título. 

Agora vamos o vídeo sobre o qual me referi, peço que o leitor o assista primeiro para depois ler as observações sobre o mesmo abaixo. 




Ao que parece o vídeo foi gravado no ano passado, próximo da época das eleições (dados aos gracejos feitos), mas isso é o de menos. Mas vamos aos pontos que desejamos destacar. 

Fica nítido a afirmação do funcionário durante toda a palestra em diminuir as áreas de proteção ambiental, seja as de uso quilombola, terras indígenas, reservas florestais ou semelhantes, sempre justificando que  quase metade do Brasil é todo preservado e que o pobres agricultores ficam encurralados em suas propriedades.

Um dos primeiros tópicos abordados pelo palestrante é um comparativo entre áreas protegidas no Brasil com o a Argélia. Algo que, vamos combinar, totalmente desproporcional. Afinal de contas, quantas "Argélias" não cabem em um Brasil? 

Ainda nesta questão, sempre acompanhada de um tom de desdém (que predomina na palestra inteira), é apontado que a área preservada nos outros países, e na Argélia também, são áreas de deserto. Quem vê de fora acha que o deserto é uma área que não apresenta nenhum atrativo, inclusive porque a mesma é sumariamente desqualificada durante o vídeo, mas dois pontos foram "deixados de lado". 

O primeiro ponto refere-se ao "porquê" da necessidade de preservar áreas de deserto; algo que não foi explicado em momento algum. Há esta necessidade para impedir que o deserto avance, especialmente se práticas agrícolas, para ficar no cerne da questão, foram realizadas no seu entorno, o que enfraquece o solo e permite o avanço do deserto. Algo que, inclusive, já está acontecendo no deserto do Saara, que avança no sentido Norte-Sul por conta (também) de práticas agrícolas (desde os tempos coloniais) por lá feitas. 

O segundo ponto, que também foi "esquecido" refere-se a biodiversidade que os desertos apresentam. Ao contrário do que se imagina, alguns desertos apresentam uma riquíssima biodiversidade que, infelizmente, estão sofrendo ameaças por conta das mudanças climáticas. 

Esses pontos já nos ajudam a perceber algo tendencioso na palestra apresentada que reforça um vitimismo por parte dos agricultores e que busca legitimar o uso pleno das terras brasileiras para a agricultura. 

Outro ponto da palestra refere-se a um manifesto publicado por agricultores nos EUA chamado, em tradução livre, de "Fazendas aqui, Florestas lá". Segundo o vídeo, este movimento quer que o governo dos EUA ajude outros países, como o Brasil, em projetos de financiamentos de proteção às suas florestas para que eles, em suma, plantem cada vez menos, enquanto os agricultores norte-americanos plantem (e lucrem) cada vez mais. 

Este movimento é usado para reforçar o achincalhamento de nossa política de preservação do meio ambiente, quando dados econômicos estimados por este movimento são apresentados (algo que deve fazer brilhar os olhinhos dos grandes latifundiários), mas que ignora completamente riscos ambientais que os mesmos sofreriam caso esta prática fosse colocada em vias de fato. Mas, vindo dos EUA, isso não nos espanta e a justificativa da não assinatura do Protocolo de Kyoto junto com a saída do Acordo do Clima de Paris nos mostram o porquê. 

O que nos assusta de fato é que movimentos como esse têm ganhado voz aqui no Brasil (o dia do fogo que o diga) e isso ameça cada vez mais a Floresta Amazônica). 

Num outro momento do vídeo, o questionamento se dirige agora para o CAR (Cadastro Ambiental Rural). O serviço é funciona como uma forma de controle sobre o quanto da propriedade rural realmente é dedicada para a preservação e se a mesma equivale a área determinada por lei vigente. 

A nosso ver a ideia é uma forma eficaz ao que se propõe desde que haja uma fiscalização rigorosa, mas parece que o palestrante do vídeo pensa diferente. 

Logo no começo ele faz uma comparação estapafúrdia dizendo que o CAR foi o maior trabalho escravo do Brasil, pois os agricultores foram obrigados a contratar empresas de georreferenciamento "picaretas" para realizar o trabalho. Como se isso pudesse ser comparado ao trabalho escavo e como se só existisse empresa de georreferenciamento que não presta. Mas como o foco é o meio ambiente... 

Seguindo ainda no CAR, são mostrados dados que revelam que as áreas preservadas pelos agricultores (por força de lei é sempre bom que se diga) estão conectadas. O que é mostrado com espanto durante o vídeo. Entretanto, o que nos assusta é que parece que os agricultores têm mais consciência sobre o conceito de corredor ecológico do que um dos chefes da EMBRAPA! 

É óbvio que as áreas de reserva devem se conectar. Isso é um dos pontos vitais para a sobrevivência de animais que ali vivem, pois conseguirão transitar por áreas maiores para se alimentar, procurar água ou mesmo se estabelecer em grandes bandos, dependendo do animal; não ficando encurralados a uma pequena área com escassez de recursos. É de se espantar que esse conceito não esteja em tela durante a palestra... 

Como se não fosse pouco, ainda é pautado na palestra que indígenas, quilombolas e reservas florestais ocupam muito espaço, inclusive com insinuações de que isso atrapalha a agricultura do país. 

Contudo, em momento algum se comenta que o nosso país era território indígena antes da chegada do europeu. Que o colonizador perseguiu, escravizou, dizimou e aculturou o verdadeiros donos dessa terra, que tiveram que se esconder (aqueles que puderam) no interior da floresta amazônica para fugir dos horrores do "homem-branco".

Assim como não se comenta os horrores vividos por afrodescendentes que foram arrancados de sua terra-mãe para serem escravizados aqui no Brasil, como muitos nasceram e morreram escravos sem sequer saber o que é liberdade. E que mesmo 150 anos após o fim da escravidão, a mesma continua velada e segrega a população negra que, em sua grande maioria, vive marginalizada na sociedade. 

Então, as terras a eles dadas não são muitas não, pelo contrário, são poucas, ínfimas. Tamanha a dívida histórica que temos com estes grupos. Apesar de hoje agirmos como donos do país, temos que pôr a mão na consciência vermos realmente quem deveriam ser os donos das terras. 

Em outro ponto (ou seria absurdo?) de destaque na palestra é evidenciado que a agricultura brasileira seria muito mais produtiva se não houvesse tanta proteção às terras como há no Brasil e que o agricultor brasileiro é o que mais preserva suas terras, fechando com o questionamento do quanto seria lucrativo se não houvesse tanta proteção assim. 

Voltamos a dizer que essa "proteção" tão menosprezada durante a palestra só ocorre por força de lei (infelizmente, pois poderia ser por consciência ecológica). Também cabe aqui salientar que nossa produção agrícola é voltada para o mercado externo. Somos um país que produz safras recordes e estamos entre os maiores produtores mundiais de certos alimentos, mas quase nada disso chega à mesa dos brasileiros. Produzimos só de milho o suficiente para alimentar 3 "Brasis", mas quase nada disso fica em nosso território. 

Em fala (sempre em tom jocoso) o palestrante afirma que somos um país que resolveu todos os seus problemas e que por isso pode deixar terras sem serem cultivadas. De fato, estamos longe de resolver nossos problemas, entretanto distribuir as terras protegidas ou permitir que agricultores plantem em toda a sua extensão não vai resolver nenhum deles. 

A maioria da população continuará passando necessidade e nós continuaremos a bater safras recorde de gêneros alimentícios que não ficarão em nosso país. Afinal de contas a prioridade não é alimentar a nossa população, é fazer ração para engordar porco, cavalo e boi na China, nos EUA e na Europa.

Quando nos deparamos com palestras como essa, não fica difícil compreender certos posicionamentos do governo que permitem que episódios como o dia do fogo ocorram, mas que sejam atribuídos, devido a um "sentimento", a ONGs de proteção a Amazônia, que teriam perdido o repasse de verbas dado pelo governo brasileiro, mas que vem do "Fundo Amazônia", mantido majoritariamente por Alemanha e Noruega, que, por sua vez, decidiram suspender o repasse ao fundo por conta do uso que o atual governo está pretendendo fazer dele

Embora, ainda hajam pessoas que não pensem desse jeito (ainda bem!), enquanto tivermos uma política e ambiental e externa comparáveis a uma criança com birra que não quer dar o braço a torcer e faz cada vez mais declarações com o intuito de desviar o foco principal ou acusações baseadas no "sentimento", estaremos caminhando, infelizmente, para um cenário sem volta.