quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Brasil e a grande deficiência em sua malha ferroviária


A questão em si, não é novidade. Afinal de contas, já não é de hoje que vários especialistas defendem que, para as nossas dimensões continentais, o melhor meio de transporte seria o ferroviário.

O transporte ferroviário deveria ser o principal meio de transporte para países com dimensões como a nossa. Seu custo de manutenção é barato, embora sua construção não seja; sua capacidade de transporte é enorme, seja ela de carga ou de passageiros; sua conectividade com outros meios de transporte também pode ser feita de maneira mais ágil. 

A questão é que aqui, no nosso país, outros pontos falaram mais alto. 

O primeiro deles diz respeito ao nosso pensamento político de curto prazo. Nossas obras não são feitas para a população. Nossas obras são feitas para a reeleição. Então aquilo que for barato e rápido ao ponto de ficar pronto antes da reeleição será feito, independentemente da sua eficiência ou não para a população. 

Outro ponto é que desde J.K. quando a indústria automobilística foi incentivada, muito por conta de incentivos ($$$) que deu ao então presidente, nosso país acabou "optando" por desenvolver o rodoviarismo como principal meio de transporte. 

O caminho pela opção rodoviária hoje em dia pesa muito contra o nosso país em termos de competitividade, o famoso risco Brasil, além, é claro, de prejudicar até internamente, em relação a integração do país.

Claro que não estamos defendendo a extinção do rodoviarismo como forma de transporte, mas sim que o mesmo deixe o seu protagonismo em favor do transporte ferroviário. 

O transporte ferroviário, apesar de ser caro de construir, possui a manutenção barata. Ao contrário do rodoviarismo, cuja construção é barata, mas a manutenção é cara (se nos voltarmos ao pensamento curto da reeleição de nossos políticos, fica fácil de entender, né?...)

Além do mais o transporte tanto de carga quanto de passageiros é bem maior em relação ao transporte rodoviário. Para se ter uma ideia, um trem de carga equivale a 13 caminhões e um trem de passageiros equivale a uns 3 ou 4 ônibus biarticulados. Então a vantagem é enorme. 

O transporte rodoviário seria um complemento ao ferroviário, visto que a vantagem da precisão do transporte rodoviário o ferroviário não tem. Ou seja, este meio de transporte é o único capaz de entregar "na sua porta" e isso deve sim ser explorado. 

Claro que, priorizando o transporte ferroviário em um país onde o principal meio de transporte é o rodoviário, teremos a questão da mão de obra empenhada neste setor que, não precisaria mais de tanta quantidade assim. 

Mesmo que não exista fórmula mágica, poderia ser proposto uma requalificação para esta parte da mão de obra que acabaria se tornando "excedente", sendo deslocada para o setor ferroviário, que, em expansão, demandaria mão de obra, quem sabe até mais do que a advinda do excesso do setor rodoviário. 

A questão é que, até para este raso raciocínio se concretizar, basta uma vontade política enorme e do governo federal enxergar que investir em malha ferroviária seria uma alavanca e tanto para impulsionar a nossa economia. O problema deve ser falar em investir com um governo que quer limitar os gastos...     

Deve se ter em mente também que não podemos apenas nos limitar a estes dois meios de transporte. O ideal seria apostar no transporte intermodal, ou seja, em que todas as modalidades contribuam para o transporte de passageiros ou de carga. Contudo, se apostar em um só já é difícil para os governos que tivemos, imagina em todos eles e na integração dos mesmos. 

Até porque criar Bilhete Único, apesar de um grande passo, não é uma forma de melhorar o transporte. Investir em sua expansão, integração e eficiência é que seria o ideal, mas, como sempre, esbarramos na vontade política dos nossos "representantes". 

Para nos ajudar a pensar, deixaremos abaixo dois mapas metroviários. O primeiro da cidade de São Paulo (a maior cidade da América Latina!) e o segundo da cidade de Nova York (uma ilha!, por assim dizer) para observarmos a diferença entre ambos. Claro que, guardadas as devidas proporções, principalmente a política e a econômica...


Mapa Metroviário da cidade de São Paulo.






Mapa Metroviário da cidade de Nova York







terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Questões a ponderar sobre a reforma da previdência...

Há tempos se discute a reforma da previdência. Não é uma especificidade do governo atual que parece ter se debruçado sobre a proposta tão logo a crise bateu na nossa porta. 

Contudo, há uma série de nuances que devem ser contempladas, mas que estão passando ao largo da discussão acerca desta proposta de reforma da previdência que mais está parecendo uma imposição, e bem amarga à população brasileira.

Não há o que se discutir com relação ao aumento da expectativa de vida do brasileiro. Embora não satisfatoriamente, não há como negar que a qualidade de vida do Brasil andou conferindo uns aninhos a mais à população brasileira.

Com isso, naturalmente, a longevidade faz aumentar o tempo pago de contribuição do INSS ao trabalhador que não é mais do que uma obrigação do órgão público, visto que contribuímos durante toda a nossa vida para tal. Porém, se pararmos para analisar que a população brasileira também está envelhecendo, podemos afirmar, de maneira simplória, que o número de aposentados será maior do que o número de trabalhadores, causando, portanto, rombo na previdência. 

Até aí, os argumentos se montam na necessidade de uma reforma da previdência brasileira. O problema é a forma como isso está sendo feito e as outras possibilidades que poderiam (deveriam) ser implementadas antes de chegarmos a esse extremo. 

Muito se fala por alto dessa tal reforma, mas não se vê um mísero esforço do governo para explicar a população em geral a forma como ela será feita e a necessidade da mesma. Ao invés disso, monta-se um circo que trata a reforma como ultra-secreta, mas não se faz um debate ou consulta pública para discutir seus pontos principais. 

Dizer que sentou com as centrais sindicais para debater a reforma, não é dizer que se discutiu ela com a população. Principalmente porque as pessoas podem discordar da instituição e, mais ainda, porque não se sabe o que foi discutido entre presidente e centrais sindicais. 

Assim, a tão balada reforma da previdência, vai passando de maneira que o principal interessado e afetado pela mesma é marginalizado nessa discussão e tenta se inteirar pescando notícias (que são dadas com a profundidade de um pires) nos telejornais das emissoras de TV. Sorte de quem tem internet e pode procurar ficar a par do que acontece (se souber procurar, é claro, pois também pode terminar tão marginalizado quando o pessoal da TV...)

Como se não fosse pouco tratar a reforma da previdência como um rolo compressor em cima do trabalhador, há ainda questões que sequer foram levantadas e que permanecem na penumbra. 

Podemos levantar aqui uma questão em relação as fraudes na previdência social. Sabe-se e não é de hoje que existem inúmeros casos de fraudes envolvendo a previdência social, mas o que parece não haver é um esforço para combatê-lo mais ostensivamente. Se bem que, ultimamente, parece que o trabalho da PF se resumiu à Lava Jato...

Quem sabe, talvez, se houvesse uma fiscalização maior em torno dos benefícios, essa reforma não precisasse ser tão brusca?

Outra questão que pode ser levantada e que também não é de hoje, diz respeito as super aposentadorias. Enquanto uns trabalham a vida toda e no final nem o salário integral recebem, outros recebem aposentadorias e pensões que equivalem, muitas vezes, a um carro popular! 

Por que isso não é revisto? Por que isso não é fiscalizado? Por que permitem que isso ocorra?

Outro ponto também importante se refere ao fato da reforma não contemplar todos os trabalhadores. Por que os militares ficaram de fora da reforma?

Se esses pontos fossem vistos antes, será mesmo que chegaríamos a situação em que chegamos hoje?

E como se esses pontos, apenas levantados aqui, não fossem suficientes para levantar inúmeros questionamentos acerca desta reforma, quem está pedindo à população que entenda (engula) essa proposta se aposentou com 55 anos... 

   

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Como a expansão da produção de energia chinesa pode afetar seus vizinhos?

De 5 em 5 anos a China lança uma espécie de documento onde traça suas estratégias nas mais diversas áreas para o período descrito (sim, são os famosos planos quinquenais que ouvimos falar do sistema socialista e que podem sim ser associados à China que, afinal de contas, vive uma economia mista ou socialismo de mercado, dependendo do termo que preferir).

O documento, que compreende os anos de 2016- a 2020 traça uma ambição chinesa em ampliar sua produção energética, mais especificamente a energia hidrelétrica. Para tanto, o país pretende aumentar o número de barragens nos rios de seus país, visando assim o aumento da produção de energia. 

O problema, dentre outros que salientaremos abaixo, é que a China é o berço de rios que também possuem larga importância para seus países vizinhos no continente asiático, como pode ser observado no mapa abaixo:

Fonte: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4278448/figure/fig01/

A intenção do governo chinês em ampliar sua produção hidrelétrica (que na verdade é uma continuação de uma iniciativa já tomada com a construção da hidrelétrica de 3 gargantas, a maior do mundo) é substituir sua matriz energética (principal fonte de obtenção de energia de um país), os combustíveis fósseis, por uma energia renovável. 

Apesar do motivo expressar preocupação com o meio-ambiente, a execução da implementação de tais barragens causará uma série de consequências graves aos seus países vizinhos que também dependem dos mesmos rios que China, com a desvantagem da nascente estar localizada justamente neste último. Como consequências podemos citar:

  • A redução do volume de água que chegaria ao delta dos rios, promovendo, por conseguinte, a salinização de suas áreas. 
  • Escassez de água para os mais diversos fins: alimentação, energia, turismo, transportes, etc...
  • Perda de biodiversidade. 
  • Aumento nos preços da energia elétrica nos países afetados. 
  • Racionamento de água e de energia. 
  • Perda de sedimentos carreados pelos rios, que ficarão presos nas barragens prejudicando largamente a fertilidade nos solos das margens dos mesmos. 
Além é claro dos motivos locais, ou seja, aqueles que afetariam a própria China como:
  • Assoreamento dos rios. 
  • Perda de biodiversidade. 
  • Perda de grandes áreas agricultáveis. 
  • Remoção de população ribeirinha. 
  • Eutrofização das águas. 

Apesar de todos esses pontos contra (que aliás toda energia limpa possui, só que a quantidade e os impactos são diferenciados em cada um - salientar isso não nos torna um defensor das energias poluentes, muito menos nos torna contrários a energia limpa. Nossa posição é a de que os impactos devem ser minimizados o máximo possível, pautado é claro na escolha pela energia limpa, sempre!) a China se mostra decidida em aplicar seus planos de expansão que afetarão diretamente uma série de países como Mianmar, Laos, Tailândia, Camboja, Vietnã, Bangladesh, Índia e Butão. 

A Índia inclusive já chegou a externar sua preocupação, mas China minimizou a questão. Aliás, isto pode reforçar ainda mais o clima tenso entre os dois países que já dura anos por conta da região do Tibet. Resta saber que posição a China tomará bem como os demais países afetados; talvez o caso chegue até a ONU, mas acho difícil de acontecer pela força que a China tem não só regionalmente como mundialmente, principalmente nos últimos anos. 

Com informações do Nexo Jornal

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Até que ponto Trump pode interferir (e prejudicar) no acordo de Paris?

Foram necessárias 22 COPs para se sair de um cabo de guerra que não levava os países ao seu principal objetivo, que era um acordo climático do agrado de todos, mas que agora se vê ameaçado pelo novo presidente dos EUA. 

O mesmo, aliás, já havia se pronunciado sobre o aquecimento global dizendo que é "uma invenção dos chineses para atrasar o desenvolvimento industrial norte-americano". Algo que até poderia colar se fosse antes de conceitos como desenvolvimento sustentável, preservacionismo, conservacionismo, Terra - Gaia, e até mesmo a chamada "tomada de consciência" da população em geral sobre os recursos naturais do planeta. 

Atualmente, como o cenário é outro e a consciência também, esta fase soa com uma atrocidade homérica. Daquelas que levam qualquer pessoa a limpar a boca com papel higiênico ao terminar de dizer uma frase. 

Fato é que a  linha de pensamento deste senhor pode ser prejudicial aos acordos de Paris, principalmente se ele - como prometeu em sua campanha - retirar os EUA (segundo maior poluidor do planeta, atrás apenas da China) do acordo. Alarmismo suficiente para trazer um clima de incerteza aos debates realizados na COP 22 que chegou ao seu fim na semana passada.

Afinal de contas, a saída dos EUA do acordo pode desestimular outros países a permanecerem nele ou mesmo vir a retardar os parâmetros exigidos pelo acordo em seus países; algo que condenaria novamente a COP ao antigo cabo de guerra que se estabeleceu durante anos na hora de firmar um acordo.

O motivo da realização dessa COP foi traçar um calendário para que os países se adaptem até vigorar o acordo, em 2020. Contudo, diante dessas incertezas acerca dos EUA, os esforços foram divididos entre o calendário e os apelos dos países (especialmente os mais afetados pelo aquecimento global, como o Kiribati, que corre o risco de desaparecer!) ao futuro presidente dos EUA para que ratificasse o acordo. 

Até mesmo o secretário-geral da ONU interveio na tentativa de sensibilizar o magnata sobre o acordo. Resta saber agora se Trump, que ainda não se pronunciou oficialmente sobre o assunto, mas extra-oficialmente está mobilizando uma equipe para viabilizar uma maneira rápida de retirar o país do acordo vai repensar suas ideias acerca do aquecimento global e ratificar o acordo de Paris. 

Contudo, caso o futuro líder na segunda nação mais poluidora do planeta ainda acredite que o aquecimento global é invenção dos chineses, talvez ele devesse conferir o vídeo abaixo que a própria agência espacial norte-americana, NASA, divulgou sobre mudanças em diversos lugares do planeta ao longo dos últimos 100 anos. 

  
Ou mesmo se ainda não estiver satisfeito, partindo de sua lógica empresarial, deva olhar para o seu vizinho do norte, Canadá, para descobrir como um país que se opôs ao próprio EUA na política de emissão de carbono continua mantendo crescimento econômico, pretendendo, inclusive, expandir a política de restrição a este gás agravante do efeito estufa para todo o país! 

E se ainda não estiver satisfeito. Pode também olhar para as quase 400 empresas que enviaram um comunicado a Trump pedindo que o mesmo respeite o acordo de Paris.   

Ao que parece, o mesmo empenho que ele está tendo para tirar os EUA do acordo, o mundo está fazendo para convencê-lo a manter o país no acordo. Resta esperar que ele tenha um pouco de lucidez e ouça os apelos mundiais sobre o acordo. 

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Decisão da Justiça pode (ou não) atrapalhar o Brexit

No início deste mês a justiça britânica entrou na discussão sobre o Brexit (termo como ficou conhecido a intenção de saída da Inglaterra da União Europeia) e pode atrasar o processo de saída da UE. 

Sem precedentes na história, a saída é pensada com cuidado pela atual primeira-ministra Theresa May que ainda tenta elaborar uma saída sem maiores traumas para ambos.

Contudo, uma decisão judicial parece ter frustado os planos da primeira-ministra. Três juízes entraram com uma ação determinando que a saída do país da UE deve ser votada pelo Parlamento. O que não anula a decisão do plebiscito que deu vitória apertada a saída do país da UE, mas impede a primeira-ministra de continuar as negociações. 

Muito se especula sobre o futuro de ambos, caso essa saída se concretize. Nós mesmos já andamos traçando alguns cenários acerca desta questão que se mostra cada vez mais embolada. Até a própria primeira-ministra, outrora contra o Brexit, agora já tem uma posição mais contundente acerca do fato e diz até ter uma carta na manga para convencer os juízes da saída da Inglaterra do bloco.

Ainda não se sabe que tal "carta" é essa, mas se sabe que o principal motivo da saída da "Terra da Rainha" do bloco econômico está ligado com a crise migratória no Oriente Médio, mas especificamente por conta da guerra na Síria, que já dura cinco anos.

A Inglaterra nunca foi favorável a acolher os imigrantes (não vamos confundir o governo inglês e a posição de uns poucos com toda sua população. Claro que alguns acolheram os imigrantes) e com a UE planejando acolher os imigrantes de acordo com cotas estabelecidas por suas posições econômicas dentro do bloco, acabaram incomodando ainda mais o país, uma das 3 maiores forças econômicas dentro do bloco. 

Não à toa, a questão gerou uma consulta à população sobre a saída do país do bloco que, por uma margem apertadíssima, acabou optando pela saída. 

A partir disso, vários analistas apresentaram seus cenários sobre o futuro de ambos; mas tratam-se apenas de especulações já que a decisão não possui precedentes na história e ainda não se sabe como será feita essa saída. 

Depois dessa decisão judicial, agora mesmo é que o processo de saída se torna ainda mais complicado, ganhando mais um capítulo cujo desfecho teremos que aguardar...