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sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Um Manifesto por uma outra Globalização!

Recentemente, foi publicado pelo ex-presidente do nosso país, Lula, em conjunto com o atual presidente da França, Hollande, um manifesto em defesa de uma nova maneira de "lidar com o mundo". 

O documento leva consigo a carga de ser o primeiro documento do gênero durante a dita Era da Globalização.

Ao iniciar por uma das constatações que fiz em post anterior o texto nos remete a considerar que a Globalização mais nos separou do que nos uniu, o que, de fato, é uma grande verdade. 

A dinâmica dessa proposta é colocar em tela uma série de questões que vão desde a garantia de que cada país exerça a forma de governo por ele escolhida (estamos entendidos, EUA?) até em encontrar uma solução que busque a equidade entre as nações, principalmente via um modelo econômico e político novos (haja visto que o neoliberalismo, mesmo que tardiamente, demonstrou não ser capaz disso). 

Agora, o texto é empolgante, daqueles que te fazem acreditar na humanidade, mas... E a ação? o que pode ser realmente feito para que este manifesto não seja um mero manifesto? Essas são questões que nem Lula ou Hollande conseguirão responder sozinhos... 

Porque, mais do que depender da vontade de governantes espalhados pelo mundo inteiro, ela também depende de certos interesses políticos e econômicos... Infelizmente... 

Mas, isso não invalida o manifesto, pelo contrário, o torna porta de entrada para que se abram as discussões acerca de uma nova forma de conduzir política e economicamente. 


Mesmo antes da queda do Muro de Berlim, a social democracia estava em crise profunda, desarticulada, sem princípios de ação.
Ontem, em Paris, no “Fórum pelo Progresso Social, o crescimento como saída para a crise”, o Instituto Lula e a Fundação Jean Jaurès, do Partido Socialista francês soltaram documento conjunto para a primeira convocação de fundações políticas e institutos progressistas do mundo inteiro, visando propor uma nova governança global.
Com o manifesto, Lula e François Hollande passam a encabeçar a primeira iniciativa mundial, visando criar um contraponto de governança global ao “consenso de Washington” – que forneceu as bases para o modelo neoliberal que se tornou praticamente hegemônico nas últimas décadas.
Os termos do documento provavelmente marcarão a história da globalização com o mesmo impacto provocado pelo “Consenso de Washington” no início dos anos 90.
O documento é objetivo, ao afirmar que “a globalização divide ao invés de unir”. Diz que a crise internacional agrava a concorrência entre países e sociedades e atinge principalmente os mais vulneráveis.
A crise afeta todos os países, adia decisões contra o aquecimento global. A falta de uma ação planejada, continua, pode levar a um ponto de não-retorno.
O manifesto propõe uma nova governança global, que minimize os conflitos que permita que “cada nação realize o modelo de sociedade que escolheu”. E os poderes públicos “devem garantir que todos tenham oportunidades de desenvolver suas capacidades individuais”.
Depois, chama a atenção para as mudanças estruturais que estão ocorrendo:
“Mas um novo mundo está em gestação para responder aos desafios sociais, ambientais e políticos da globalização. A sociedade civil mundial se tornou uma realidade tangível. Políticas públicas inovadoras e outros modos de governar surgem em todos os continentes, particularmente nos países emergentes e em desenvolvimento. As instâncias multilaterais também estão se reconfigurando. A constituição do G20 reflete a mudança dos equilíbrios mundiais, mas seu impacto ainda limitado ilustra a dificuldade dos governos de chegarem a um acordo e de agir de forma concreta”.
E termina com uma conclamação histórica:
“Fazemos uma conclamação em defesa da confiança na capacidade humana de se reinventar e do poder criador de nossa sociedade-mundo, para sair definitivamente da crise e construir as bases de um futuro harmonioso que possa ser compartilhado por todos”.

DECLARAÇÃO CONJUNTA DA FUNDAÇÃO JEAN JAURÈS E DO INSTITUTO LULA
A globalização é um imenso desafio com o qual se confronta a humanidade.
Ela tem um poder formidável de mudança para todas as sociedades: a mudança econômica, com a intensificação das trocas; a mudança cultural, pois essas trocas possibilitam a circulação de ideias e a transformação das práticas culturais e de costumes; a mudança política, já que a emergência de preocupações partilhadas exige uma vontade comum de agir e de superar conjuntamente as dificuldades.
No entanto, a globalização, da forma que ocorre atualmente, está longe de satisfazer as aspirações que legitimamente suscita.
A crise econômica internacional agrava a concorrência entre os países e as sociedades. Ela atinge os mais vulneráveis, particularmente os trabalhadores e os jovens. Ela afeta a todos os países, os que estão em recessão e os que estão em crescimento. Ela conduz governos a adiar as decisões necessárias para prevenir o aquecimento global, sendo que a exaustão e a degradação dos recursos naturais corre o risco de atingir um ponto de não-retorno devido à falta de uma ação planejada de forma conjunta.
Sejamos claros: hoje, a globalização divide ao invés de unir.
Isoladas, as políticas de austeridade mostraram seus limites para encontrar a saída da crise. A retomada ainda não esta garantida, ao mesmo tempo em que os direitos econômicos e sociais estão ameaçados. É imprescindível que sejam adotadas políticas de crescimento. Somente assim a globalização poderá garantir o respeito à coesão social e ao meio ambiente.
Uma nova governança é necessária para, de um lado, regular os conflitos entre as nações e garantir a paz e, de outro, permitir que cada nação realize o modelo de sociedade que escolheu. Os poderes públicos devem garantir que todos tenham oportunidades de desenvolver suas capacidades individuais. Devem também trabalhar em prol da perenidade do meio ambiente para as gerações futuras.
Mas um novo mundo está em gestação para responder aos desafios sociais, ambientais e políticos da globalização. A sociedade civil mundial se tornou uma realidade tangível. Políticas públicas inovadoras e outros modos de governar surgem em todos os continentes, particularmente nos países emergentes e em desenvolvimento. As instâncias multilaterais também estão se reconfigurando. A constituição do G20 reflete a mudança dos equilíbrios mundiais, mas seu impacto ainda limitado ilustra a dificuldade dos governos de chegarem a um acordo e de agir de forma concreta.
As respostas às questões colocadas pela globalização não se afirmarão espontaneamente. Elas se construirão pelo diálogo, pelo debate das opiniões dos estudiosos e pela mobilização dos atores e dos povos, no sentido mais amplo.
É por isso que, a partir deste fórum que se reuniu em Paris nos dias 11 e 12 de dezembro, lançamos um chamado para as outras fundações políticas e institutos progressistas do mundo inteiro: vamos constituir a iniciativa “Fundações pelo Progresso Social”. Fiéis à nossa vocação e à nossa missão, vamos nos reunir periodicamente para debater, escutar, propor. Vamos fazer emergir convergências e consensos; vamos nos unir para ter uma influência nos destinos do mundo.
Os riscos que atualmente ameaçam a humanidade são grandes demais para nos focarmos apenas em uma gestão de curto prazo destes problemas.
Fazemos uma conclamação em defesa da confiança na capacidade humana de se reinventar e do poder criador de nossa sociedade-mundo, para sair definitivamente da crise e construir as bases de um futuro harmonioso que possa ser compartilhado por todos.



Pecuária Sustentável?

Parece piada, mas, num local bem próximo de você, não é. Pelo menos é que anda acontecendo no nosso país, especialmente em Alta Floresta-MT. 

Tida com uma das atividades que mais destruíram nosso meio-ambiente, a pecuária nessa região, depois de um passado de completa negligência que perdurou desde o tempos da ditadura militar, vem passando por transformações que a ajudaram a se tornar mais sustentável. 

Seguindo medidas ditadas pela EMBRAPA e com o apoio de ONGs e governos locais os pecuaristas têm conseguido reduzir sensivelmente a emissão de poluentes; o que pode ser comprovado com a perda do primeiro lugar como cidade que mais destruiu suas florestas. 

As iniciativas compreendem desde medidas para preservação de cursos d´água e nascentes, passando pelo plantio de árvores, até o manejo com o gado durante o seu processo de abate e comercialização. 

Espera-se que essas medidas ajudem a frear o avanço da pecuária sobre a fronteira amazônica, algo a ser feito a longo prazo. 

Se realmente essas medidas forem levadas à risca e disseminadas para além de Alta Floresta, o que deve ser feito o quanto antes; podemos ter uma pecuária não totalmente sustentável, mas, sim com reduções sensíveis aos danos causados pelo meio-ambiente. 

E só em reduzir esses danos, já damos um passo importantíssimo. 

O município de Alta Floresta, no Norte de Mato Grosso, é um símbolo do avanço da agropecuária no Portal da Amazônia. Desde quando foi criada, há 36 anos, a cidade já perdeu mais de 50% dos seus 9 mil km² de floresta nativa. Em 2008 figurou em primeiro lugar na lista suja do desmatamento e só conseguiu sair neste ano, após um longo esforço do poder público, ONGs e da população.

Os primeiros moradores de Alta Floresta, oriundos de projetos de ocupação patrocinados pela ditadura, tinham a missão de abrir áreas e ocupar o solo. Sem qualquer acompanhamento técnico ou planejamento, a atividade pecuária se desenvolveu através de uma série de práticas que se propagaram durante anos e resultaram, em 2010, em um desastre ambiental para a população: com mais de 4,5 mil km² de floresta no chão e quatro mil nascentes degradadas no município, os moradores tiveram de conviver com a falta de água durante um longo período de estiagem.
O retrato era trágico: gado com acesso direto aos cursos d’água e nascentes; falta de rotação do pasto; descuido com os dejetos; desmate de APP e reservas legais. “O que existe aqui é muito da cultura do vizinho. Se meu vizinho está fazendo, então eu vou fazer também”, diz Vando Telles, do Instituto Centro de Vida (ICV). Telles é coordenador de um projeto patrocinado pelo Fundo Vale que visa disseminar a cultura do BPA – Manual de Boas Práticas Agropecuárias da Embrapa. “A ideia é levar informação para os pecuaristas e mostrar que é possível trabalhar com uma pecuária de baixo carbono na Amazônia”, diz.
A pecuária é uma atividade de grande emissão, principalmente por conta das grandes áreas necessárias para o plantio de pasto. Milhares de hectares de florestas são postos abaixo na Amazônia para a criação de poucas cabeças de gado. Também entra na conta as emissões do próprio rebanho que emite gás metano através do arroto.
Segundo alguns cientistas, o metano é um gás capaz de reter 20 vezes mais calor que o gás carbônico. Como se já não bastasse o impacto natural da atividade, as práticas atuais dos produtores na região intensificam ainda mais o processo de emissão, pois esgotam o solo, não cuidam dos cursos d’água e não se preocupam manter árvores em pé. “No projetos vamos mostrar que o produtor pode cultivar algumas espécies de árvores comerciais no próprio pasto para ajudar no sequestro de carbono, fazer sombra aos bois e ainda gerar renda”, diz Telles.
Além de formação e consultoria, o projeto pretende medir o impacto da pecuária integrada através de um estudo de sequestro de carbono. “Acreditamos que, ao implementar os princípios do BPA, a gente consiga mostrar que é possível equalizar as emissões dessa atividade e, quem sabe, até enquadrar projetos da pecuária dentro dos MDL [Mecanismos de Desenvolvimento Limpo]”, acredita Telles.
São 11 pontos principais do manual de BPA da Embrapa que serão explorados no projeto: gestão da propriedade rural; função social do imóvel rural; responsabilidade social; gestão ambiental; instalações rurais; manejo pré-abate e bons tratos na produção animal; formação e manejo de pastagens; suplementação alimentar; identificação animal; controle sanitário e manejo produtivo. Com a adoção desses princípios os pecuaristas ganham uma produção mais rentável e competitiva e asseguram a oferta de alimentos seguros, oriundos de sistemas de produção sustentáveis. “Queremos mostrar que eles precisam ter o controle da produção. Ao contrário dos produtores de grãos que controlam todas as variáveis, os pecuaristas trabalham com estimativa. Estimam o quanto tem de pasto, de bois, de área. Nossa consultoria vai ensinar a colocar tudo em tabelas e calcular, inclusive, a variável ambiental”, diz Telles.
A pesquisa terá como laboratório a região do Portal da Amazônia. A simples disseminação dessas boas práticas tem dado resultados. Vilson Wittemann é pecuarista e trabalha com produção de leite há 18 anos em Alta Floresta. Ele é um dos beneficiados pelo projeto e já recebe consultoria técnica e financeira. “Conseguimos dobrar a nossa produção após a visita de um consultor que disse que a gente podia tirar leite também à tarde, não só de manhã”, diz o pecuarista.
São práticas simples, que visam melhorar a vida do produtor e incentivar cuidados com o meio ambiente. A perspectiva de aumento de renda e redução de custos é o que mais chama a atenção nos produtores. “A gente fazia as coisas sem saber. Agora, com essa consultoria, a gente tem uma visão mais completa do pasto. Um dos problemas que tinha aqui é a morte súbita, mas agora a gente entende a importância do manejo de pastagem, por exemplo, pra evitar que isso ocorra”, diz Wittemann. A morte súbita é o esgotamento do solo por conta do mau uso. É uma praga fulminante, acredita-se ser transmitida pela pata dos bois e que inviabiliza qualquer produção agrícola ou reflorestamento no solo. Segundo o Instituto Mato-grossense de Agropecuária (Imea), a Morte Súbita de pastagem atinge cerca de 2,3 milhões de hectares no estado. É o estagio mais grave de degradação e um grande drama nessa região do portal da Amazônia.
Avanço da Fronteira Agrícola. A pecuária é uma atividade com impacto ambiental menor do que a agricultura extensiva, principalmente por não usar agrotóxicos e fertilizantes nitrogenados, que emitem alta quantidade de CO2 e contaminam o lençol freático. “Se conseguirmos manter uma pecuária integrada e sustentável no portal da Amazônia vamos contribuir para frear o avanço da agricultura mecanizada nas áreas já abertas. A ideia é fazer de Alta Floresta um modelo de desenvolvimento sustentável no Portal da Amazônia e frear a expansão da fronteira agrícola”, diz
“Aumentando a capacidade de produção, em unidades animal por hectare, você diminui a necessidade de abrir novas áreas para aumentar a produtividade”, diz Bruno Simionato, engenheiro florestal e analista de carbono do ICV. Ele diz que o projeto de pecuária integrada ajuda na manutenção da cobertura vegetal, na proteção do solo, no aporte de biomassa, na manutenção da umidade e ciclagem de nutrientes, tudo porque oferece uma visão integrada do pasto.”E com os estudos que serão feitos saberemos quantas unidades de animal por hectare são possíveis sem que haja desbalanço no sistema, ou seja, sem que haja mais emissões do que absorção de CO2”, explica.
Plano ABC. O Brasil tem uma meta ousada para agropecuária de baixo carbono no compromisso assumido durante a COP15 em Copenhague. O chamado plano ABC (Agricultura de Baixo Carbono) que vai de 2010 até 2020 prevê a recuperação de 15 milhões de hectares de área de pastagem degradada, quatro milhões de hectares de integração Lavoura-Pecuária e 4,4 milhões de m³ de tratamento de dejetos animais em todo território nacional.
O programa ABC tem uma linha de crédito voltada para produtores rurais e cooperativas. As taxas são de apenas 5% ao ano e cada produtor pode financiar até 1 milhão de reais com carência de até 5 anos. Mas as altas exigências ambientais fazem com que o fundo seja pouco acessado.
Na safra 2011\2012 foram utilizados menos de 50% dos R$ 3,15 bilhões disponibilizados. Um dos eixos do projeto da pecuária integrada no Portal é enquadrar as propriedade dentro das exigências legais e auxiliar os produtores a acessar esses recursos de financiamento. Em junho desse ano o governo anunciou que vai disponibilizar 3,4 bilhões para a safra 2012/2013. Ao todo, o governo brasileiro espera disponibilizar 197 bilhões durante a vigência do ABC.





domingo, 16 de dezembro de 2012

Seca castiga o Nordeste

Parece reprise da sessão da tarde mas, não é. Por mais um ano a seca volta a assolar o Nordeste e populações inteiras começam a ficar sem comida e sem água, o mesmo vale para seus animais. 

Eu já escrevi aqui, em post anterior, que esse  problema não é climático e sim político. Mas, o que me levou a comentar essa notícia, por mais de uma vez, é que ela aconteceu justamente em época de eleição, o que corrobora ainda mais com o que foi dito no texto do post anterior. 

Até porque todos nós já sabemos que, nos dizeres de Lula, "o problema do Nordeste não é de seca mas, sim, de cerca"

Ele não poderia estar mais correto... Pena que, enquanto isso, pessoas e animais sofrem, ou pior agonizam, esperando pela chuva que não vem... 


Três gerações. E a tradição se repete na cidade de Santana do Ipanema, sertão de Alagoas, a 212 km de Maceió. O taxista Roberto Rodrigues tem um tio, o Zé Roberto, que tinha 112 cabeças de gado no mês de março. Então veio a seca. Entre julho e agosto, começou a vender os animais. Já se foram 74, tudo em troca de alguns litros de água, distribuídos por caminhões-pipa, e ração para os bichos. Hoje, tem 38 cabeças.
"A família não aguenta mais. Aí diz que vai abandonar tudo, quando vier a chuva. E a chuva vem. Aí começa tudo de novo. Vai comprando logo uns bezerrinhos e a gente esquece", disse o motorista.
Em tempos de chuva, a família sobrevive da agricultura familiar. Planta abóbora, não compra leite nem queijo porque as vacas pastam na vegetação farta e lambida pela água. A manteiga é feita em casa e o inhame é plantado no quintal. "Se não existisse a seca, a terra daria tudo. Ninguém passaria fome porque o sertanejo aproveita qualquer palmo de terra", comenta.
Todas as quartas-feiras tem uma feira de gado, na cidade de Dois Riachos, a 245 km da capital alagoana. Uma vaca custa R$ 1.500 no sertão, em tempos de chuva. Na seca, o valor cai para R$ 300. E o sertanejo tem cada vez menos dinheiro para comprar os animais. O gado está cada vez mais magro e desvalorizado.
"A gente reza quando vem gente de fora para comprar os animais. Eles têm mais dinheiro", explica.
E por que a família não abandona tudo? "É a única coisa que a família sabe fazer. Vem a revolta e tudo com esses políticos que estão aí. Mas, vai fazer o quê para sobreviver? Pior é que isso pode ser evitado, a seca vem todo ano. Tem jeito. Pior é político ladrão que enriquece a si e toda a família no meio disso tudo."
Em Santana do Ipanema, a chuva demora a cair desde agosto. Em três meses, o rio Ipanema - que dá nome à cidade - está tão seco que o leito é uma nuvem de poeira. A falta de energia elétrica é constante. São horas sem luz. Só nesta semana, foram dois dias seguidos.
"A gente fala com a Eletrobrás. Aí eles dizem que é um fio partido. Quando a gente olha, Santana tem uma parte com luz e outra sem. Quando a gente diz isso, eles falam que a 'luz volta aos poucos'. É prejuízo em casa, não tem eletrodoméstico que aguente esse vai e volta de energia. E no comércio não é diferente", diz o morador de Santana, Luciano Barbosa.
Não é diferente na cidade de Dois Riachos, terra da jogadora de futebol Marta. "A seca nos castiga. As vacas estão morrendo, estamos tomando banho de cuia. Graças a Deus. Às vezes, falta água encanada por três dias. Para quem tem depósito, é legal. Armazenamos água. Mas, quem não tem, Deus proteja", conta a professora Zélia Rodrigues.
Na viagem pelo sertão de Alagoas, uma passagem é obrigatória pelo agreste e a zona da mata. Na cidade de Maribondo, o motorista mostra a "fazenda de um barão", um prefeito que ele prefere não citar. Um pedaço de chão que nem de longe faz lembrar o sacrifício de quem busca água no cenário sertanejo: um açude e uma casa grande. "Aqui o prefeito faz as churrascadas. Vem cada 'carrão'..."
Em outra fazenda, de "um político grande", um açude e muitos cavalos: "Aí dentro tem um haras. Coisa de quem tem muito dinheiro. Não conhece a pobreza. Nem a sede".
Trinta e três cidades de Alagoas tiveram os decretos de emergência renovados pelo governo. Há três semanas, em Salvador, a presidente Dilma Rousseff anunciou dinheiro e água aos sertanejos. "Mas, tudo está assim, seu moço", mostra um sobrevivente de uma terra que mistura vida e morte. Ele aponta para o gado que bebe os restos de uma água barrenta.

Globalização: alguns apontamentos

Caros leitores do blog, 

O post de hoje é para atender a um pedido que me chegou por e-mail, mas que não tem nome, sobre o tema globalização. Deixo no texto abaixo as minhas contribuições sobre o assunto e convido vocês a fazerem o mesmo nos comentários. 

Lembrando que vocês podem enviar suas críticas e sugestões para geografia.contemporanea@yahoo.com.br e eu atenderei o mais rápido possível. 



Globalização

O que é?

  • É a Junção dos meios de transporte com os meios de comunicação, possibilitando uma rápida circulação de mercadorias, pessoas e capital (dinheiro) pelo mundo.


Histórico

  • O primeiro movimento da globalização ocorreu no século XIV, com as grandes navegações, dado a intensa troca de mercadorias que começava a se dar na época; especialmente entre a Europa e as Índias.

  • O segundo movimento começa com a Revolução industrial, dado que a produção de mercadorias se tornaria mais intensa, bem como a circulação entre elas graças a invenção do barco a vapor.

  • O terceiro movimento é o atual, onde a troca é intensa graças a informática, a melhoria significativa dos transportes e a junção de ambos.


Causas e efeitos da Globalização


A organização do mundo em blocos econômicos.

  • Com a troca de mercadorias numa velocidade extraordinária, os países, para se defenderem no aspecto econômico, resolveram se organizar em blocos econômicos numa tentativa de resguardar sua economia da competição desleal com outros países, como por exemplo, a China que consegue vender produtos mais baratos graças a sua mão de obra abundante.

  • Através de acordos feitos nesses blocos, como tarifa alfandegária comum (o que significa que os países trocarão mercadorias entre si com as taxas iguais entre todos) Os países conseguiram, em parte, proteger suas economias.


Aumento do “abismo social"

  • Com a expansão e intensidade das trocas comerciais a possibilidade de expandir fortunas tornou-se ainda maior, visto que a possibilidade de negociar com os mais diversos mercados tornaram - se mais palpáveis. Por esse lado, os que eram mais ricos se tornam mais ricos e os que eram pobres se tornaram mais pobres ainda; principalmente por conta de uma nova onda que surgira: a terceirização.


Terceirização

  • Fenômeno que ganhou força durante a atual era da globalização consiste na contratação de empresas por outras empresas para a realização de certas tarefas, como limpeza, por exemplo.

  • A empresa que contrata a terceirização lucra, pois, voltando ao caso da limpeza, ela não arca com os custos de material de limpeza, contratação de funcionários e nem responde por reivindicações da categoria.

  • Já a empresa contratada lucra, pois oferece salários baixos aos seus contratados, que raramente tem carteira assinada. O que lhes possibilita oferecer salários baixos é a alta quantidade de mão - de - obra que, por sua vez, se submete a esse tipo de serviço para não ficar desempregada.


Homogeneização X Diferenciação

  • Quando a onda da globalização tomou vulto, isso na metade de século passado, acreditava-se que o mundo seria homogeneizado por uma cultura dominante (sim, é a norte - americana) e que todos teriam os mesmos gostos, nos vestiríamos e nos comportaríamos da mesma forma... Como se fôssemos fabricados em série, como carros. Porém, a globalização encontrou resistências a essa tendência homogeneizadora... Nem todos entraram nessa onda homogeneizante e ofereceram suas resistências a ela. Num primeiro momento o capitalismo até que forçou uma barra para se impor, mas, depois percebeu que também conseguiria entrar nesses nichos de mercado, gerando assim a glocalização.


" Glocalização"

  • Criada essa resistência a onda homogeneizante do capitalismo, o mesmo se viu diante de uma situação em que teve que se adaptar aqueles que não sucumbiram a sua tentativa de uniformizar o mundo.

  • Exemplos dessa adaptação por parte do capitalismo são a implantação do Mc Donald's na Índia que faz as carnes dos seus hambúrgueres com carneiro ao invés de boi (tem gente que acha que é minhoca, mas isso é outra historia) , visto que a vaca é sagrada neste pais; ou a Coca - Cola que, quando patrocinou o Grêmio , teve que mudar suas cores para preto e azul ,já que as cores originais da marca -  Vermelho e branco - são as cores do principal rival, o Internacional .

  • Essa resistência a essa onda de homogeneizante do capitalismo, é caracterizado como glocalização


"Planeta pequeno, mundo gigante"

  • Essa expressão nos leva a considerar que o planeta, nos referindo ao aspecto físico da Terra, praticamente encolheu. Nos dizeres de David Harvey, houve uma compressão do espaço-tempo que encurtou as distâncias, principalmente com invenções como o avião e a Internet.

  • Porém, mesmo que o acesso as informações e os deslocamentos sejam rápidos, a quantidade de informações e os deslocamentos sejam rápidos, a quantidade de  informações é enorme. E é ai que o mundo se torna gigante. Por exemplo, você consegue acessar facilmente toda a história da China, mas consegue estudar ela em sua totalidade, sabendo que estamos falando de 5 mil  anos de civilização? É por isso que o mundo então se torna gigante...

sábado, 1 de dezembro de 2012

Governo a serviço de quem mesmo ?

Já venho dizendo isso há algum tempo mas, volto a repetir: essa crise nos mostra que o Estado, desde a implantação do neoliberalismo (ou desde sempre?), sempre atendeu o interesse das grandes empresas e não da população. 

Prova disso é a correria desesperada dos governos para tentar salvar os bancos desde a crise da bolha especulativa imobiliária que começou nos EUA em 2008 e se espalhou pelo mundo todo. 

Na Europa, a Grécia foi o símbolo de como essa crise bateu forte em alguns países (embora, o problema da Grécia vem desde o estouro do seu orçamento para receber as olimpíadas), mas, outros países também sofreram os efeitos dessa crise, como a Espanha. 

O país agora recorre junto a União Européia para conseguir uma ajuda bilionária para investir em seus bancos, muitos deles o governo acabou por comprar com a crise pois faliram quase que instantaneamente com a mesma.

Diante disso, não duvido que o título deste post vire uma indagação não só minha, como sua também. Embora, caro leitor, nós infelizmente sabemos a resposta da mesma. 

A Espanha vai pedir 37 bilhões de euros aos fundos de resgate da União Europeia para sanar os bancos estatizados do país (Bankia, Novacaixagalicia, Caixa de Catalunya e Banco de Valencia), afirmou nesta segunda-feira (26/11) o ministro da Economia espanhol, Luis De Guindos.

"Para os bancos estatizados serão cerca de 37 bilhões de euros e 40 bilhões no total, cerca de 3,5% do PIB [Produto Interno Bruto]", disse Guindos durante reunião de ministros das Finanças do bloco, em Bruxelas.

Esse montante leva em conta a injeção de liquidez necessária ao programa de saneamento (bad bank) criado pelo governo para "limpar" o sistema financeiro espanhol de ativos tóxicos herdados com a explosão da bolha imobiliária na Espanha. Também abrange uma parcela de capital que precisará ser investida em bancos não nacionalizados, mas que requerem um fortalecimento de seus fundos próprios.

O ministro espanhol lembrou que a Comissão Europeia aprovará o plano de reestruturação dos bancos espanhóis, passo anterior ao desembolso de ajuda financeira previsto para dezembro. O governo do primeiro-ministro Mariano Rajoy recebeu, em junho, sinal verde do Banco Central Europeu e da União Europeia para utilizar até 100 bilhões de euros de recursos dos fundos de resgate europeus, de forma a socorrer os bancos à beira da falência.

Catalunha no caminho de sua independência

Apesar de um leve baque nas últimas eleições parece que o partido que conduz o processo de separação da Catalunha da Espanha está tomando o caminho para chegar no seu objetivo final. 

Região mais rica da Espanha, a Catalunha vem há anos tentado conseguir sua independência do país. Nos últimos anos o pedido vem se tornando cada vez mais forte e a pressão por um plebiscito  junto à população por essa questão está cada vez mais perto. 

Mesmo que o partido que esteja a frente do processo tenha perdido alguns votos nas últimas eleições, muito por conta da sua postura, aliás da esquerda como um todo não só lá como aqui também... Eu explico... 

De forma bem simplista, pense na seguinte situação:

Várias pessoas querem laranja para comer. Porém uma quer fatiada, outra quer em gomos, outra quer para fazer suco e nenhuma delas abre mão de ter a laranja a não ser de sua forma. Mas, o que nenhum deles enxerga, é que todos querem a mesma coisa: a laranja. Todavia, se todos se unissem, todos teriam laranja. 

Por analogia pense nas pessoas como os partidos de esquerda e na laranja como o poder ou cargo político pelo qual disputam... 

Fato é que mesmo com uma ligeira derrota, exatamente por que o jeito como o partido quer obter a independência da Catalunha não agradou a população, o partido se mantém firme em seu propósito. 

Entretanto, acredito ser difícil a Catalunha se tornar independente por conta da Espanha. Se com a crise atual a Espanha já anda cambaleante e muito mal das pernas, imagine o que acontecerá se ela perder exatamente a região mais rica ?





Com a maior participação eleitoral (56,3%) desde as eleições de 1988 e queda nas abstenções, a Catalunha escolheu no domingo (25/11) seu novo parlamento com os olhos voltados para o referendo de independência prometido pelo atual presidente do governo autônomo local, Artur Mas, que buscava manter seu cargo e a maioria de sua coalizão conservadora CiU (Convergència i Unió).


Resultados divulgados, múltiplas leituras podem ser feitas, mas de concreto observa-se uma queda acentuada da coalizão conservadora de Mas (de 62 cadeiras caíram para 50), um crescimento significativo da ERC (Esquerra Republicana de Catalunya, nacionalistas de esquerda que subiram de 10 para 21 cadeiras), uma queda considerável do eterno segundo partido da Catalunha, o PSC (braço local do PSOE que caiu de 28 para 20 cadeiras), um leve crescimento do PP (de 18 para 19)  e a chegada das CUP (Candidatures d'Unitat Popular, nacionalistas comunistas que conseguiram 3 cadeiras) no parlamento local, além do crescimento do partido Ciutadans, fortemente antinacionalistas (que foram de 3 para 9 cadeiras).


Os Ecosocialistas da ICV-EUiA (Iniciativaper Catalunya Verds - Esquerra Unida i Alternativa) aumentaram um pouco sua presença no parlamento e são, em geral, parceiros em um processo soberanista (subiram de 10 para 13 cadeiras). Estes se aproximam mais de posições nacionalistas catalãs, apesar de manterem um diálogo com outros setores não-soberanistas de esquerda e terem sido parceiros do PSC e ERC no governo de 2006.

Uns ganharam, outros perderam, resta saber se o ímpeto nacionalista de Artur Mas se manterá o mesmo e quem será convidado para formar parte da coalizão que precisará compor para se manter no poder. As apostas dão como certa uma coalizão com o ERC, que apesar de discordâncias de ordem econômica e social, é o único partido nacionalista com força suficiente para manter a rota traçada por Mas no caminho da independência.

E as primeiras declarações de Mas, de que "apesar dos resultados, o processo da Catalunha segue sem recuos, mas com a consciência clara de que a maioria foi ampliada "sinalizam a manutenção da rota escolhida em 2010. Em outras palavras, será preciso dialogar enquanto coalizão para se alcançar a independência, mas que a maioria nacionalista cresceu e que em até 4 anos haverá uma consulta.

A CiU venceu, mas sofreu uma queda considerável mesmo tendo perdido apenas pouco mais de 120 mil votos e, ao menos de acordo com os primeiros discursos, não alterará a rota soberanista.



Para muitos analistas da imprensa espanhola, os resultados demonstrariam o descontentamento da população catalã com a rota para a independência desenhada pela CiU, porém estas análises desprezam o fato do ERC ter dobrado sua votação anterior e de ter, pela primeira vez, aparecido como segunda força na região, com uma cadeira na frente do PSC. Tal ideia também despreza a entrada da CUP no parlamento e que, somados, os nacionalistas mantêm a maioria e a hegemonia na Catalunha com larga vantagem.


Nas eleições de 2006, os nacionalistas CiU e ERC somaram 69 cadeiras (81 somando ICV-EUiA), enquanto os nacionalistas espanhóis PSC, PP e Ciutadans somaram 54 cadeiras. Nas eleições de 2010, os nacionalistas, somando CiU, ERC, ICV-EUiA e SI (Solidaritat Catalana, pela primeira vez no parlamento), conseguiram 86 cadeiras no parlamento, bem acima das 81 anteriores. Nestas eleições os nacionalistas ampliaram sua força, chegando às 87 cadeiras (CiU, ERC, ICV-EUiA e CUP).

A leitura dos resultados se mostra difícil, pois de certa maneira os partidos mais ferrenhamente antinacionalistas (que, por outro lado, se mostram nacionalistas espanhóis), como PP e PSC, não tiveram um crescimento significativo.

Apesar da queda de CiU e PSC e do crescimento de Ciutadans e ERC, o número geral de cadeiras divididas entre nacionalistas catalães e nacionalistas espanhóis não sofreu grandes alterações, podendo esta eleição ser considerada muito mais um ajuste do que uma revolução no panorama eleitoral.

A tendência que se vê desde 2006 é uma queda na presença de nacionalistas espanhóis no parlamento, ao passo que vem oscilando e talvez tenha chegado ao seu teto a presença nacionalista catalã.

A abstenção e os votos nulos, por sua vez, sofreram grande queda, beirando os 32% frente aos mais de 40% de 2010, uma eleição com recorde de abstenção.

Em termos de votos, é curioso notar que os nacionalistas catalães aumentaram em quase 100 mil o total de votos, se somados com a ICV-EUia este número sobe para perto de 200 mil. Já os nacionalistas espanhóis cresceram cerca de 130 mil votos. A diferença entre nacionalistas catalães e espanhóis, contando com a ICV-EUiA, beira os 750 mil votos, o que, para um colégio eleitoral de pouco mais de 3 milhões de pessoas, é significativo. E é preciso ainda lembrar que há uma parcela significativa de eleitores do PSC e de membros do partido que não são totalmente avessos à soberania, ainda que apostem no federalismo.

Algo claro nos resultados de domingo é que tanto CiU quanto ERC voltaram ao patamar eleitoral de 2006, quando conseguiram, respectivamente, 48 e 21 cadeiras - é bom lembrar que em 2010 o ERC sofreu uma queda acentuada, ainda que não imprevisível, devido à péssima avaliação de seu governo em coalizão com o PSE e ICV-EUiA. O PP vem crescendo pouco a pouco desde então ao passo que a ICV-EUiA vem se mantendo estável e o crescimento do Ciutadans é visível, com o triplo de cadeiras de 2006 para cá.  Fato notável, ainda, foi a queda do PSC, mas que vem se mostrando tendência.

As eleições de 2010 foram atípicas, convocadas em meio a uma crise de governo, formado por partidos de esquerda que não concordavam com um referendo soberanista e com questões de maior autonomia regional frente à Espanha.

Frente às maiores manifestações da história da Catalunha, no dia 11 de setembro de 2012, por motivo da Diada (dia em que se comemora ou relembra a conquista espanhola da região em 1714), com milhões de catalães inundando as ruas de Barcelona, e com todas as pesquisas de opinião garantindo uma ampla maioria ao "sim" em um possível referendo pela independência da região, os resultados se mostram, talvez, condizentes com o lento crescimento do nacionalismo catalão na região que não pertence nem à CiUe nem ao ERC.

No fim, os resultados de 2012 se mostram como uma forma de ajuste em relação às eleições de 2006 frente à uma eleição conturbada e atípica em 2010 com a população fazendo o ERC pagar pelos seus erros e dos seus parceiros no governo anterior.

O "plano soberanista" de Artur Mas não fracassou, como pregou o El País em manchete pós-eleitoral ainda antes dos 100% dos votos escrutados, mas apenas terá de sofrer alterações para acompanhar as posições dos outros partidos nacionalistas catalães que terão de ser parceiros no processo.

O processo para a formação do próximo governo regional será complicado, pois apesar da proximidade de posições em torno da independência, ERC, CUP e ICV-EUiA se opõem às reformas econômicas e posições sem relação à questões sociais dos conservadores da CiU, mas o mais provável é que algum tipo de acordo seja alcançado ao menos nas questões mais importantes e caras a ambos os grupos. Uma coalizão tensa, sem dúvida, mas necessária para que se caminhe para a independência.


Extraído de operamundi.com.br

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Para refletirmos: questão indígena

Desde que nossos colonizadores aqui chegaram e, posteriormente, por nós mesmos, os indígenas são deslegitimados e desterritorializados de suas próprias terras. 

Infelizmente continuamos a tratar os legítimos donos da terra como se fossem invasores, intrusos ou simplesmente meros adornos sem serventia. É repugnante a forma como são tratados até hoje, tanto pelo Governo que achou que criar a FUNAI seria a panaceia para essa questão histórica, quanto por aqueles que buscam as reservas indígenas por exploração e enriquecimento. 

E a coisa só tende a piorar... Não bastasse o genocídio que sofreram quase que em sua totalidade, agora os poucos que ainda restaram vivem cercados como se fossem animais engaiolados (isso quando o interesse não fala maior do que qualquer coisa e o "tamanho da gaiola" é reduzido ainda mais... A construção de Belo Monte que o diga...). 

É triste uma situação dessas, principalmente porque nós também temos nossa parcela de culpa. Sim... Eu, você, todos temos a nossa parcela de culpa... E essa vem da omissão em relação as questões indígenas... Quantos protestos, reivindicações e afins nós ridicularizamos ou não damos o menor apoio em se tratando de causas indígenas?

Você pode até mencionar que essas reivindicações vêm seguidas de ataques e tudo mais... Mas, pense: Para chegar a esse extremo é porque muito pior estão fazendo com você... 

Tudo bem que isso não justifica mas, imagine a seguinte situação:

Tiram sua casa, seu sustento, seu modo de vida, seus hábitos, costumes e te confinam a uma área que, comparado ao que você estava acostumado, parece que te tiraram de uma mansão e te colocaram num quarto-sala pra morar. 

Pois é, te irrita só de pensar nisso né? É exatamente o que acontece com eles... Só que não fica no plano das ideias com eles... Acontece de verdade!

Só que, como se não bastasse tudo isso, a situação está ficando cada vez pior... 

Pedimos ao Governo e à Justiça Federal para não decretar a ordem de despejo/expulsão, mas decretar nossa morte coletiva e enterrar nós todos aqui. Pedimos, de uma vez por todas, para decretar nossa extinção/dizimação total, além de enviar vários tratores para cavar um grande buraco para jogar e enterrar nossos corpos. Este é o nosso pedido aos juízes federais. 
O trecho pertence à carta de um grupo de 170 indígenas que vivem à beira de um rio no município de Iguatemi, no Mato Grosso do Sul, cercados por pistoleiros. As palavras foram ditadas em 8 de outubro ao conselho Aty Guasu (assembleia dos Guaranis Caiovás), após receberem a notícia de que a Justiça Federal decretou sua expulsão da terra. São 50 homens, 50 mulheres e 70 crianças. Decidiram ficar. E morrer como ato de resistência – morrer com tudo o que são, na terra que lhes pertence.
Há cartas, como a de Pero Vaz de Caminha, de 1º de maio de 1500, que são documentos de fundação do Brasil: fundam uma nação, ainda sequer imaginada, a partir do olhar estrangeiro do colonizador sobre a terra e sobre os habitantes que nela vivem. E há cartas, como a dos Guaranis Caiovás, escritas mais de 500 anos depois, que são documentos de falência. Não só no sentido da incapacidade do Estado-nação constituído nos últimos séculos de cumprir a lei estabelecida na Constituição hoje em vigor, mas também dos princípios mais elementares que forjaram nosso ideal de humanidade na formação do que se convencionou chamar de “o povo brasileiro”. A partir da carta dos Guaranis Caiovás, tornamo-nos cúmplices de genocídio. Sempre fomos, mas tornar-se é saber que se é. 
Os Guaranis Caiovás avisam-nos por carta que, depois de tantas décadas de luta para viver, descobriram que agora só lhes resta morrer. Avisam a todos nós que morrerão como viveram: coletivamente, conjugados no plural. 
Nos trechos mais pungentes de sua carta de morte, os indígenas afirmam: 
- Queremos deixar evidente ao Governo e à Justiça Federal que, por fim, já perdemos a esperança de sobreviver dignamente e sem violência em nosso território antigo. Não acreditamos mais na Justiça Brasileira. A quem vamos denunciar as violências praticadas contra nossas vidas? Para qual Justiça do Brasil? Se a própria Justiça Federal está gerando e alimentando violências contra nós. Nós já avaliamos a nossa situação atual e concluímos que vamos morrer todos, mesmo, em pouco tempo. Não temos e nem teremos perspectiva de vida digna e justa tanto aqui na margem do rio quanto longe daqui. Estamos aqui acampados a 50 metros do rio Hovy, onde já ocorreram 4 mortes, sendo que 2 morreram por meio de suicídio, 2 em decorrência de espancamento e tortura de pistoleiros das fazendas. Moramos na margem deste rio Hovy há mais de um ano. Estamos sem assistência nenhuma, isolados, cercados de pistoleiros e resistimos até hoje. Comemos comida uma vez por dia. Tudo isso passamos dia a dia para recuperar o nosso território antigo Pyleito Kue/Mbarakay. De fato, sabemos muito bem que no centro desse nosso território antigo estão enterrados vários de nossos avôs e avós, bisavôs e bisavós, ali está o cemitérios de todos os nossos antepassados. Cientes desse fato histórico, nós já vamos e queremos ser mortos e enterrados junto aos nossos antepassados aqui mesmo onde estamos hoje. (…) Não temos outra opção, esta é a nossa última decisão unânime diante do despacho da Justiça Federal de Navirai-MS.
Como podemos alcançar o desespero de uma decisão de morte coletiva? Não podemos. Não sabemos o que é isso. Mas podemos conhecer quem morreu, morre e vai morrer por nossa ação – ou inação. E, assim, pelo menos aproximar nossos mundos, que até hoje têm na violência sua principal intersecção. 
Desde o ínicio do século XX, com mais afinco a partir do Estado Novo (1937-45) de Getúlio Vargas, iniciou-se a ocupação pelos brancos da terra dos Guaranis Caiovás. Os indígenas, que sempre viveram lá, começaram a ser confinados em reservas pelo governo federal, para liberar suas terras para os colonos que chegavam, no que se chamou de “A Grande Marcha para o Oeste”. A visão era a mesma que até hoje persiste no senso comum: “terra desocupada” ou “não há ninguém lá, só índio”.  
Era de gente que se tratava, mas o que se fez na época foi confiná-los como gado, num espaço de terra pequeno demais para que pudessem viver ao seu modo – ou, na palavra que é deles, Teko Porã (“o Bem Viver”). Com a chegada dos colonos, os indígenas passaram a ter três destinos: ou as reservas ou trabalhar nas fazendas como mão de obra semiescrava ou se aprofundar na mata. Quem se rebelou foi massacrado. Para os Guaranis Caiovás, a terra a qual pertencem é a terra onde estão sepultados seus antepassados. Para eles, a terra não é uma mercadoria – a terra é. 
Na ditadura militar, nos anos 60 e 70, a colonização do Mato Grosso do Sul se intensificou. Um grande número de sulistas, gaúchos mais do que todos, migrou para o território para ocupar a terra dos índios. Outros despacharam peões e pistoleiros, administrando a matança de longe, bem acomodados em suas cidades de origem, onde viviam – e vivem até hoje – como “cidadãos de bem”, fingindo que não têm sangue nas mãos.  
Com a redemocratização do país, a Constituição de 1988 representou uma mudança de olhar e uma esperança de justiça. Os territórios indígenas deveriam ser demarcados pelo Estado no prazo de cinco anos. Como sabemos, não foi. O processo de identificação, declaração, demarcação e homologação das terras indígenas tem sido lento, sensível a pressões dos grandes proprietários de terras e da parcela retrógrada do agronegócio. E, mesmo naquelas terras que já estão homologadas, em muitas o governo federal não completou a desintrusão – a retirada daqueles que ocupam a terra, como posseiros e fazendeiros –, aprofundando os conflitos. 

Nestas últimas décadas testemunhamos o genocídio dos Guaranis Caiovás. Em geral, a situação dos indígenas brasileiros é vergonhosa. A dos 43 mil Guaranis Caiovás, o segundo grupo mais numeroso do país, é considerada a pior de todas. Confinados em reservas como a de Dourados, onde cerca de 14 mil, divididos em 43 grupos familiares, ocupam 3,5 mil hectares, eles encontram-se numa situação de colapso. Sem poder viver segundo a sua cultura, totalmente encurralados, imersos numa natureza degradada, corroídos pelo alcoolismo dos adultos e pela subnutrição das crianças, os índices de homicídio da reserva são maiores do que em zonas em estado de guerra.  

A situação em Dourados é tão aterradora que provocou a seguinte afirmação da vice-procuradora-geral da República, Deborah Duprat: “A reserva de Dourados é talvez a maior tragédia conhecida da questão indígena em todo o mundo”. Segundo um relatório do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), que analisou os dados de 2003 a 2010, o índice de assassinatos na Reserva de Dourados é de 145 para cada 100 mil habitantes – no Iraque, o índice é de 93 assassinatos para cada 100 mil. Comparado à média brasileira, o índice de homicídios da Reserva de Dourados é 495% maior.  
A cada seis dias, um jovem Guarani Caiová se suicida. Desde 1980, cerca de 1500 tiraram a própria vida. A maioria deles enforcou-se num pé de árvore. Entre as várias causas elencadas pelos pesquisadores está o fato de que, neste período da vida, os jovens precisam formar sua família e as perspectivas de futuro são ou trabalhar na cana de açúcar ou virar mendigos. O futuro, portanto, é um não ser aquilo que se é. Algo que, talvez para muitos deles, seja pior do que a morte. 
Um relatório do Ministério da Saúde mostrou, neste ano, o que chamou de “dados alarmantes, se destacando tanto no cenário nacional quanto internacional”. Desde 2000, foram 555 suicídios, 98% deles por enforcamento, 70% cometidos por homens, a maioria deles na faixa dos 15 aos 29 anos. No Brasil, o índice de suicídios em 2007 foi de 4,7 por 100 mil habitantes. Entre os indígenas, no mesmo ano, foi de 65,68 por 100 mil. Em 2008, o índice de suicídios entre os Guaranis Caiovás chegou a 87,97 por 100 mil, segundo dados oficiais. Os pesquisadores acreditam que os números devem ser ainda maiores, já que parte dos suicídios é escondida pelos grupos familiares por questões culturais. 
As lideranças Guaranis Caiovás não permaneceram impassíveis diante deste presente sem futuro. Começaram a se organizar para denunciar o genocídio do seu povo e reivindicar o cumprimento da Constituição. Até hoje, mais de 20 delas morreram assassinadas por ferirem os interesses privados de fazendeiros da região, a começar por Marçal de Souza, em 1983, cujo assassinato ganhou repercussão internacional. Ao mesmo tempo, grupos de Guaranis Caiovás abandonaram o confinamento das reservas e passaram a buscar suas tekohá, terras originais, na luta pela retomada do território e do direito à vida. Alguns grupos ocuparam fundos de fazendas, outros montaram 30 acampamentos à beira da estrada, numa situação de absoluta indignidade. Tanto nas reservas quanto fora delas, a desnutrição infantil é avassaladora. 
A trajetória dos Guaranis Caiovás que anunciaram sua morte coletiva ilustra bem o destino ao qual o Estado brasileiro os condenou. Homens, mulheres e crianças empreenderam um caminho em busca da terra tradicional, localizada às margens do Rio Hovy, no município de Iguatemi (MS). Acamparam em sua terra no dia 8 de agosto de 2011, nos fundos de fazendas. Em 23 de agosto foram atacados e cercados por pistoleiros, a mando dos fazendeiros. Em um ano, os pistoleiros já derrubaram dez vezes a ponte móvel feitas por eles para atravessar um rio com 30 metros de largura e três de fundura. Em um ano, dois indígenas foram torturados e mortos pelos pistoleiros, outros dois se suicidaram.  
Em tentativas anteriores de recuperação desta mesma terra, os Guaranis Caiovás já tinham sido espancados e ameaçados com armas de fogo. Alguns deles tiveram seus olhos vendados e foram jogados na beira da estrada. Em outra ocasião, mulheres, velhos e crianças tiveram seus braços e pernas fraturados. O que a Justiça Federal fez? Deferiu uma ordem de despejo. Em nota, a FUNAI (Fundação Nacional do Índio) afirmou que “está trabalhando para reverter a decisão”. 
Os Guaranis Caiovás estão sendo assassinados há muito tempo, de todas as formas disponíveis, as concretas e as simbólicas. “A impunidade é a maior agressão cometida contra eles”, afirma Flávio Machado, coordenador do CIMI no Mato Grosso do Sul. Nas últimas décadas, há pelo menos duas formas interligadas de violência no processo de recuperação da terra tradicional dos indígenas: uma privada, das milícias de pistoleiros organizadas pelos fazendeiros; outra do Estado, perpetrada pela Justiça Federal, na qual parte dos juízes, sem qualquer conhecimento da realidade vivida na região, toma decisões que não só compactuam com a violência , como a acirram.  
“Quando os pistoleiros não conseguem consumar os despejos e massacres truculentos dos indígenas, os fazendeiros contratam advogados para conseguir a ordem de despejo na Justiça”, afirma Egon Heck, indigenista e cientista político, num artigo publicado em relatório do CIMI. “No momento em que ocorre a ordem de despejo, os agentes policiais agem de modo similar ao dos pistoleiros, visto que utilizam armas pesadas, queimam as ocas, ameaçam e assustam as crianças, mulheres e idosos.”  
Ao fundo, o quadro maior: os sucessivos governos que se alternaram no poder após a Constituição de 1988 foram incompetentes para cumpri-la. Ao final de seus dois mandatos, Lula reconheceu que deixava o governo com essa dívida junto ao povo Guarani Caiová. Legava a tarefa à sua sucessora, Dilma Rousseff. Os indígenas escreveram, então, uma carta: “Presidente Dilma, a questão das nossas terras já era para ter sido resolvida há décadas. Mas todos os governos lavaram as mãos e foram deixando a situação se agravar. Por ultimo, o ex-presidente Lula prometeu, se comprometeu, mas não resolveu. Reconheceu que ficou com essa dívida para com nosso povo Guarani Caiová e passou a solução para suas mãos. E nós não podemos mais esperar. Não nos deixe sofrer e ficar chorando nossos mortos quase todos os dias. Não deixe que nossos filhos continuem enchendo as cadeias ou se suicidem por falta de esperança de futuro (…) Devolvam nossas condições de vida que são nossos tekohá, nossas terras tradicionais. Não estamos pedindo nada demais, apenas os nossos direitos que estão nas leis do Brasil e internacionais”. 
A declaração de morte dos Guaranis Caiovás ecoou nas redes sociais na semana passada. Gerou uma comoção. Não é a primeira vez que indígenas anunciam seu desespero e seu genocídio. Em geral, quase ninguém escuta, para além dos mesmos de sempre, e o que era morte anunciada vira morte consumada. Talvez a diferença desta carta é o fato de ela ecoar algo que é repetido nas mais variadas esferas da sociedade brasileira, em ambientes os mais diversos, considerado até um comentário espirituoso em certos espaços intelectualizados: a ideia de que a sociedade brasileira estaria melhor sem os índios. 
Desqualificar os índios, sua cultura e a situação de indignidade na qual vive boa parte das etnias é uma piada clássica em alguns meios, tão recorrente que se tornou quase um clichê. Para parte da elite escolarizada, apesar do esforço empreendido pelos antropólogos, entre eles Lévi-Strauss, as culturas indígenas ainda são vistas como “atrasadas”, numa cadeia evolutiva única e inescapável entre a pedra lascada e o Ipad – e não como uma escolha diversa e um caminho possível. Assim, essa parcela da elite descarta, em nome da ignorância, a imensa riqueza contida na linguagem, no conhecimento e nas visões de mundo das 230 etnias indígenas que ainda sobrevivem por aqui. 
Toda a História do Brasil, a partir da “descoberta” e da colonização, é marcada pelo olhar de que o índio é um entrave no caminho do “progresso” ou do “desenvolvimento”. Entrave desde os primórdios – primeiro, porque teve a deselegância de estar aqui antes dos portugueses; em seguida, porque se rebelava ao ser escravizado pelos invasores europeus. A sociedade brasileira se constituiu com essa ideia e ainda que a própria sociedade tenha mudado em muitos aspectos, a concepção do índio como um entrave persiste. E persiste de forma impressionante, não só para uma parte significativa da população, mas para setores do Estado, tanto no governo atual quanto nas gestões passadas.  
 “Entraves” precisam ser removidos. E têm sido, de várias maneiras, como a História, a passada e a presente, nos mostra. Talvez essa seja uma das explicações possíveis para o impacto da carta de morte ter alcançado um universo maior de pessoas. Desta vez, são os índios que nos dizem algo que pode ser compreendido da seguinte forma: “É isso o que vocês querem? Nos matar a todos? Então nós decidimos: vamos morrer”. Ao devolver o desejo a quem o deseja, o impacto é grande.  
É importante lembrar que carta é palavra. A declaração de morte coletiva surge como palavra dita. Por isso precisamos compreender, pelo menos um pouco, o que é a palavra para os Guaranis Caiovás. Em um texto muito bonito, intitulado Ñe'ẽ – a palavra alma, a antropóloga Graciela Chamorro, da Universidade Federal da Grande Dourados, nos dá algumas pistas: 
“A palavra é a unidade mais densa que explica como se trama a vida para os povos chamados guarani e como eles imaginam o transcendente. As experiências da vida são experiências de palavra. Deus é palavra. (...) O nascimento, como o momento em que a palavra se senta ou provê para si um lugar no corpo da criança. A palavra circula pelo esqueleto humano. Ela é justamente o que nos mantém em pé, que nos humaniza. (...) Na cerimônia de nominação, o xamã revelará o nome da criança, marcando com isso a recepção oficial da nova palavra na comunidade. (...) As crises da vida – doenças, tristezas, inimizades etc. – são explicadas como um afastamento da pessoa de sua palavra divinizadora. Por isso, os rezadores e as rezadoras se esforçam para ‘trazer de volta’, ‘voltar a sentar’ a palavra na pessoa, devolvendo-lhe a saúde.(...) Quando a palavra não tem mais lugar ou assento, a pessoa morre e torna-se um devir, um não-ser, uma palavra-que-não-é-mais. (...) Ñe'ẽ e ayvu podem ser traduzidos tanto como ‘palavra’ como por ‘alma’, com o mesmo significado de ‘minha palavra sou eu’ ou ‘minha alma sou eu’. (...) Assim, alma e palavra podem adjetivar-se mutuamente, podendo-se falar em palavra-alma ou alma-palavra, sendo a alma não uma parte, mas a vida como um todo.” 
A fala, diz o antropólogo Spensy Pimentel, pesquisador do Centro de Estudos Ameríndios da Universidade de São Paulo, é a parte mais sublime do ser humano para os Guaranis Caiovás. “A palavra é o cerne da resistência. Tem uma ação no mundo – é uma palavra que age. Faz as coisas acontecerem, faz o futuro. O limite entre o discurso e a profecia é tênue.”
Se a carta de Pero Vaz de Caminha marca o nascimento do Brasil pela palavra escrita, é interessante pensar o que marca a carta dos Guaranis Caiovás mais de 500 anos depois. Na carta-fundadora, é o invasor/colonizador/conquistador/estrangeiro quem estranha e olha para os índios, para sua cultura e para sua terra. Na dos Guaranis Caiovás, são os índios que olham para nós. O que nos dizem aqueles que nos veem? (Ou o que veem aqueles que nos dizem?)
A declaração de morte dos Guaranis Caiovás é “palavra que age”. Antes que o espasmo de nossa comoção de sofá migre para outra tragédia, talvez valha a pena uma última pergunta: para nós, o que é a palavra?