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sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Um Manifesto por uma outra Globalização!

Recentemente, foi publicado pelo ex-presidente do nosso país, Lula, em conjunto com o atual presidente da França, Hollande, um manifesto em defesa de uma nova maneira de "lidar com o mundo". 

O documento leva consigo a carga de ser o primeiro documento do gênero durante a dita Era da Globalização.

Ao iniciar por uma das constatações que fiz em post anterior o texto nos remete a considerar que a Globalização mais nos separou do que nos uniu, o que, de fato, é uma grande verdade. 

A dinâmica dessa proposta é colocar em tela uma série de questões que vão desde a garantia de que cada país exerça a forma de governo por ele escolhida (estamos entendidos, EUA?) até em encontrar uma solução que busque a equidade entre as nações, principalmente via um modelo econômico e político novos (haja visto que o neoliberalismo, mesmo que tardiamente, demonstrou não ser capaz disso). 

Agora, o texto é empolgante, daqueles que te fazem acreditar na humanidade, mas... E a ação? o que pode ser realmente feito para que este manifesto não seja um mero manifesto? Essas são questões que nem Lula ou Hollande conseguirão responder sozinhos... 

Porque, mais do que depender da vontade de governantes espalhados pelo mundo inteiro, ela também depende de certos interesses políticos e econômicos... Infelizmente... 

Mas, isso não invalida o manifesto, pelo contrário, o torna porta de entrada para que se abram as discussões acerca de uma nova forma de conduzir política e economicamente. 


Mesmo antes da queda do Muro de Berlim, a social democracia estava em crise profunda, desarticulada, sem princípios de ação.
Ontem, em Paris, no “Fórum pelo Progresso Social, o crescimento como saída para a crise”, o Instituto Lula e a Fundação Jean Jaurès, do Partido Socialista francês soltaram documento conjunto para a primeira convocação de fundações políticas e institutos progressistas do mundo inteiro, visando propor uma nova governança global.
Com o manifesto, Lula e François Hollande passam a encabeçar a primeira iniciativa mundial, visando criar um contraponto de governança global ao “consenso de Washington” – que forneceu as bases para o modelo neoliberal que se tornou praticamente hegemônico nas últimas décadas.
Os termos do documento provavelmente marcarão a história da globalização com o mesmo impacto provocado pelo “Consenso de Washington” no início dos anos 90.
O documento é objetivo, ao afirmar que “a globalização divide ao invés de unir”. Diz que a crise internacional agrava a concorrência entre países e sociedades e atinge principalmente os mais vulneráveis.
A crise afeta todos os países, adia decisões contra o aquecimento global. A falta de uma ação planejada, continua, pode levar a um ponto de não-retorno.
O manifesto propõe uma nova governança global, que minimize os conflitos que permita que “cada nação realize o modelo de sociedade que escolheu”. E os poderes públicos “devem garantir que todos tenham oportunidades de desenvolver suas capacidades individuais”.
Depois, chama a atenção para as mudanças estruturais que estão ocorrendo:
“Mas um novo mundo está em gestação para responder aos desafios sociais, ambientais e políticos da globalização. A sociedade civil mundial se tornou uma realidade tangível. Políticas públicas inovadoras e outros modos de governar surgem em todos os continentes, particularmente nos países emergentes e em desenvolvimento. As instâncias multilaterais também estão se reconfigurando. A constituição do G20 reflete a mudança dos equilíbrios mundiais, mas seu impacto ainda limitado ilustra a dificuldade dos governos de chegarem a um acordo e de agir de forma concreta”.
E termina com uma conclamação histórica:
“Fazemos uma conclamação em defesa da confiança na capacidade humana de se reinventar e do poder criador de nossa sociedade-mundo, para sair definitivamente da crise e construir as bases de um futuro harmonioso que possa ser compartilhado por todos”.

DECLARAÇÃO CONJUNTA DA FUNDAÇÃO JEAN JAURÈS E DO INSTITUTO LULA
A globalização é um imenso desafio com o qual se confronta a humanidade.
Ela tem um poder formidável de mudança para todas as sociedades: a mudança econômica, com a intensificação das trocas; a mudança cultural, pois essas trocas possibilitam a circulação de ideias e a transformação das práticas culturais e de costumes; a mudança política, já que a emergência de preocupações partilhadas exige uma vontade comum de agir e de superar conjuntamente as dificuldades.
No entanto, a globalização, da forma que ocorre atualmente, está longe de satisfazer as aspirações que legitimamente suscita.
A crise econômica internacional agrava a concorrência entre os países e as sociedades. Ela atinge os mais vulneráveis, particularmente os trabalhadores e os jovens. Ela afeta a todos os países, os que estão em recessão e os que estão em crescimento. Ela conduz governos a adiar as decisões necessárias para prevenir o aquecimento global, sendo que a exaustão e a degradação dos recursos naturais corre o risco de atingir um ponto de não-retorno devido à falta de uma ação planejada de forma conjunta.
Sejamos claros: hoje, a globalização divide ao invés de unir.
Isoladas, as políticas de austeridade mostraram seus limites para encontrar a saída da crise. A retomada ainda não esta garantida, ao mesmo tempo em que os direitos econômicos e sociais estão ameaçados. É imprescindível que sejam adotadas políticas de crescimento. Somente assim a globalização poderá garantir o respeito à coesão social e ao meio ambiente.
Uma nova governança é necessária para, de um lado, regular os conflitos entre as nações e garantir a paz e, de outro, permitir que cada nação realize o modelo de sociedade que escolheu. Os poderes públicos devem garantir que todos tenham oportunidades de desenvolver suas capacidades individuais. Devem também trabalhar em prol da perenidade do meio ambiente para as gerações futuras.
Mas um novo mundo está em gestação para responder aos desafios sociais, ambientais e políticos da globalização. A sociedade civil mundial se tornou uma realidade tangível. Políticas públicas inovadoras e outros modos de governar surgem em todos os continentes, particularmente nos países emergentes e em desenvolvimento. As instâncias multilaterais também estão se reconfigurando. A constituição do G20 reflete a mudança dos equilíbrios mundiais, mas seu impacto ainda limitado ilustra a dificuldade dos governos de chegarem a um acordo e de agir de forma concreta.
As respostas às questões colocadas pela globalização não se afirmarão espontaneamente. Elas se construirão pelo diálogo, pelo debate das opiniões dos estudiosos e pela mobilização dos atores e dos povos, no sentido mais amplo.
É por isso que, a partir deste fórum que se reuniu em Paris nos dias 11 e 12 de dezembro, lançamos um chamado para as outras fundações políticas e institutos progressistas do mundo inteiro: vamos constituir a iniciativa “Fundações pelo Progresso Social”. Fiéis à nossa vocação e à nossa missão, vamos nos reunir periodicamente para debater, escutar, propor. Vamos fazer emergir convergências e consensos; vamos nos unir para ter uma influência nos destinos do mundo.
Os riscos que atualmente ameaçam a humanidade são grandes demais para nos focarmos apenas em uma gestão de curto prazo destes problemas.
Fazemos uma conclamação em defesa da confiança na capacidade humana de se reinventar e do poder criador de nossa sociedade-mundo, para sair definitivamente da crise e construir as bases de um futuro harmonioso que possa ser compartilhado por todos.



Pecuária Sustentável?

Parece piada, mas, num local bem próximo de você, não é. Pelo menos é que anda acontecendo no nosso país, especialmente em Alta Floresta-MT. 

Tida com uma das atividades que mais destruíram nosso meio-ambiente, a pecuária nessa região, depois de um passado de completa negligência que perdurou desde o tempos da ditadura militar, vem passando por transformações que a ajudaram a se tornar mais sustentável. 

Seguindo medidas ditadas pela EMBRAPA e com o apoio de ONGs e governos locais os pecuaristas têm conseguido reduzir sensivelmente a emissão de poluentes; o que pode ser comprovado com a perda do primeiro lugar como cidade que mais destruiu suas florestas. 

As iniciativas compreendem desde medidas para preservação de cursos d´água e nascentes, passando pelo plantio de árvores, até o manejo com o gado durante o seu processo de abate e comercialização. 

Espera-se que essas medidas ajudem a frear o avanço da pecuária sobre a fronteira amazônica, algo a ser feito a longo prazo. 

Se realmente essas medidas forem levadas à risca e disseminadas para além de Alta Floresta, o que deve ser feito o quanto antes; podemos ter uma pecuária não totalmente sustentável, mas, sim com reduções sensíveis aos danos causados pelo meio-ambiente. 

E só em reduzir esses danos, já damos um passo importantíssimo. 

O município de Alta Floresta, no Norte de Mato Grosso, é um símbolo do avanço da agropecuária no Portal da Amazônia. Desde quando foi criada, há 36 anos, a cidade já perdeu mais de 50% dos seus 9 mil km² de floresta nativa. Em 2008 figurou em primeiro lugar na lista suja do desmatamento e só conseguiu sair neste ano, após um longo esforço do poder público, ONGs e da população.

Os primeiros moradores de Alta Floresta, oriundos de projetos de ocupação patrocinados pela ditadura, tinham a missão de abrir áreas e ocupar o solo. Sem qualquer acompanhamento técnico ou planejamento, a atividade pecuária se desenvolveu através de uma série de práticas que se propagaram durante anos e resultaram, em 2010, em um desastre ambiental para a população: com mais de 4,5 mil km² de floresta no chão e quatro mil nascentes degradadas no município, os moradores tiveram de conviver com a falta de água durante um longo período de estiagem.
O retrato era trágico: gado com acesso direto aos cursos d’água e nascentes; falta de rotação do pasto; descuido com os dejetos; desmate de APP e reservas legais. “O que existe aqui é muito da cultura do vizinho. Se meu vizinho está fazendo, então eu vou fazer também”, diz Vando Telles, do Instituto Centro de Vida (ICV). Telles é coordenador de um projeto patrocinado pelo Fundo Vale que visa disseminar a cultura do BPA – Manual de Boas Práticas Agropecuárias da Embrapa. “A ideia é levar informação para os pecuaristas e mostrar que é possível trabalhar com uma pecuária de baixo carbono na Amazônia”, diz.
A pecuária é uma atividade de grande emissão, principalmente por conta das grandes áreas necessárias para o plantio de pasto. Milhares de hectares de florestas são postos abaixo na Amazônia para a criação de poucas cabeças de gado. Também entra na conta as emissões do próprio rebanho que emite gás metano através do arroto.
Segundo alguns cientistas, o metano é um gás capaz de reter 20 vezes mais calor que o gás carbônico. Como se já não bastasse o impacto natural da atividade, as práticas atuais dos produtores na região intensificam ainda mais o processo de emissão, pois esgotam o solo, não cuidam dos cursos d’água e não se preocupam manter árvores em pé. “No projetos vamos mostrar que o produtor pode cultivar algumas espécies de árvores comerciais no próprio pasto para ajudar no sequestro de carbono, fazer sombra aos bois e ainda gerar renda”, diz Telles.
Além de formação e consultoria, o projeto pretende medir o impacto da pecuária integrada através de um estudo de sequestro de carbono. “Acreditamos que, ao implementar os princípios do BPA, a gente consiga mostrar que é possível equalizar as emissões dessa atividade e, quem sabe, até enquadrar projetos da pecuária dentro dos MDL [Mecanismos de Desenvolvimento Limpo]”, acredita Telles.
São 11 pontos principais do manual de BPA da Embrapa que serão explorados no projeto: gestão da propriedade rural; função social do imóvel rural; responsabilidade social; gestão ambiental; instalações rurais; manejo pré-abate e bons tratos na produção animal; formação e manejo de pastagens; suplementação alimentar; identificação animal; controle sanitário e manejo produtivo. Com a adoção desses princípios os pecuaristas ganham uma produção mais rentável e competitiva e asseguram a oferta de alimentos seguros, oriundos de sistemas de produção sustentáveis. “Queremos mostrar que eles precisam ter o controle da produção. Ao contrário dos produtores de grãos que controlam todas as variáveis, os pecuaristas trabalham com estimativa. Estimam o quanto tem de pasto, de bois, de área. Nossa consultoria vai ensinar a colocar tudo em tabelas e calcular, inclusive, a variável ambiental”, diz Telles.
A pesquisa terá como laboratório a região do Portal da Amazônia. A simples disseminação dessas boas práticas tem dado resultados. Vilson Wittemann é pecuarista e trabalha com produção de leite há 18 anos em Alta Floresta. Ele é um dos beneficiados pelo projeto e já recebe consultoria técnica e financeira. “Conseguimos dobrar a nossa produção após a visita de um consultor que disse que a gente podia tirar leite também à tarde, não só de manhã”, diz o pecuarista.
São práticas simples, que visam melhorar a vida do produtor e incentivar cuidados com o meio ambiente. A perspectiva de aumento de renda e redução de custos é o que mais chama a atenção nos produtores. “A gente fazia as coisas sem saber. Agora, com essa consultoria, a gente tem uma visão mais completa do pasto. Um dos problemas que tinha aqui é a morte súbita, mas agora a gente entende a importância do manejo de pastagem, por exemplo, pra evitar que isso ocorra”, diz Wittemann. A morte súbita é o esgotamento do solo por conta do mau uso. É uma praga fulminante, acredita-se ser transmitida pela pata dos bois e que inviabiliza qualquer produção agrícola ou reflorestamento no solo. Segundo o Instituto Mato-grossense de Agropecuária (Imea), a Morte Súbita de pastagem atinge cerca de 2,3 milhões de hectares no estado. É o estagio mais grave de degradação e um grande drama nessa região do portal da Amazônia.
Avanço da Fronteira Agrícola. A pecuária é uma atividade com impacto ambiental menor do que a agricultura extensiva, principalmente por não usar agrotóxicos e fertilizantes nitrogenados, que emitem alta quantidade de CO2 e contaminam o lençol freático. “Se conseguirmos manter uma pecuária integrada e sustentável no portal da Amazônia vamos contribuir para frear o avanço da agricultura mecanizada nas áreas já abertas. A ideia é fazer de Alta Floresta um modelo de desenvolvimento sustentável no Portal da Amazônia e frear a expansão da fronteira agrícola”, diz
“Aumentando a capacidade de produção, em unidades animal por hectare, você diminui a necessidade de abrir novas áreas para aumentar a produtividade”, diz Bruno Simionato, engenheiro florestal e analista de carbono do ICV. Ele diz que o projeto de pecuária integrada ajuda na manutenção da cobertura vegetal, na proteção do solo, no aporte de biomassa, na manutenção da umidade e ciclagem de nutrientes, tudo porque oferece uma visão integrada do pasto.”E com os estudos que serão feitos saberemos quantas unidades de animal por hectare são possíveis sem que haja desbalanço no sistema, ou seja, sem que haja mais emissões do que absorção de CO2”, explica.
Plano ABC. O Brasil tem uma meta ousada para agropecuária de baixo carbono no compromisso assumido durante a COP15 em Copenhague. O chamado plano ABC (Agricultura de Baixo Carbono) que vai de 2010 até 2020 prevê a recuperação de 15 milhões de hectares de área de pastagem degradada, quatro milhões de hectares de integração Lavoura-Pecuária e 4,4 milhões de m³ de tratamento de dejetos animais em todo território nacional.
O programa ABC tem uma linha de crédito voltada para produtores rurais e cooperativas. As taxas são de apenas 5% ao ano e cada produtor pode financiar até 1 milhão de reais com carência de até 5 anos. Mas as altas exigências ambientais fazem com que o fundo seja pouco acessado.
Na safra 2011\2012 foram utilizados menos de 50% dos R$ 3,15 bilhões disponibilizados. Um dos eixos do projeto da pecuária integrada no Portal é enquadrar as propriedade dentro das exigências legais e auxiliar os produtores a acessar esses recursos de financiamento. Em junho desse ano o governo anunciou que vai disponibilizar 3,4 bilhões para a safra 2012/2013. Ao todo, o governo brasileiro espera disponibilizar 197 bilhões durante a vigência do ABC.





domingo, 16 de dezembro de 2012

Seca castiga o Nordeste

Parece reprise da sessão da tarde mas, não é. Por mais um ano a seca volta a assolar o Nordeste e populações inteiras começam a ficar sem comida e sem água, o mesmo vale para seus animais. 

Eu já escrevi aqui, em post anterior, que esse  problema não é climático e sim político. Mas, o que me levou a comentar essa notícia, por mais de uma vez, é que ela aconteceu justamente em época de eleição, o que corrobora ainda mais com o que foi dito no texto do post anterior. 

Até porque todos nós já sabemos que, nos dizeres de Lula, "o problema do Nordeste não é de seca mas, sim, de cerca"

Ele não poderia estar mais correto... Pena que, enquanto isso, pessoas e animais sofrem, ou pior agonizam, esperando pela chuva que não vem... 


Três gerações. E a tradição se repete na cidade de Santana do Ipanema, sertão de Alagoas, a 212 km de Maceió. O taxista Roberto Rodrigues tem um tio, o Zé Roberto, que tinha 112 cabeças de gado no mês de março. Então veio a seca. Entre julho e agosto, começou a vender os animais. Já se foram 74, tudo em troca de alguns litros de água, distribuídos por caminhões-pipa, e ração para os bichos. Hoje, tem 38 cabeças.
"A família não aguenta mais. Aí diz que vai abandonar tudo, quando vier a chuva. E a chuva vem. Aí começa tudo de novo. Vai comprando logo uns bezerrinhos e a gente esquece", disse o motorista.
Em tempos de chuva, a família sobrevive da agricultura familiar. Planta abóbora, não compra leite nem queijo porque as vacas pastam na vegetação farta e lambida pela água. A manteiga é feita em casa e o inhame é plantado no quintal. "Se não existisse a seca, a terra daria tudo. Ninguém passaria fome porque o sertanejo aproveita qualquer palmo de terra", comenta.
Todas as quartas-feiras tem uma feira de gado, na cidade de Dois Riachos, a 245 km da capital alagoana. Uma vaca custa R$ 1.500 no sertão, em tempos de chuva. Na seca, o valor cai para R$ 300. E o sertanejo tem cada vez menos dinheiro para comprar os animais. O gado está cada vez mais magro e desvalorizado.
"A gente reza quando vem gente de fora para comprar os animais. Eles têm mais dinheiro", explica.
E por que a família não abandona tudo? "É a única coisa que a família sabe fazer. Vem a revolta e tudo com esses políticos que estão aí. Mas, vai fazer o quê para sobreviver? Pior é que isso pode ser evitado, a seca vem todo ano. Tem jeito. Pior é político ladrão que enriquece a si e toda a família no meio disso tudo."
Em Santana do Ipanema, a chuva demora a cair desde agosto. Em três meses, o rio Ipanema - que dá nome à cidade - está tão seco que o leito é uma nuvem de poeira. A falta de energia elétrica é constante. São horas sem luz. Só nesta semana, foram dois dias seguidos.
"A gente fala com a Eletrobrás. Aí eles dizem que é um fio partido. Quando a gente olha, Santana tem uma parte com luz e outra sem. Quando a gente diz isso, eles falam que a 'luz volta aos poucos'. É prejuízo em casa, não tem eletrodoméstico que aguente esse vai e volta de energia. E no comércio não é diferente", diz o morador de Santana, Luciano Barbosa.
Não é diferente na cidade de Dois Riachos, terra da jogadora de futebol Marta. "A seca nos castiga. As vacas estão morrendo, estamos tomando banho de cuia. Graças a Deus. Às vezes, falta água encanada por três dias. Para quem tem depósito, é legal. Armazenamos água. Mas, quem não tem, Deus proteja", conta a professora Zélia Rodrigues.
Na viagem pelo sertão de Alagoas, uma passagem é obrigatória pelo agreste e a zona da mata. Na cidade de Maribondo, o motorista mostra a "fazenda de um barão", um prefeito que ele prefere não citar. Um pedaço de chão que nem de longe faz lembrar o sacrifício de quem busca água no cenário sertanejo: um açude e uma casa grande. "Aqui o prefeito faz as churrascadas. Vem cada 'carrão'..."
Em outra fazenda, de "um político grande", um açude e muitos cavalos: "Aí dentro tem um haras. Coisa de quem tem muito dinheiro. Não conhece a pobreza. Nem a sede".
Trinta e três cidades de Alagoas tiveram os decretos de emergência renovados pelo governo. Há três semanas, em Salvador, a presidente Dilma Rousseff anunciou dinheiro e água aos sertanejos. "Mas, tudo está assim, seu moço", mostra um sobrevivente de uma terra que mistura vida e morte. Ele aponta para o gado que bebe os restos de uma água barrenta.

Globalização: alguns apontamentos

Caros leitores do blog, 

O post de hoje é para atender a um pedido que me chegou por e-mail, mas que não tem nome, sobre o tema globalização. Deixo no texto abaixo as minhas contribuições sobre o assunto e convido vocês a fazerem o mesmo nos comentários. 

Lembrando que vocês podem enviar suas críticas e sugestões para geografia.contemporanea@yahoo.com.br e eu atenderei o mais rápido possível. 



Globalização

O que é?

  • É a Junção dos meios de transporte com os meios de comunicação, possibilitando uma rápida circulação de mercadorias, pessoas e capital (dinheiro) pelo mundo.


Histórico

  • O primeiro movimento da globalização ocorreu no século XIV, com as grandes navegações, dado a intensa troca de mercadorias que começava a se dar na época; especialmente entre a Europa e as Índias.

  • O segundo movimento começa com a Revolução industrial, dado que a produção de mercadorias se tornaria mais intensa, bem como a circulação entre elas graças a invenção do barco a vapor.

  • O terceiro movimento é o atual, onde a troca é intensa graças a informática, a melhoria significativa dos transportes e a junção de ambos.


Causas e efeitos da Globalização


A organização do mundo em blocos econômicos.

  • Com a troca de mercadorias numa velocidade extraordinária, os países, para se defenderem no aspecto econômico, resolveram se organizar em blocos econômicos numa tentativa de resguardar sua economia da competição desleal com outros países, como por exemplo, a China que consegue vender produtos mais baratos graças a sua mão de obra abundante.

  • Através de acordos feitos nesses blocos, como tarifa alfandegária comum (o que significa que os países trocarão mercadorias entre si com as taxas iguais entre todos) Os países conseguiram, em parte, proteger suas economias.


Aumento do “abismo social"

  • Com a expansão e intensidade das trocas comerciais a possibilidade de expandir fortunas tornou-se ainda maior, visto que a possibilidade de negociar com os mais diversos mercados tornaram - se mais palpáveis. Por esse lado, os que eram mais ricos se tornam mais ricos e os que eram pobres se tornaram mais pobres ainda; principalmente por conta de uma nova onda que surgira: a terceirização.


Terceirização

  • Fenômeno que ganhou força durante a atual era da globalização consiste na contratação de empresas por outras empresas para a realização de certas tarefas, como limpeza, por exemplo.

  • A empresa que contrata a terceirização lucra, pois, voltando ao caso da limpeza, ela não arca com os custos de material de limpeza, contratação de funcionários e nem responde por reivindicações da categoria.

  • Já a empresa contratada lucra, pois oferece salários baixos aos seus contratados, que raramente tem carteira assinada. O que lhes possibilita oferecer salários baixos é a alta quantidade de mão - de - obra que, por sua vez, se submete a esse tipo de serviço para não ficar desempregada.


Homogeneização X Diferenciação

  • Quando a onda da globalização tomou vulto, isso na metade de século passado, acreditava-se que o mundo seria homogeneizado por uma cultura dominante (sim, é a norte - americana) e que todos teriam os mesmos gostos, nos vestiríamos e nos comportaríamos da mesma forma... Como se fôssemos fabricados em série, como carros. Porém, a globalização encontrou resistências a essa tendência homogeneizadora... Nem todos entraram nessa onda homogeneizante e ofereceram suas resistências a ela. Num primeiro momento o capitalismo até que forçou uma barra para se impor, mas, depois percebeu que também conseguiria entrar nesses nichos de mercado, gerando assim a glocalização.


" Glocalização"

  • Criada essa resistência a onda homogeneizante do capitalismo, o mesmo se viu diante de uma situação em que teve que se adaptar aqueles que não sucumbiram a sua tentativa de uniformizar o mundo.

  • Exemplos dessa adaptação por parte do capitalismo são a implantação do Mc Donald's na Índia que faz as carnes dos seus hambúrgueres com carneiro ao invés de boi (tem gente que acha que é minhoca, mas isso é outra historia) , visto que a vaca é sagrada neste pais; ou a Coca - Cola que, quando patrocinou o Grêmio , teve que mudar suas cores para preto e azul ,já que as cores originais da marca -  Vermelho e branco - são as cores do principal rival, o Internacional .

  • Essa resistência a essa onda de homogeneizante do capitalismo, é caracterizado como glocalização


"Planeta pequeno, mundo gigante"

  • Essa expressão nos leva a considerar que o planeta, nos referindo ao aspecto físico da Terra, praticamente encolheu. Nos dizeres de David Harvey, houve uma compressão do espaço-tempo que encurtou as distâncias, principalmente com invenções como o avião e a Internet.

  • Porém, mesmo que o acesso as informações e os deslocamentos sejam rápidos, a quantidade de informações e os deslocamentos sejam rápidos, a quantidade de  informações é enorme. E é ai que o mundo se torna gigante. Por exemplo, você consegue acessar facilmente toda a história da China, mas consegue estudar ela em sua totalidade, sabendo que estamos falando de 5 mil  anos de civilização? É por isso que o mundo então se torna gigante...

sábado, 1 de dezembro de 2012

Governo a serviço de quem mesmo ?

Já venho dizendo isso há algum tempo mas, volto a repetir: essa crise nos mostra que o Estado, desde a implantação do neoliberalismo (ou desde sempre?), sempre atendeu o interesse das grandes empresas e não da população. 

Prova disso é a correria desesperada dos governos para tentar salvar os bancos desde a crise da bolha especulativa imobiliária que começou nos EUA em 2008 e se espalhou pelo mundo todo. 

Na Europa, a Grécia foi o símbolo de como essa crise bateu forte em alguns países (embora, o problema da Grécia vem desde o estouro do seu orçamento para receber as olimpíadas), mas, outros países também sofreram os efeitos dessa crise, como a Espanha. 

O país agora recorre junto a União Européia para conseguir uma ajuda bilionária para investir em seus bancos, muitos deles o governo acabou por comprar com a crise pois faliram quase que instantaneamente com a mesma.

Diante disso, não duvido que o título deste post vire uma indagação não só minha, como sua também. Embora, caro leitor, nós infelizmente sabemos a resposta da mesma. 

A Espanha vai pedir 37 bilhões de euros aos fundos de resgate da União Europeia para sanar os bancos estatizados do país (Bankia, Novacaixagalicia, Caixa de Catalunya e Banco de Valencia), afirmou nesta segunda-feira (26/11) o ministro da Economia espanhol, Luis De Guindos.

"Para os bancos estatizados serão cerca de 37 bilhões de euros e 40 bilhões no total, cerca de 3,5% do PIB [Produto Interno Bruto]", disse Guindos durante reunião de ministros das Finanças do bloco, em Bruxelas.

Esse montante leva em conta a injeção de liquidez necessária ao programa de saneamento (bad bank) criado pelo governo para "limpar" o sistema financeiro espanhol de ativos tóxicos herdados com a explosão da bolha imobiliária na Espanha. Também abrange uma parcela de capital que precisará ser investida em bancos não nacionalizados, mas que requerem um fortalecimento de seus fundos próprios.

O ministro espanhol lembrou que a Comissão Europeia aprovará o plano de reestruturação dos bancos espanhóis, passo anterior ao desembolso de ajuda financeira previsto para dezembro. O governo do primeiro-ministro Mariano Rajoy recebeu, em junho, sinal verde do Banco Central Europeu e da União Europeia para utilizar até 100 bilhões de euros de recursos dos fundos de resgate europeus, de forma a socorrer os bancos à beira da falência.

Catalunha no caminho de sua independência

Apesar de um leve baque nas últimas eleições parece que o partido que conduz o processo de separação da Catalunha da Espanha está tomando o caminho para chegar no seu objetivo final. 

Região mais rica da Espanha, a Catalunha vem há anos tentado conseguir sua independência do país. Nos últimos anos o pedido vem se tornando cada vez mais forte e a pressão por um plebiscito  junto à população por essa questão está cada vez mais perto. 

Mesmo que o partido que esteja a frente do processo tenha perdido alguns votos nas últimas eleições, muito por conta da sua postura, aliás da esquerda como um todo não só lá como aqui também... Eu explico... 

De forma bem simplista, pense na seguinte situação:

Várias pessoas querem laranja para comer. Porém uma quer fatiada, outra quer em gomos, outra quer para fazer suco e nenhuma delas abre mão de ter a laranja a não ser de sua forma. Mas, o que nenhum deles enxerga, é que todos querem a mesma coisa: a laranja. Todavia, se todos se unissem, todos teriam laranja. 

Por analogia pense nas pessoas como os partidos de esquerda e na laranja como o poder ou cargo político pelo qual disputam... 

Fato é que mesmo com uma ligeira derrota, exatamente por que o jeito como o partido quer obter a independência da Catalunha não agradou a população, o partido se mantém firme em seu propósito. 

Entretanto, acredito ser difícil a Catalunha se tornar independente por conta da Espanha. Se com a crise atual a Espanha já anda cambaleante e muito mal das pernas, imagine o que acontecerá se ela perder exatamente a região mais rica ?





Com a maior participação eleitoral (56,3%) desde as eleições de 1988 e queda nas abstenções, a Catalunha escolheu no domingo (25/11) seu novo parlamento com os olhos voltados para o referendo de independência prometido pelo atual presidente do governo autônomo local, Artur Mas, que buscava manter seu cargo e a maioria de sua coalizão conservadora CiU (Convergència i Unió).


Resultados divulgados, múltiplas leituras podem ser feitas, mas de concreto observa-se uma queda acentuada da coalizão conservadora de Mas (de 62 cadeiras caíram para 50), um crescimento significativo da ERC (Esquerra Republicana de Catalunya, nacionalistas de esquerda que subiram de 10 para 21 cadeiras), uma queda considerável do eterno segundo partido da Catalunha, o PSC (braço local do PSOE que caiu de 28 para 20 cadeiras), um leve crescimento do PP (de 18 para 19)  e a chegada das CUP (Candidatures d'Unitat Popular, nacionalistas comunistas que conseguiram 3 cadeiras) no parlamento local, além do crescimento do partido Ciutadans, fortemente antinacionalistas (que foram de 3 para 9 cadeiras).


Os Ecosocialistas da ICV-EUiA (Iniciativaper Catalunya Verds - Esquerra Unida i Alternativa) aumentaram um pouco sua presença no parlamento e são, em geral, parceiros em um processo soberanista (subiram de 10 para 13 cadeiras). Estes se aproximam mais de posições nacionalistas catalãs, apesar de manterem um diálogo com outros setores não-soberanistas de esquerda e terem sido parceiros do PSC e ERC no governo de 2006.

Uns ganharam, outros perderam, resta saber se o ímpeto nacionalista de Artur Mas se manterá o mesmo e quem será convidado para formar parte da coalizão que precisará compor para se manter no poder. As apostas dão como certa uma coalizão com o ERC, que apesar de discordâncias de ordem econômica e social, é o único partido nacionalista com força suficiente para manter a rota traçada por Mas no caminho da independência.

E as primeiras declarações de Mas, de que "apesar dos resultados, o processo da Catalunha segue sem recuos, mas com a consciência clara de que a maioria foi ampliada "sinalizam a manutenção da rota escolhida em 2010. Em outras palavras, será preciso dialogar enquanto coalizão para se alcançar a independência, mas que a maioria nacionalista cresceu e que em até 4 anos haverá uma consulta.

A CiU venceu, mas sofreu uma queda considerável mesmo tendo perdido apenas pouco mais de 120 mil votos e, ao menos de acordo com os primeiros discursos, não alterará a rota soberanista.



Para muitos analistas da imprensa espanhola, os resultados demonstrariam o descontentamento da população catalã com a rota para a independência desenhada pela CiU, porém estas análises desprezam o fato do ERC ter dobrado sua votação anterior e de ter, pela primeira vez, aparecido como segunda força na região, com uma cadeira na frente do PSC. Tal ideia também despreza a entrada da CUP no parlamento e que, somados, os nacionalistas mantêm a maioria e a hegemonia na Catalunha com larga vantagem.


Nas eleições de 2006, os nacionalistas CiU e ERC somaram 69 cadeiras (81 somando ICV-EUiA), enquanto os nacionalistas espanhóis PSC, PP e Ciutadans somaram 54 cadeiras. Nas eleições de 2010, os nacionalistas, somando CiU, ERC, ICV-EUiA e SI (Solidaritat Catalana, pela primeira vez no parlamento), conseguiram 86 cadeiras no parlamento, bem acima das 81 anteriores. Nestas eleições os nacionalistas ampliaram sua força, chegando às 87 cadeiras (CiU, ERC, ICV-EUiA e CUP).

A leitura dos resultados se mostra difícil, pois de certa maneira os partidos mais ferrenhamente antinacionalistas (que, por outro lado, se mostram nacionalistas espanhóis), como PP e PSC, não tiveram um crescimento significativo.

Apesar da queda de CiU e PSC e do crescimento de Ciutadans e ERC, o número geral de cadeiras divididas entre nacionalistas catalães e nacionalistas espanhóis não sofreu grandes alterações, podendo esta eleição ser considerada muito mais um ajuste do que uma revolução no panorama eleitoral.

A tendência que se vê desde 2006 é uma queda na presença de nacionalistas espanhóis no parlamento, ao passo que vem oscilando e talvez tenha chegado ao seu teto a presença nacionalista catalã.

A abstenção e os votos nulos, por sua vez, sofreram grande queda, beirando os 32% frente aos mais de 40% de 2010, uma eleição com recorde de abstenção.

Em termos de votos, é curioso notar que os nacionalistas catalães aumentaram em quase 100 mil o total de votos, se somados com a ICV-EUia este número sobe para perto de 200 mil. Já os nacionalistas espanhóis cresceram cerca de 130 mil votos. A diferença entre nacionalistas catalães e espanhóis, contando com a ICV-EUiA, beira os 750 mil votos, o que, para um colégio eleitoral de pouco mais de 3 milhões de pessoas, é significativo. E é preciso ainda lembrar que há uma parcela significativa de eleitores do PSC e de membros do partido que não são totalmente avessos à soberania, ainda que apostem no federalismo.

Algo claro nos resultados de domingo é que tanto CiU quanto ERC voltaram ao patamar eleitoral de 2006, quando conseguiram, respectivamente, 48 e 21 cadeiras - é bom lembrar que em 2010 o ERC sofreu uma queda acentuada, ainda que não imprevisível, devido à péssima avaliação de seu governo em coalizão com o PSE e ICV-EUiA. O PP vem crescendo pouco a pouco desde então ao passo que a ICV-EUiA vem se mantendo estável e o crescimento do Ciutadans é visível, com o triplo de cadeiras de 2006 para cá.  Fato notável, ainda, foi a queda do PSC, mas que vem se mostrando tendência.

As eleições de 2010 foram atípicas, convocadas em meio a uma crise de governo, formado por partidos de esquerda que não concordavam com um referendo soberanista e com questões de maior autonomia regional frente à Espanha.

Frente às maiores manifestações da história da Catalunha, no dia 11 de setembro de 2012, por motivo da Diada (dia em que se comemora ou relembra a conquista espanhola da região em 1714), com milhões de catalães inundando as ruas de Barcelona, e com todas as pesquisas de opinião garantindo uma ampla maioria ao "sim" em um possível referendo pela independência da região, os resultados se mostram, talvez, condizentes com o lento crescimento do nacionalismo catalão na região que não pertence nem à CiUe nem ao ERC.

No fim, os resultados de 2012 se mostram como uma forma de ajuste em relação às eleições de 2006 frente à uma eleição conturbada e atípica em 2010 com a população fazendo o ERC pagar pelos seus erros e dos seus parceiros no governo anterior.

O "plano soberanista" de Artur Mas não fracassou, como pregou o El País em manchete pós-eleitoral ainda antes dos 100% dos votos escrutados, mas apenas terá de sofrer alterações para acompanhar as posições dos outros partidos nacionalistas catalães que terão de ser parceiros no processo.

O processo para a formação do próximo governo regional será complicado, pois apesar da proximidade de posições em torno da independência, ERC, CUP e ICV-EUiA se opõem às reformas econômicas e posições sem relação à questões sociais dos conservadores da CiU, mas o mais provável é que algum tipo de acordo seja alcançado ao menos nas questões mais importantes e caras a ambos os grupos. Uma coalizão tensa, sem dúvida, mas necessária para que se caminhe para a independência.


Extraído de operamundi.com.br