segunda-feira, 25 de março de 2013

Chipre: ceder para não sucumbir

Selada às pressas na madrugada desta segunda-feira, o acordo entre o Chipre e a Troika (União Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional) salva a ilha de sair da zona do Euro. No entanto, não antes sem cobrar "sua parte".

Em troca de "salvar o pescoço" da ilha, a Troika exigiu a extinção do segundo maior banco do país, que será divido em 2, além da taxa sobre as poupanças com mais 100 mil euros em suas contas. 

Essa medida era a mais polêmica do pacote. 

Em princípio, se estimava fazer ao contrário do proposto: taxar todas as poupanças com valor inferior aos 100 mil euros. Contudo, temia-se uma corrida aos bancos para retirar dinheiro, pois, se torna mais em conta você guardar dinheiro no colchão, sem impostos, do que no banco, com impostos. (algo parecido aconteceu aqui na Era Collor... Lembram ?)

Só o simples fatos dessa medida ter sido ventilada na mídia causou protestos da população que pressionaram o governo por uma medida alternativa que, dada a gravidade da economia da ilha, não tardou a surgir. 

O Chipre agora se compromete a seguir a cartilha da Troika para colocar sua economia nos eixos - mais uma economia abalada pelos resquícios da crise econômica de 2008 que assim como "Caverna do Dragão" parece não ter fim. 

BRUXELAS (AFP) – A Eurozona e Chipre chegaram a um acordo de última hora na madrugada desta segunda-feira 25 para conseguir um plano de resgate para ilha de 10 bilhões de euros. O acordo firmado com a troika (União Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional), no entanto, exige como contrapartida a liquidação do segundo banco cipriota e um confisco de 30% em todos os depósitos bancários acima de 100 mil euros na ilha, que servia como paraíso fiscal. A principal diferença entre o acordo desta segunda e as propostas anteriores foi a decisão de manter intocáveis os depósitos bancários inferiores a 100 mil euros, que, caso fossem taxados, representariam uma medida altamente impopular.

“O acordo acaba com a incerteza em Chipre e na zona do euro”, afirmou o presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, após as complexas negociações. “Evitamos o desastre e a saída do país da zona do euro”, afirmou o ministro das Finanças cipriota, Michalis Sarris.
O novo acordo prevê o fechamento e liquidação do Banco Laiki, o segundo maior do país, que se dividirá em um banco bom e um banco ruim. Já o Banco de Chipre (Bank of Cyprus), o maior do país em volume, permanecerá em funcionamento, em troca de um confisco, que alcançará 30% nos depósitos superiores a 100 mil euros no Bank of Cyprus.
No final da semana passada, o Banco Central Europeu (BCE) havia ameaçado interromper as medidas para fornecer liquidez aos bancos cipriotas caso um acordo não fosse concluído até segunda-feira.
A negociação às pressas, porém, deixa algumas pontas soltas: nem os dirigentes europeus nem as autoridades cipriotas especificaram quando os bancos do país serão reabertos. Além disso, a partir de agora, os bancos da ilha estão submetidos à lei de restrição de movimento de capitais.
“Temos que encontrar um equilíbrio entre prudência e estabilidade. Vamos decidir o mais rápido possível o dia exato de reabertura dos bancos”, disse o ministro de finanças cipriota, sem garantir que a reabertura aconteceria nesta terça-feira 26, conforme era prevista.
Para alcançar um acordo, o presidente cipriota, Nicos Anastasiadis,  esteve reunido durante várias horas com os presidentes do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, e da Comissão Europeia, José Manuel Barroso, além da diretora geral do FMI, Christine Lagarde, do presidente do BCE, Mario Draghi, do presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, e com o vice-presidente do bloco europeu, Olli Rehn.
A ideia inicial de impor uma taxa excepcional aos depósitos bancários provocou revolta na opinião pública e culminou na rejeição da proposta pelo Parlamento cipriota na terça-feira da semana passada. Isso obrigou o governo do país a entrar em uma corrida contra o tempo em busca de outras alternativas.
Como evitar o colapso

Chipre se comprometeu com Bruxelas a arrecadar sete bilhões de euros (mais de um terço de seu PIB) em troca do resgate de 10 bilhões de euros concedido pela zona do euro e o FMI, valor que financiará o país durante os próximos três anos.

Diante das ameaças à economia do país, os deputados cipriotas adotaram na noite de sexta-feira as primeiras medidas: reestruturação do setor bancário, criação de um fundo de solidariedade e restrição do movimento de capitais.
Os países da Eurozona queriam uma solução no caso do Chipre para evitar um contágio na Grécia, Espanha e Itália, os países mais afetados do bloco.
Na ilha, onde os bancos permanecem fechados há uma semana, o pânico e a revolta dos correntistas, temerosos de perder suas economias ou fundos de pensões, é cada vez maior. O sindicato dos bancários do país ameaça fazer uma greve, caso não sejam apresentadas garantias para os fundos de pensões.
Com o acordo, a troika de credores (FMI, BCE e UE) espera desmantelar o hipertrofiado setor financeiro cipriota.
Muito expostos ao setor imobiliário e à dívida grega, os bancos cipriotas ofereciam juros muito altos e impostos reduzidos, um grande atrativo para os milionários russos, muitos deles ligados à máfia.
Como resultado, o país tinha um setor bancário seis maior que o tamanho de sua economia. Desde o início das negociações, Chipre tentou limitar o impacto aos grandes correntistas de seus bancos, a maioria não residentes na ilha. O FMI não queria o aumento da dívida do país após o acordo, o que a tornaria insustentável.



quarta-feira, 13 de março de 2013

Trabalho escravo rural: uma triste realidade

Sempre que tocamos nesse assunto, se pensa logo no nosso país. Por razões bem óbvias é verdade. Mas, essa não é uma realidade só nossa, o velho continente anda passando por isso. 

Inúmeros são os casos na Europa de processos de trabalho escravo abertos de "empregados" contra seus "empregadores". 

Com a globalização e a UE, a competição entre os produtores se tornou mais acirrada; o diferencial que define a balança nesse caso é justamente a mão-de-obra: quanto mais barata ela for, menor será o custo da produção nas lavouras. 

Nessa conta "simples" estão escondidos fatores como horas abusivas de trabalho, salário irrisório (isso quando há salário) e condições de saúde e moradia das mais precárias possíveis. 

Essas situações estão vindo a público agora, embora sejam bem antigas, e trabalhadores europeus, ou que conseguiram cidadania europeia por conta de seu país natal ser antiga colônia europeia, estão conseguindo reaver seus direitos na justiça contra seus "empregadores" (ou escravizadores?). 

Embora essa seja uma feliz notícia, há um porém (sempre há um porém)... Diante desse movimento crescente de processos contra os empregadores, os mesmos encontraram a saída em outro continente: a América. 

Aumenta cada vez mais o número de nativos do continente americano que vão trabalhar nas lavouras europeias... O problema é que as condições de trabalho são as mesmas mostradas acima. 

Sem domínio do idioma - nem todos vão para a Espanha - esses trabalhadores são mais fáceis de serem "dominados", com isso, viram reféns facilmente na mão desses "empregadores". 

Diante dessa lamentável situação, cabe aos órgãos competentes a fiscalização para que o trabalho escravo seja combatido e quem sabe até exterminado (utopia) da Europa.... Aliás, não só da Europa mas, do mundo inteiro. 

Aqui então, nem se fala... 




Mão de obra agrícola: o novo comércio triangular



A “migração circular do trabalho” pregada pela União Europeia acompanha reorientação dos fluxos de mão de obra. “Contratados” para migrar de seu país para a Espanha, país de acolhida, depois para a França, país com disponibilidades, trabalhadores temporários latino-americanos começam a substituir mão de obra magrebina

"Senhor Leydier, os documentos que tenho em mãos estão cheios de provas contra o senhor! Eu lhe dou a oportunidade de recuperar um pouco de dignidade e parar de se comportar como um bandido. Vou pedir uma última vez que o senhor responda à minha questão: o senhor continua afirmando que a senhora Naima Es Salah não trabalhava como empregada doméstica na sua casa?” Neste 12 de dezembro de 2012, o tribunal de grande instância de Aix-en-Provence ressoava as palavras cortantes da sua presidente.

O arboricultor de Grans abaixou a cabeça e manteve o silêncio. Sua antiga empregada marroquina, declarada como “trabalhadora agrícola”, esperava por esse momento desde que deu queixa penal, em setembro de 2003. Já em 2001, ela tinha ousado denunciar na televisão o destino dado àqueles que eram então chamados os “contratos OMI”,1 os trabalhadores sazonais.

Nesta quarta-feira, em que ela pensava? Nas suas doze a quinze horas de trabalho por dia, oito meses por ano, durante dez anos? Na proibição de sair e falar com os vizinhos? Nas ameaças de morte? O veredicto é pronunciado: um ano com sursis e 1 euro simbólico por danos causados por “fraude” e “trabalho dissimulado”.

“A droga pesada dos produtores mediterrâneos.” Há trinta anos, Jean-Pierre Berlan, diretor de pesquisa honorário do Instituto Nacional de Pesquisa Agronômica (Inra, na sigla em francês), já qualificava assim o recurso sistemático ao emprego de trabalhadores sazonais estrangeiros no sul da França. A introdução de culturas primárias intensivas a partir dos anos 1960 e 1970 fez explodir o número desses contratos. Em sua maioria marroquinos e tunisianos, esses trabalhadores representaram um verdadeiro “plano Marshall” para a agricultura provençal. Contudo, não por muito tempo: a entrada da Espanha na Europa agrícola e depois a livre circulação dos produtos imposta pelos acordos da Organização Mundial do Comércio (OMC) colocam em concorrência as áreas produtoras do mundo inteiro. O trabalhador sazonal se torna a variável de ajuste para os empregadores, diminui os custos de produção. O departamento de Bouches-du-Rhône, onde a patronal agrícola faz a lei, se afirma como o laboratório de um renascimento da imigração econômica.

Em outros locais, essa realidade permanece invisível − até o dia em que a palavra de Naima se fez ouvir. Desde então, o medo começou a diminuir. Em Saint-Martin-de-Crau, a greve dos 250 trabalhadores sazonais da Sedac, em julho de 2005, trouxe à tona as indignas condições de alojamento. Em fevereiro de 2010, a corte de cassação confirmou o julgamento: três meses de prisão com sursis, mais multas, para o empregador, Laurent Comte. Diante do tribunal administrativo, outro trabalhador rural, Ait Baloua, lutou contra o delegado de Bouches-du-Rhône. Em maio de 2010, o Conselho de Estado condenou o Estado a emitir um visto de permanência a esse antigo “trabalhador sazonal marroquino”, na realidade trabalhador permanente por 23 anos em uma propriedade na qual prestou gratuitamente o equivalente a quase três anos de trabalho em período integral.

Na planície de Berre, 24 assalariados abusivamente demitidos viram seus direitos serem reconhecidos depois de sete anos de processo no fórum trabalhista. Em dezembro de 2008, as duas propriedades responsáveis foram condenadas a lhes pagar mais de 1 milhão de euros a título de salários devidos, horas extras, trabalho dissimulado, demissão abusiva etc. − julgamento confirmado pela corte de Aix-en-Provence em janeiro de 2011.

Em dezembro de 2008, a Alta Autoridade de Luta contra as Discriminações e pela Igualdade (Halde, na sigla em francês) condenou as práticas de algumas propriedades de Bouches-du-Rhône − uma oposição contundente contra a delegacia que, confrontada desde 2007 com ondas sucessivas de pedidos de vistos de permanência de “trabalho” solicitadas por um grupo de advogados, optou por arrastar o andamento dos processos. Mais de mil vistos foram atribuídos.

Tudo isso faz os proprietários refletirem não sobre a sorte reservada a seus trabalhadores, mas sobre o modo de adaptar seu sistema à mão de obra. Chegou a hora para as empresas de trabalho temporário (ETT), pois a União Europeia fala agora em “migração circular do trabalho” e “parceria pela mobilidade”. Muitas dessas empresas especializadas no trabalho em agricultura se localizam na Espanha (Agroempleo, Agroprogres, Emagri e principalmente Terra Fecundis), que vai se tornar rapidamente dominante na distribuição transnacional de trabalhadores temporários extracomunitários, principalmente em direção à França. Desde 2009, em Bouches-du-Rhône, cerca de mil equatorianos substituem cerca de um terço dos antigos contratos OMI. Como os produtores de morango andaluzes da região de Huelva, os empregadores da [planície da] Crau vão colocar em concorrência a mão de obra em função de sua origem e segmentar assim o mercado de trabalho.

Colombianos, peruanos e bolivianos afluem. Os últimos a chegar, mais maleáveis, são privilegiados. Empregados para residir na propriedade, sem falar a língua, sem nem sequer saber onde se encontram, eles podem ser demitidos do dia para a noite. A opacidade anda junto com a remuneração efetiva dos assalariados ou o acesso ao direito à saúde. Como a inspeção do trabalho poderia cobrar respeito às regras mínimas em matéria de direito trabalhista? Apenas um terço das declarações iniciais obrigatórias é efetivo...

E essa nova forma de contornar a legislação trabalhista prospera nas outras regiões francesas, principalmente nos Landes, para a colheita de aspargos. Os raros grupos de apoio2 não parecem ter outra perspectiva a não ser pressionar as instituições fiadoras do Estado de direito para obrigá-las a funcionar. É preciso paciência e obstinação. O senhor Leydier acaba de apelar contra sua condenação. E a senhora Naima Es Salah vai ter de esperar ainda alguns meses...

Patrick Herman

Jornalista


1 O Escritório das Migrações Internacionais (OMI – Office des Migrations Internationales) sucedeu ao Escritório Nacional de Imigração (ONI – Office National d’Immigration). Ele foi substituído pela Agência Nacional para a Acolhida dos Estrangeiros e das Migrações (Anaem), depois pelo Escritório Francês para a Imigração e a Integração (Ofii – Office Français pour l’Immigration et l’Intégration).

2 O Coletivo de Defesa dos Trabalhadores Estrangeiros na Agricultura (Codetras,www.codetras.org) opera em Bouches-du-Rhône.




quarta-feira, 6 de março de 2013

Morre o presidente da Venezuela, Hugo Chávez

Ontem a tarde veio a óbito o presidente da Venezuela, Hugo Chávez. 

No poder há 14 anos (por isso chamado por alguns de ditador) Chávez estatizou o petróleo venezuelano (hoje principal responsável pela economia do país) e com ele conseguiu manter grande parte dos programas assistenciais de seu país. 

Chávez investiu pesado na educação e alfabetizou milhares de venezuelanos... 

Mas, não é só porque ele morreu que vamos aqui falar das coisas boas... Chávez também teve seus tropeços ao não diversificar a economia do país, não industrializá-la; tornando-a assim dependente do petróleo (fato que foi proporcionou o golpe de dois dias contra ele devido a um oportunismo baseado na queda do preço do petróleo que causou recessão econômica à época no país). 

Agora, fica a pergunta, como ficará a Venezuela (e o Chavismo, por que não?) pós Chávez?

Antes de começar gostaria de lembrar que isso é apenas um breve rascunho sobre esse tema, afinal de contas o presidente não tem nem 1 semana de falecido e o que se pode traçar agora são cenários, baseados em mera especulação; que é exatamente o que eu farei a seguir. 

O "sucessor natural" de Chávez seria Nicolás Maduro, atual interino no governo venezuelano. 

Maduro tem uma linha mais moderada, mais central, se comparado a Chávez e deve ser a aposta do partido para disputar as eleições que ocorrerão daqui há 30 dias. 

Maduro também é diplomata (foi ministro das "relações exteriores" - lá tem outro nome - de Chávez) e isso pode ser um trunfo para o mesmo, já que sendo sua postura mais moderada as relações com os demais países podem ser mais facilitadas do que na era Chávez... Quem sabe até com o Tio San... 

A única coisa que não desceu bem, pelo menos a meu ver, foi tentar associar o Câncer de Chávez com os Estados Unidos... Como se eles tivessem capacidade para isso (você pode até discutir sobre a 2° Guerra e falar sobre Hiroshima e Nagasaki mas, isso é outra história...)... Me desculpem os chavistas, mas, isso me pareceu absurdo (pra não falar patético). 

Enfim, Maduro deve ser a aposta para suceder Chávez nas urnas em 30 dias. De postura mais moderada e com a carga política de ter sido um diplomata, suas relações exteriores podem ser mais facilitadas e o Chavismo não morrerá na figura de seu criador mas, sim, encontrará um sucessor.

(e eu achando que era Fidel quem iria primeiro).

Deixo também um pequeno vídeo relatando resumidamente, bem resumido mesmo, os 14 anos de Chávez no poder. 

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Em pouco mais de 4 décadas, poderemos ser a 4ª economia do mundo.

Segundo publicação recente, por volta de 2050 poderemos saltar da sétima posição da economia mundial para a quarta... 

Apesar de ser apenas uma previsão, que pode realmente se concretizar, ainda há questões que podem interferir neste curso. 

Mesmo que tenhamos nos saído bem frente a crise de 2008, tanto a Europa quanto os EUA ainda estão cambaleantes em suas economias e, mesmo que a China ocupe agora o lugar que era dos EUA como nosso maior parceiro econômico, parte considerável da nossa economia também advém de exportações para esses dois eixos. 

Mas, nosso país parece que já havia previsto isso (a crise) e desde o primeiro governo Lula, vem aumentando suas relações com a África e a Ásia (não por acaso a China se tornou o nosso parceiro comercial...).  

Contudo, o que preocupa é que nossa economia é baseada em parte considerável nos  produtos sujeitos a "intempéries naturais"; falo da agricultura e do petróleo. 

Tudo bem que não somos um país sujeito a desastres naturais de grande proporções (salvo as chuvas de final-início de ano, mas isso envolve outras questões também) como tornados, furacões, geadas, tempestades de areia e etc; mas, já não é novidade pra ninguém que o modo como a agricultura é feita em nosso país (mas, não só aqui) degrada o solo e agride corpos hídricos e as projeções para o futuro são desanimadoras... E, sim, isso pode afetar nossa economia e nossa segurança alimentar também... 

Quanto ao petróleo, apesar da descoberta do pré-sal sabemos que o mesmo é finito; tudo bem que até 2050 ele não acabará mas, se ao longo do tempo ficarmos dependentes desse recurso sem investir em alternativas que possam substituí-lo para além do biodiesel, é claro, pois, apesar da cana-de-açúcar ser renovável, há de se encontrar uma maneira de cultivá-la sem agredir (muito) o meio ambiente e sem ameaçar a segurança alimentar, isso sem contar que sozinha essa energia alternativa não vai segurar a demanda que temos pelo petróleo... É preciso incentivar outras energias além dessa. Isso já está sendo feito mas, será feito em tempo hábil para substituirmos eficientemente?

Apesar desses produtos, dessas commodities se você preferir, não responderem por todo o nosso PIB, respondem por grande parte e, medidas precisam ser pensadas a longo prazo, seja em termos de diversificação ou de buscar inferir mais valor agregado aos produtos que exportamos, etc. para que não nos tornemos tão dependentes deles e assim, quem sabe, a previsão noticiada abaixo seja confirmada sem maiores problemas. 

O Brasil pode tornar-se a quarta maior economia do mundo até 2050, atrás apenas de China, Estados Unidos e Índia. Atualmente ocupando a sétima posição, o Brasil passaria Japão, Alemanha e Rússia entre as maiores potencias econômicas do planeta.
A estimativa é de um estudo sobre os países emergentes --os Brics: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul-- elaborado pela consultoria PricewaterhouseCoopers (PwC). A íntegra do estudo, em inglês, está disponível no site da consultoria. O estudo projeta as tendências considerando dados de demografia, investimentos, níveis de educação e avanço tecnológico dos países. 
A China deve superar os EUA em termos de paridade de poder de compra até 2017, e em termos de taxas de câmbio de mercado até 2027. Já a Índia deve assumir a terceira posição até 2050, "bem à frente do Brasil, que deve subir para o quarto lugar, acima do Japão", segundo o estudo.
A análise da PwC pontua que a Rússia poderá superar a Alemanha como maior economia da Europa em termos de paridade de poder de compra antes de 2020, e em taxas de câmbio de mercado por volta de 2035.
Economias emergentes, como México e Indonésia, podem se tornar maiores que Reino Unido e França até 2050, e a Turquia deve superar a Itália.

Emergentes crescem 4% ao ano, enquanto países desenvolvidos avançam 2%


O estudo considera que, de 2011 a 2050, as economias emergentes devem crescer por volta de 4% a cada ano, enquanto as economias já desenvolvidas avançarão cerca de 2% ou menos anualmente. 
Segundo o estudo, "a crise financeira global acelerou o processo de mudança do centro de gravidade econômica mundial, definindo que a China, os Estados Unidos e a Índia possuem potencial para serem as três maiores economias do planeta até 2050. Além disso, o Brasil destaca-se por apresentar fortes indícios de que passará o Japão e ocupará a quarta posição nesse ranking, no mesmo período".
O relatório, porém, aponta alguns riscos políticos e macroeconômicos que ameaçam o crescimento dos países emergentes, caso do Brasil. Segundo o estudo, a excessiva dependência das receitas do petróleo e gás pode ser um problema para o país.
China, Índia, Brasil e outros mercados emergentes destacadas no estudo ganharão importância não somente por oferecer menores custos de produção, mas também pelo tamanho de seus crescentes mercados de consumo.
"Num período em que a tendência de crescimento global nas economias desenvolvidas é estimada em não mais que 2%, as empresas terão que olhar cada vez mais para estas regiões se quiserem crescer", afirma John Hawksworth, economista-chefe da PwC no Reino Unido e coautor do relatório.


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Ameaça a segurança alimentar

Esse assunto já vem sendo debatido há séculos e, embora algumas premissas andaram esbarrando em questões não pensadas por seus formuladores (não é, Malthus?) a questão da segurança alimentar sempre vem dando suas caras, por motivos cada vez mais recorrentes... 

Os anos se passaram, a tecnologia evoluiu, a população cresceu (junto com a ganância), a exploração dos solos também; só os recursos hídricos foram diminuindo. 

Hoje em dia, apesar de sermos o "celeiro do mundo" nossa produção já dá sinais de futuro cambaleamento e o preço dos alimentos já começa a subir... Com isso, a segurança alimentar, não só a nossa mas, a do mundo, que já não anda lá essas coisas, tende a ficar cada vez mais ameaçada... 

Das terras e dos recursos hídricos sumariamente explorados começam a surgir sinais  de que a escassez alimentícia será, cada vez mais frequentemente, pauta na geopolítica mundial. 

Enquanto alguns poucos fazem a sua parte e pregam o uso sustentável (a agroecologia) outros muitos ainda exploram solo e a água de forma descontrolada; não é a toa que mais de 50% do consumo de água do mundo é destinado a agricultura... 

Como se ainda fosse pouco a questão dos agrotóxicos é mais um ponto contra, pois danifica corpos hídricos; o que acaba por ser um tiro no pé dos próprios agricultores. 

Como se não bastasse, ainda tem a tentação, no nosso caso, do plantar para enriquecer ao invés de plantar para alimentar... Eu explico... 

A comida que chega na sua mesa não vem dos grandes proprietários, vem dos pequenos. 

Com a onda do etanol e do biocombustível, muitos pequenos agricultores deixaram de plantar o alimento nosso de cada dia e passaram a optar pela cana de açúcar porque rende mais dinheiro... Não estou fazendo aqui uma crítica aos pequenos proprietários, só estou querendo mostrar que essa situação também põe em risco a nossa segurança alimentar... 

O ponto é: do jeito que os cultivos foram feitos ao longo dos anos, principalmente depois da revolução verde que até trouxe novas tecnologias que permitiram produzir mais do que antes utilizando o mesmo espaço mas, causaram um impacto maior ainda nos solos e nos recursos hídricos, de forma descontrolada e extremamente impactante, torna-se urgente uma modificação; a agroecologia é uma opção que se apresenta, contudo, será que os grandes proprietários e as gigantes do ramo estão dispostos a adotá-la? 

Ou será que vamos esperar a crise de alimentos se tornar crítica, com o perdão da redundância, para que algo realmente seja feito?

O mundo transita de uma era de abundância de alimentos para uma de escassez. Na última década, as reservas mundiais de grãos diminuíram um terço. Os preços internacionais dos alimentos cresceram mais que o dobro, disparando uma febre pela terra e dando lugar a uma nova geopolítica alimentar. Os alimentos são o novo petróleo. A terra é o novo ouro.
Esta nova era se caracteriza pela carestia dos alimentos e pela propagação da fome. Do lado da demanda, o aumento demográfico, uma crescente prosperidade e a conversão de alimentos em combustível para automóveis se combinam para elevar o consumo a um grau sem precedentes.
Do lado da oferta, a extrema erosão do solo, o aumento da escassez hídrica e temperaturas cada vez mais altas fazem com que seja mais difícil expandir a produção. A menos que se possa reverter essas tendências, os preços dos alimentos continuarão subindo e a fome continuará se espalhando, derrubando o atual sistema social.
É possível reverter essas tendências a tempo? Ou os alimentos são o elo frágil da civilização do começo do século 21, em boa parte como o foi em civilizações anteriores, cujos vestígios arqueológicos agora são estudados?
Essa redução no fornecimento de alimentos no mundo contrasta drasticamente com a segunda metade do século 20, quando os problemas dominantes na agricultura eram a superprodução, os enormes excedentes de grãos e o acesso aos mercados por parte dos exportadores desses produtos.
Nesse tempo, o mundo tinha duas reservas estratégicas: grandes sobras de grãos (com uma quantidade no lixo ao começar a nova colheita) e ampla superfície de terras de cultivo não utilizadas, no contexto de programas agrícolas norte-americanos para evitar superprodução. Quando as colheitas mundiais eram boas, os Estados Unidos faziam com que mais terras estivessem ociosas. Quando eram inferiores ao esperado, voltava a colocar as terras para produzirem.
A capacidade de produção excessiva foi usada para manter a estabilidade nos mercados mundiais de grãos. As grandes reservas de grãos amortizavam a escassez de cultivos no planeta. Quando a monção não chegou à Índia em 1965, por exemplo, os Estados Unidos enviaram um quinto de sua colheita de trigo para esse país, para evitar uma fome de potencial catastrófico. E graças às abundantes reservas, isto teve pouco impacto sobre o preço mundial dos grãos.
Ao começar este período de abundância alimentar, o mundo tinha 2,5 bilhões de pessoas. Atualmente tem sete bilhões.
Entre 1950 e 2000, houve ocasionais altas no preço dos grãos, devido a eventos como uma seca severa na Rússia ou uma intensa onda de calor no Meio-Oeste norte-americano. Mas seus efeitos sobre o preço tiveram vida curta. No prazo de um ano as coisas voltaram à normalidade. A combinação de reservas abundantes e terras de cultivo ociosas converteu esse período em um dos quais houve maior segurança alimentar na história.
Contudo, isso não duraria. Em 1986, o constante aumento da demanda mundial de grãos e o custo orçamentário inaceitavelmente alto levaram à eliminação do programa norte-americano de reservas de terras agrícolas.
Atualmente, os Estados Unidos têm algumas terras ociosas no contexto de seu Programa de Reserva para a Conservação, mas são solos muito suscetíveis à erosão. Acabaram-se os dias em que havia terras com potencial produtivo prontas para serem cultivadas rapidamente em caso de necessidade.
Agora o mundo vive com o olhar voltado apenas para o ano seguinte, sempre esperando produzir o suficiente para cobrir o aumento da demanda. Os agricultores de todas as partes realizam enormes esforços para acompanhar esse acelerado crescimento da demanda, mas têm dificuldades para consegui-lo.
A escassez de alimentos conspirou contra civilizações anteriores. As dos sumérios e maias foram apenas duas das muitas cujo declínio, aparentemente, se deveu à incursão por um caminho agrícola que era ambientalmente insustentável.
No caso dos sumérios, o aumento da salinidade do solo em consequência de um defeito em seu sistema de irrigação, que a não ser por isso estava bem planejado, acabou devastando seu sistema alimentar e, por fim, sua civilização. Quanto aos maias, a erosão do solo foi uma das chaves de seu desmoronamento, como o foi para tantas outras civilizações antigas.
A nossa também está nesse caminho. Mas, ao contrário dos sumérios, o que a agricultura moderna sofre é o aumento dos níveis de dióxido de carbono na atmosfera. E, como os maias, também está manejando mal a terra e gerando perdas sem precedentes de solo a partir da erosão.
Atualmente, também enfrentamos tendências mais novas, como o esgotamento dos aquíferos, a paralisação dos rendimentos dos grãos nos países mais avançados do ponto de vista agrícola e o aumento da temperatura. Neste contexto, não surpreende que a Organização das Nações Unidas (ONU) informe que agora os preços dos alimentos duplicaram em relação ao período 2002-2004.
Para a maioria dos cidadãos dos Estados Unidos, que gasta, em média, 9% de sua renda em alimentos, este não é o maior problema. Mas, para os consumidores que gastam entre 50% e 70% de sua renda com comida, duplicar os preços é um assunto muito sério.
Estreitamente ligada à redução das reservas de grãos e ao aumento do preço dos alimentos está a propagação da fome. Nas últimas décadas do século passado, o número de famintos no mundo caiu, chegando a 792 milhões em 1997. Depois começou a aumentar, chegando a um bilhão. Lamentavelmente, se as coisas continuam sendo feitas como de costume, as filas dos famintos continuarão crescendo.
O resultado é que para os agricultores do mundo está ficando cada vez mais difícil ajustar a produção à crescente demanda por grãos. As existências mundiais de grãos diminuíram há uma década e não foi possível recompô-las. Se isso não for feito, a previsão é que, com a próxima má colheita, os alimentos encareçam, a fome se intensifique e se propaguem os distúrbios vinculados à alimentação.
O mundo está entrando em uma era de escassez alimentar crônica, que leva a uma intensa competição pelo controle da terra e dos recursos hídricos. Em outras palavras, está começando uma nova geopolítica dos alimentos. Envolverde/IPS
Lester Brown preside o Earth Policy Institute e é autor de Full Planet, Empty Plates: The New Geopolitics of Food Scarcity (Planeta Cheio, Pratos Vazios: a Nova Geopolítica da Escassez Alimentar), W.W. Norton: Outubro de 2012.
Artigo publicado originalmente no Envolverde