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segunda-feira, 30 de setembro de 2013

5 anos após a crise

Cinco anos se passaram desde a crise da bolha de 2008 e, de lá pra cá, não muita coisa mudou... 

O efeito dominó que começou pela inadimplência de empréstimos feitos sem muito critério por banco americanos associado ao aquecimento baseado em mera especulação do mercado imobiliário levou o planeta a enfrentar uma crise que, muitos dizem, foi igual ou pior do que a de 29... 

Várias são as postagens que faço aqui comentando sobre este tema e sempre me reportando a uma das áreas mais atingidas por essa crise: o continente europeu. Não que a terra do Tio San não sentiu seus efeitos, mas volta e meia o noticiário sempre aponta pro velho continente... 

Costuma-se usar a Grécia como um dos países símbolos, mas o problema dos gregos começou em 2004, com as olimpíadas, no qual gastou-se muito e não se obteve o retorno esperado... De lá pra cá a bola de neve foi formada... 

Espanha, Portugal e Itália também aparecem nesse circuito, mas isso é agravado também por suas frágeis economias que foram impactadas de forma mais intensa do que os demais... 

De pé mesmo só ficou a Alemanha. A melhor economia do velho continente tenta liderar um "levante" junto aos outros países para que não se veja obrigada a puxar o barco sozinha ou até mesmo naufragar no mesmo barco que o resto... 

O problema é que o modo como a Alemanha quer conduzir o barco não vem agradando a população dos países onde essas medidas estão em vias de serem implementadas ou até mesmo estão sendo implementadas de fato... As famosas medidas de austeridade - reduzir os gastos públicos a qualquer custo praticamente - viraram motivo de muitos protestos pelo velho continente; protestos esses que se pautam razão da população em lutar por serviços de qualidade que foram herança do "Estado do Bem-Estar Social", mas que agora estão se esvaindo por conta dessas medidas e se tornando cada vez mais sucateados pelos governos que se veem praticamente obrigados a seguirem essas medidas para receberem a tão necessária ajuda tanto do FMI quanto do BCE que, é claro, só vem se a cartilha de ambos for seguida à risca... 

Fato é que mesmo depois de cinco anos a crise ainda ronda o planeta, mesmo que seja em maior ou menor escala. Diante disso consequências ainda estão por vir e outras se mostram cada vez mais... 

Abre parêntese (recomendo a você assistir ao filme "Grande demais para quebrar" que conta como ocorreu a crise de 2008 e como ela afetou o mundo inteiro) fecha parêntese. 

Surto. s.m.
Ambição, elevação; voo.
Manifestação súbita de alguma coisa.
Crise psicótica.
Há oitenta anos, Keynes escrevia “especuladores podem não causar danos como bolhas em um cenário estável de empreendimentos. Mas, a situação é séria quando o empreendimento se torna a bolha em um turbilhão de especulação. Quando o desenvolvimento do capital de um país torna-se o subproduto das atividades de um cassino, é provável que o trabalho seja mal feito” (1964, p. 159). Talvez fosse melhor, em termos estéticos ou palatáveis, ter deixado a citação nos moldes convencionais de uma epígrafe, mas, já outra no lugar. Ademais, tal não daria a ênfase necessária às palavras de Keynes que são mais válidas agora do que nos anos 1930, haja vista o surto de inovações financeiras atual.
O sistema financeiro, como sua própria qualificação aduz, é uma estrutura sustentada na fiança coletiva, isto é, na confiança. Sua lógica é a criação de recursos monetários do nada que permitam a ampliação da riqueza ao longo do tempo. No futuro, aquilo que era antes recurso fictício torna-se produto concreto e, assim, dá-se prosseguimento à expansão da riqueza do sistema capitalista. Porém, ao passo em que viabiliza a expansão da riqueza, quando a psicologia do mercado financeiro surta e descola-se da realidade, os impactos sobre o lado real da economia são notáveis. Há cinco anos, nos EUA, eclodiam-se os sentidos financeiro e psicológico possíveis do substantivo surto.
Antes da manifestação súbita de alguma coisa, os EUA acumulavam bons indicadores econômicos: em média, entre janeiro de 2001 e agosto de 2008, a produção industrial cresceu 1,3% ao mês e a taxa de desemprego situou-se em 5,2% mensais. Por sua vez, a expansão anual média do produto alcançou 2,52% no período 2001-2007. Em suma, tinha-se um quadro de dinâmica econômica favorável para a manutenção dos níveis de emprego e de renda no país mais rico do mundo. No âmbito financeiro, entre janeiro de 2003 e outubro de 2007, usando como proxy o comportamento dos Índices Dow Jones e Nasdaq, assistiu-se à valorização de aproximadamente 60% dos papéis, ou seja, um surto – elevação, voo – financeiro bem superior ao crescimento da riqueza real em período semelhante. Em suma, uma bolha financeira foi surtada, acompanhada por bons números do lado real da economia, mas deles descolados.
As séries de apostas dos agentes, em inovações financeiras amplamente defectíveis, tornaram-se uma crise psicótica em setembro de 2008. A onda de inadimplência iniciada no subprime espalhou-se pelo sistema financeiro, implicando toda uma cadeia de descumprimento de contratos de dívida extremamente compartidos entre os agentes e financeiramente alavancados.
Dois resultados imediatos do surto psicológico nos mercados financeiros sobre o lado real da economia foram: (i) a escassez de liquidez para financiamentos e (ii) o surto de descrença com relação ao futuro. Assim, o surto sistematizou-se: eis a crise. Os dados americanos são bastante ilustrativos: decrescimento do PIB em 2008 e 2009, – 0,35% e – 3,20%, respectivamente; desemprego elevado a 10% em fins de 2009 enquanto que a retração da produção industrial no referido ano foi da ordem de 10,1% ao mês, em média.
Do surto financeiro, fez-se o surto psicológico e a crise econômica. Para alguns, apreciação dos papéis e ganho em juros foram o resultado. Contudo, o prejuízo público foi incomensuravelmente maior. Enfim, surtos e o débâcle são regras do sistema financeiro tal qual o entusiasmo do ébrio e o comedimento do sóbrio. Sem regulamentações prudenciais que limitem as estratégias competitivas das instituições financeiras e circunscrevam os mercados do sistema financeiro a contornos diferentes aos de um cassino, a simbiose entre os lados financeiro e real será persistentemente negativa. E, não é de hoje que se diz isso.

Um possível caminho para a crise...

Este ano protestos sacudiram as ruas de cidades metropolitanas pelo Brasil inteiro, clamando por mudanças urgentes em nosso país. 

Mas, com o tempo - e a Copa das Confederações - os protestos ficaram um tanto quanto esvaziados e as mudanças até avançaram, embora outras ficaram pelo meio do caminho. 

O esforço de quem foi às ruas para protestar - não vandalizar, é bom que se diga - deve sempre ser exaltado, ele não foi em vão. Reivindicações foram ouvidas e outras postergadas, mas o recado foi dado: "não são só 20 centavos" (nunca foram)...

A corrupção e a impunidade (infelizmente históricas em nosso país) foram os principais alvos, além, é claro de uma busca por um país mais igual. Além disso o melhor uso do dinheiro público também foi uma das reivindicações dos protestantes...  Nessa pauta, me chamou a atenção o artigo abaixo... 

Como uma das saídas para essa crise que vivemos onde falta tudo e não temos quase nada, pelo menos em termos de eficiência em serviço público, poderíamos recorrer as dívidas ativas de cada esfera de governo (Federal, Estadual e Municipal) que se trada de dívidas tributárias (impostos) que empresas possuem com o governo e que "ficam por aí"... 

Ficam por aí porque é mais fácil para essas empresas já que as esferas vão demorar anos para executar as dívidas, que serão ainda mais postergadas através dos advogados das empresas que farão o possível para retardar essa execução, que, como se já não fosse pouco esse "imbromation" ainda vem acompanhado de amortizações nas dívidas e assim todas essas táticas acabam virando praticamente um incentivo a sonegação... 

Se nos remetermos as quantias, esmiuçadas na reportagem abaixo, veremos que dá para fazer sim obras significativas país afora... Contudo, a questão é: mesmo a execução da dívida sendo feita, a tão questionada (e com razão) vontade política deixará que ela seja utilizada da  maneira correta?

Acho que, infelizmente, já sabemos a resposta... (Aliás, é por isso mesmo que devemos continuar reivindicando e lutando por aquilo que queremos...)



As manifestações ocorridas pelo Brasil, que atingiram das grandes capitais até pequenas cidades do interior, foram iniciadas pelo Movimento Passe Livre (MPL) em São Paulo e mobilizaram cerca de 2 milhões de pessoas, principalmente jovens.Elas abriram uma enorme oportunidade para avançar nas transformações que nosso país precisa. É importante destacar que essas lutas já produziram resultados significativos, entreoutros, a diminuição das passagens do transporte público nas mais diferentes cidades, o cancelamento do aumento de pedágios em São Paulo, o recuo do governador do Rio de Janeiro em demolir vários equipamentos públicos no entorno do Maracanã.

Toda essa luta reflete o enorme descontentamento de amplas parcelas da população com a atual realidade. Apesar de termos o sétimo PIB do planeta ocupamos a 85ª posição no IDH. Na educação, os alunos brasileiros se classificam entre os últimos nos exames da OCDE (Programme for International Student Assessment – Pisa), a saúde está em crise há anos, o transporte coletivo massacra milhões de pessoas diariamente e, a segurança pública, com o homicídio de 50 mil pessoas por ano, deixa qualquer cidadão completamente inseguro. Nas periferias, principalmente das regiões metropolitanas, faltam praças, centros de esporte, lazer e cultura. Quanto mais distante do centro das cidades, maior a ausência de equipamentos sociais. A população em grande parte está abandonada, sem perspectivas para o futuro. Esse contexto tem como pano de fundo a corrupção e as mordomias presentes nos mais diversos níveis de governo e escalões da República. O povo não aguenta mais esse estado de coisas!

A única forma de resolver parcela expressiva desses problemas é o investimento de dezenas de bilhões de reais, por longos anos seguidos, nas várias áreas.

O jornal Valor Econômico(27 jun. 2013) precisou esse número em manchete: “Demanda das ruas já tem custo de R$ 115 bi por ano”. O que é necessário ser investigado é se existem tais valores.
Entre as várias formas existentes para se conseguir recursos uma delas é fazer uma profunda reforma tributária aumentando a tributação direta sobre a renda, a propriedade, a herança e a riqueza. Outra é cobrar a dívida ativa
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Cobrar a dívida ativa

Uma importante fonte de recursos é a cobrança da dívida ativa. A dívida ativa da União é composta por todos os créditos desse ente, sejam eles de natureza tributária ou não tributária, regularmente inscritos na Procuradoria Geral da Fazenda Nacional (PGFN), depois de esgotado o prazo fixado para pagamento, pela lei ou por decisão proferida em processo regular. Essa dívida, portanto, está relacionada aos tributos ou não, que deixam de ser pagos pelas empresas e cidadãos à União, como também aos estados e aos municípios. Alguns exemplos: na área federal são dívidas relacionadas ao IR, IPI, INSS, Cofins; na estadual ao ICMS e IPVA; e na municipal ao IPTU, ISS, ITBI, entre outros.

O total da dívida que o governo federal tem direito a receber era, em 31 de dezembro de 2012, segundo o balanço da PGFN, de R$ 1,14 trilhão. Os principais devedores são grandes empresas que muitas vezes sonegam o pagamento de tributos propositalmente. Isso ocorre porque, na relação custo- benefício, sabem que essa prática será vantajosa.A cobrança vai levar anos para ser executada, seus advogados vão se utilizar de todo aparato jurídico que postergará o pagamento por anos. E, quando for efetuar o pagamento, se utilizam de programas que permitem parcelar a dívida por longo período, com parte de seu valor sendo abatido.

Matéria do jornal Folha de S.Paulo(5 ago. 2013) dá exemplos do que estamos discorrendo. Ela relaciona empresas que devem R$ 1,5 bilhão ao fisco e, ao mesmo tempo, doaram milhões de reais para os mais diversos candidatos à Presidência nas últimas eleições. Mencionam a Bombril, que deve R$ 779,7 milhões; a Copersucar, R$ 147,3 milhões; a Infan, R$ 99,3 milhões; a JBS S/A, R$ 66,0 milhões; a Bracol Holding, R$ 61,7 milhões; a Sana Bárbara Engenharia, R$ 35,9 milhões; a Vega Engenharia Ambiental, R$ 31,0 milhões; a Usina Naviraí, R$ 26,4 milhões; a Iesa, R$ 26,3 milhões; e a Usina Barra, R$ 24,3 milhões. 

Como vemos, não são valores pequenos que muitas empresas devem no Brasil! Segundo informação contida no site da PGFN, qualquer pessoa pode consultar a Lista de Devedores porque o acesso a esse serviço independe de senha, basta saber o CPF/CNPJ ou o nome do devedor.

As empresas devedoras se utilizam do Refis, que é um programa de recuperação fiscal que consiste em um regime opcional de parcelamento de débitos fiscais proposto a pessoas jurídicas com dívidas perante a Secretaria da Receita Federal (SRF), a PGFN e o Instituto Nacional de Seguro Social (INSS). Quando a empresa for pagar, o prazo é de até sessenta meses com juros TJLP.

Em relação ao crédito rural, se a dívida for liquidada, há uma tabela com várias faixas de descontos. Para os devedores de mais de R$ 200 mil, têm um abatimento de 38% somado a outro fixo de R$ 19,2 mil. Por exemplo, quem deve R$ 1 milhão terá R$ 380 mil somados a R$ 19,2 mil, o que dará um total de R$ 399,2 mil de desconto.

Essa prática absurda de sonegação, contrária aos interesses da nação, traz enormes prejuízos para a sociedade porque bilhões de reais que deveriam ser investidos em educação, saúde, infraestrutura deixam de acontecer. Além disso, é uma enorme injustiça para com os cidadãos e empresas, que cumprem em dia suas obrigações com o Estado.

Essa situação se repete nos estados e municípios. Em 31 de dezembro de 2012, o estado de São Paulo tinha uma dívida ativa de R$ 226 bilhões; o do Rio de Janeiro, R$ 50,6 bilhões; e o do Rio Grande do Sul, R$ 30,2 bilhões. Em relação a São Paulo, o próprio governo considera que 50% dessa dívida é irrecuperável. Em 2012, o governo conseguiu cobrar somente R$ 1,16 bilhão, cerca de 0,5% do total da dívida. Segundo o procurador Rafael Demarchi Costa, “o baixíssimo índice de recuperação traz em si alta possibilidade de risco moral ao não pagamento voluntário por parte dos devedores”.

Em relação aos municípios, veja no quadro 1 todas as capitais dos estados brasileiros que tinham dívida ativa registradas.

O total das dívidas ativas das capitais dos estados brasileiros, como é possível observar, somava R$ 129,9 bilhões.

No Nordeste, a de Salvador, com R$ 12,4 bilhões de dívida ativa que representa 323% da receita orçamentária de 2012, a de Recife, com R$ 5,5 bilhões, e a de Natal, com R$ 1,5 bilhão, ultrapassam mais de 100% da receita orçamentária. No Sudeste, São Paulo, com R$ 55,3 bilhões, e Rio de Janeiro, com R$ 35,7, bilhões também superam os 100% e são as maiores em valores absolutos. No Norte, Manaus, com R$ 3,1 bilhões, também está acima desse percentual. São Luís não apresentou os dados.

Além da União, estados e capitais, os municípios brasileiros também têm esse tipo de dívida a receber. Para ilustrar essa situação, apontamos os municípios da região do chamado ABC paulista, que têm uma dívida ativa de R$ 5,1 bilhões, sendo que a de São Bernardo era, em 2012, de R$ 2,4 bilhões e a de Santo André, de R$ 1,2 bilhão. O município de Londrina, no Paraná, tem uma dívida ativa de R$ 1 bilhão, sendo que quinhentos devedores devem R$ 380 milhões, o que dá em média R$ 760 mil para cada um. Esse último dado demonstra que provavelmente não estamos tratando de atrasos de pagamento de IPTU residenciais...

Somando a dívida ativa da União, dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul e das capitais chega-se à cifra de R$ 1,577 trilhão. Se a esse valor for somado aos demais estados da federação e municípios, a dívida chegará a valores bem mais elevados.
Fazendo-se uma simulação sobre um programa da cobrança da dívida ativa, para que seus valores sejam recuperados em dez anos, apenas o que o governo da União tem direito a receber representaria R$ 114 bilhões de recursos anuais aos cofres federais. No estado de São Paulo, o valor seria de R$ 22,6 bilhões; no Rio de Janeiro, R$ 5 bilhões; e no Rio Grande do Sul, R$ 3 bilhões.
Nas capitais, podemos apontar Salvador, R$ 1,2 bilhões; Recife, R$ 550 milhões; Rio de Janeiro, R$ 3,6 bilhões; São Paulo, R$ 5,5 bilhões; Manaus, R$ 313 milhões; Belo Horizonte, R$ 560 milhões; e Porto Alegre, R$ 157 milhões ao ano.

É importante lembrar que o Brasil tem 5.560 municípios e grande parte deles têm dívidas a receber. Isso significa que se os tributos fossem pagos em dia poderiam ser feitos os investimentos sociais que falamos ao início e que beneficiariam toda a população.

Para efeito comparativo, levando em consideração somente o que o governo federal teria a receber (R$ 114 bilhões anuais) daria para construir na cidade de São Paulo mais de 375 quilômetros de metrô (a R$ 300 milhões o km) ou 1,14 milhão de casas populares (R$ 100 mil a unidade, incluindo a desapropriação do terreno) ou 57,5 mil creches (R$ 2 milhões cada uma). Em relação a obras de infraestrutura, daria para construir 27,5 mil quilômetros de ferrovias como a Nova Transnordestina (a R$ 4 milhões o km), ou ainda 7 usinas hidrelétricas como a de Santo Antonio no Rio Madeira (R$ 16 bilhões cada). É possível e importante fazer esse tipo de comparação em relação a cada estado e cidade da federação adequada aos preços dos investimentos em cada região. Com certeza, a cobrança da dívida ativa resolveria a maioria dos problemas brasileiros.

Em nosso entender, a cobrança da dívida ativadeveria ser abordada e fazer parte da agenda do Movimento Passe Livre, dos milhares de cidadãos e dos diversos movimentos sociais que estão participando das manifestações no Brasil. Exigir a ampla divulgação dos devedores e respectivas dívidas, e que os governos da União, estados e municípios façam um plano para recebê-las no período mais curto possível.


Extraído de diplomatique.org.br





segunda-feira, 23 de setembro de 2013

E Dilma disse não...

Já era mais do que esperado que Dilma cancelasse sua visita ao Tio San por conta dos episódios de espionagem envolvendo ambos os países... 

Sob o auto título de "polícia do mundo" não é de hoje, muito menos acabará aqui, esse ímpeto em fiscalizar a postura alheia que os Estados Unidos possuem. 

O maior exemplo desta postura tem sido o continente americano, mais especificamente a América Latina... 

Bloqueio econômico a Cuba, Invasão de Granada, Invasão ao Panamá, Guantánamo, financiamento de ditaduras, onde nós - e o Chile - fomos um bom exemplo disso...

Isso sem contar as intervenções pelo mundo a fora como Hiroshima e Nagasaki, Vietnã, Afeganistão, Iraque...  

Fato é que a intervenção mais recente foi o caso de espionagem descoberto onde políticos brasileiros, inclusive a nossa presidente, foram vítimas. 

O episódio causou desconforto entre os dois governos e Dilma cancelou a visita que faria, em um sinal de que nossa diplomacia vem sendo um exemplo há anos, embora a mesma não pode ser confundida com omissão... 

Desde os tempos de Lula, o Brasil vem tendo uma postura diplomática elogiável em se tratando de relações internacionais, mediando até tensões geopolíticas internacionais. 

Mais uma vez nos vemos nesta situação onde o Tio San insiste em nos tratar como mais um país em seu quintal, algo que deixamos de ser, em certa medida, faz tempo...

De olho nesta situação, Dilma já vem pensando em como se proteger desses ataques como a criação de um sistema de e-mails próprio e o "isolamento" da internet brasileira. Embora as medidas tenham suas críticas Dilma parece querer resolver este mal-estar entre as duas nações com mais um banho de diplomacia no Tio San.  

Com isso mostramos uma resposta, a meu ver, bem digna e altamente diplomática neste caso (praticamente um tapa de luva) que pode ou não surtir seus efeitos... Fato é que temos sim a capacidade de mostrarmos que não somos mais o quintal norte-americano. Não só o Brasil como outros países latino americanos também... 

Aliás isso já foi tão bem feito com a ALCA na década passada, pelos países da América do Sul que repetir a dose não seria nada ruim.... 

Por falar nisso... O quão decepcionante está sendo esse mandato do Obama, não?

A prepotência é própria dos impérios, desfaçatez e hipocrisia também. Se me ocorrem os Estados Unidos, me vêm à mente os pais fundadores e sua Constituição pioneira, Lincoln, Roosevelt, Martin Luther King. E logo sobrevêm invasões e guerras, destruição e morte em nome dos interesses imperiais. A Doutrina Monroe e a inquisição macarthista. Hiroshima e Nagasaki. O ataque à Baía dos Porcos, Granada, Panamá, os golpes latino-americanos, em primeiro lugar o nosso, de 1964. A CIA, a DEA. Abu Ghraib e Guantánamo. O diabo a quatro, sem contar os barões ladrões e os inventores do neoliberalismo. Etc. etc.
É um nunca acabar de desmandos e violência, de opressão e crimes contra a humanidade, perpetrados à sombra da pretensa bandeira da liberdade e da democracia, como se os EUA fossem avalistas da boa conduta do mundo. Não há novidade neste comportamento, os impérios anteriores ao americano agiram da mesma maneira, e alguns duraram séculos e séculos. Não parece ser este o destino de Tio Sam, de sorte que não falta quem lhe puxe a barbicha.
O Brasil figurou, com o destaque devido à sua potencialidade e ao seu tamanho, no quintal dos Estados Unidos, ou seja, a América Latina em bloco. Assim foi desde que os ingleses deixaram de dar as cartas a cavaleiro dos séculos XIX e XX. Dispenso maiores comentários sobre a participação americana no golpe que derrubou Jango Goulart democraticamente eleito e o papel que no episódio desempenharam a CIA e o embaixador Lincoln Gordon.
Os governos pós-ditadura foram súcubos das imposições do “grande irmão do Norte”, política e economicamente, e neste campo o FMI deitou e rolou. Houve o estertor da moratória de 1987, mal administrada ao sabor das veleidades sarneysistas, e, ao cabo, a subserviência do governo de Fernando Henrique, que tanto apreciava cair nos braços de Bill Clinton e chegou a sonhar com a privatização da Petrobras. Até agora FHC, com imbatível candura, diz desconhecer qualquer gênero de espionagem americana no Brasil.

Tudo muda com o governo Lula, por meio de uma política exterior independente, conduzida pelo chanceler Celso Amorim, capaz de se evadir da rede ardilosa do chamado “Consenso de Washington” e de tomar rumos próprios. A linha é clara, altiva na medida certa e sempre elegante. Uma aula de diplomacia sutil e eficaz. Em quadrantes diversos, Lula não se alinha às conveniências americanas, quando não simplesmente as transpõe, para os habituais desconforto e repulsa da mídia nativa.

Com a chegada de Dilma Rousseff à Presidência, a política exterior passa por uma fase menos nítida, diria mesmo morna. Alcançamos os dias de hoje. Prepara-se uma viagem da presidenta a Washington, em visita oficial e solene. E então, revelada a espionagem americana nas entranhas governistas ao ponto de monitorar os movimentos da própria Dilma, o encontro com Obama é sumariamente cancelado.
Tão ofensiva à soberania brasileira foi a operação, que a mídia nativa se viu forçada a considerar devida a reação do governo. Mesmo assim, cuidou de minimizar a atitude presidencial, enquanto destacava a observação de Aécio Neves, de que aquela não passa de marketing político. Aécio faz sua lição de casa. É óbvio, no entanto, que ações de forte repercussão popular aproveitam politicamente a quem as realiza.
Resta a verdade factual, como de hábito omitida, ou desprezada, pelos editorialistas midiáticos. Quanto ao leitor atento, não se deixe enganar pela ideia de que a decisão de Dilma teve, de alguma forma, o beneplácito de Washington, a ponto de provocar a publicação de comunicados conjuntos. De fato, ambos coincidem no anúncio do cancelamento da visita, diferem, porém, na essência.
Até o mundo mineral percebe que para Tio Sam a questão precipita um revés político diante do país mais importante do quintal de um antanho superado. E tem mais, muito mais, o malogro de transação comercial pouco inferior a 10 bilhões de dólares, pela qual o Brasil adquiriria os caças da Boeing que o balconista Obama esperava vender à visitante brasileira em lugar dos Dassault negociados há tempo.
Uma personalidade brasileira voltada aos interesses do País recentemente me dizia: “Não quero entrar no mérito da qualidade dos dois caças, mas é bom que os Estados Unidos não mandem por aqui”.





"Hollande" a ladeira...

Com o perdão do ingrato trocadilho inicio este post alongando um tema que debati no post anterior sobre minha decepção com o presidente francês François Hollande... 

Eleito como uma esperança aos tempos "sombrios" - principalmente se você era imigrante - na era Sarkozy, Hollande conquistou os franceses ao mostrar uma orientação política de esquerda que o levou a presidência da França. 

Porém, com um ano de sua presidência, a realidade da França anda bem distante das promessas feitas por Hollande... 

O desemprego continua alto, a Alemanha pressiona cada vez mais para que a França aplique as medidas de austeridade, há escândalos sobre sonegação entre seus ministros e o processo de reindustrialização da França parece estagnado... 

Há de se concordar que na questão do casamento gay as coisas progrediram, mas em outros aspectos o que não estagnou, regrediu... 

Se a promessa de que a Alemanha não decidiria nada em nome da França passou batida, a "lealdade" a terra do Tio San também parece estar longe de ser quebrada... 

Se todos condenam um ataque a Síria, inclusive os comandados de Obama e Hollande, então por que apoiar tal atitude?

A curva do desemprego que seria revertida ganha ares de irreversível pois o desemprego ainda aumenta, especialmente entre os jovens, o que também parece mostrar que, além de um político decepcionante Hollande não parece ser um bom administrador.... 

Pra fechar a conta, Merkel acaba de ser reeleita pela terceira vez na Alemanha. Tal fato pode indicar um aumento das pressões sobre a adoção de medidas austeras pelos países europeus já que agora Merkel pode voltar a se concentrar mais neste ponto, por não ter que se preocupar mais com as eleições. Diante disso resta-nos saber como Hollande agirá podendo afundar de vez  o que restava de esperança dos franceses de que seu governo iria melhorar ou pode resgatar a confiança do povo que votou nele esperando verdadeiramente por novos tempos... 

Ele não quer celebrações. A popularidade do presidente da França, François Hollande, está em queda livre no primeiro aniversário da eleição dele. Em maio de 2012, os franceses optaram pela mudança – e as esperanças eram muitas. Mas depois de um ano e um recorde de desempregados, muitos se ressentem das promessas não cumpridas.
O francês Alain, que já passa dos 40 anos de idade, se diz desiludido. Segundo ele, Hollande precisava dos votos da esquerda para vencer as eleições e, apenas por isso, anunciou uma política de orientação esquerdista. Mas atualmente, afirma, teria acontecido justamente o contrário. "Muitos projetos de lei não trazem benefícios aos empregados", critica.
Uma república socialmente justa, uma ofensiva destemida contra a crise econômica e, principalmente, o fim da burlesca presidência de Nicolas Sarkozy, considerada embaraçosa por muitas pessoas – tudo isso era simbolizado pelo simpático candidato socialista. Hoje, no entanto, ele congelou na indecisão: na corda-bamba entre os pedidos por um Estado social maior, por parte da base partidária de esquerda, e as pressões por reformas, vindas da Europa.

Administrador questionado

Também sua imagem de homem idôneo foi substituída por uma de administrador impotente à frente do Estado. Hollande não conseguiu impedir que o escândalo de sonegação de impostos, que envolveu seu ministro do Orçamento, Jérôme Cahuzac, manchasse o governo.
"Hollande nos havia prometido que seria um presidente normal. Mas, não, ele não é normal. Ele está muito distante de nós", afirma a francesa Colette, que há 15 anos é membro do Partido Socialista e diz que quer convidar Hollande para uma refeição, com o intuito de lembrá-lo dos grandes desafios de sua Presidência.
"Nós já discutimos longamente sobre o casamento gay", diz Colette, "mas o que acontece com o restante?" Para ela, há questões bem mais importantes, como, por exemplo, a reindustrialização do país: "Só conseguiremos isso com um pouco de patriotismo econômico na Europa. Há muitas questões que vejo não serem tratadas por esse governo."
O número de promessas de Hollande, que muitos consideram "não cumpridas", é de fato alto. O drama dos metalúrgicos de Florange, no norte da França, cujos altos-fornos foram finalmente desligados após uma longa disputa com a empresa proprietária ArcelorMittal, comoveu cidadãos em todo o país. Conhecido em toda a Europa, o imposto sobre a riqueza de 75% se tornou, com  veto do Conselho Constitucional, o símbolo de um governo diletante.
E houve ainda a prometida "inversão da curva do desemprego" até o final de 2013, na qual nenhum eleitor acredita mais. E, principalmente, o esperado "não" às medidas de austeridade econômica defendidas pela Alemanha. Que o "não" ficou sem efeito, o ministro francês de Assuntos Europeus, Thierry Repentin, não quer reconhecer.

Pessimismo

"Nós sabemos que Paris e Berlim têm pontos de vista diferentes. Mas isso não nos impede de falar e, principalmente, de levar adiante também soluções francesas", disse Repentin à emissora RFI, mencionando o imposto sobre transações financeiras. "Não foi a Sra. Merkel que lutou por ele, também não foi Sarkozy, mas François Hollande. Essa ideia fixa de que a Alemanha decide por todos deve ter um fim."
Mas o clima de pessimismo domina a França. O jornal Le Monde dedicou duas páginas com tabelas e gráficos para demonstrar como a alma da nação e a situação do país andam mal. Nesse ponto, o cientista político Olivier Rouquan vê responsabilidade do presidente. A energia, diz o cientista político, deve fluir agora no trabalho de persuasão.
"Eu acho que foi Jacques Chirac que disse: 'na política, não é a verdade que vale, mas a percepção das pessoas'", afirma Rouquan. "O presidente precisa trabalhar, principalmente, em sua capacidade de comunicação. Ele deve relaxar um pouco a sua personalidade e empreender um diálogo mais emotivo com seu país."
No entanto, um ano após a eleição, os laços entre Hollande e seus eleitores foram desfeitos. Três quartos dos franceses avaliam negativamente a política de seu presidente. Isso nunca aconteceu antes – nem mesmo com Sarkozy, cujo vigor desenfreado é cada vez mais celebrado como modelo oposto à procrastinação de Hollande.

"Normal" demais

"Durante a campanha eleitoral, os candidatos tanto da esquerda quanto da direita diziam: 'se eu quiser ganhar, eu tenho que mobilizar o país'", opina Edwy Plenel, editor do jornal online Mediapart, que com suas revelações comprometeu muito o presidente francês. "Agora essa é justamente a cilada em que caiu nosso governo." Segundo Plenel, o governo foi eleito devido a promessas em três temas: finanças, Europa e democracia.
No mundo financeiro, ainda não há controle sobre os bancos. A Europa não foi renegociada nem reorientada. Pelo contrário: a relação de forças não pende para o lado dos franceses, diz Plenel. "Mas o problema central, para mim, é a democracia. Eleito como o 'presidente normal', François Hollande está se tornando apenas mais um presidente da Quinta República", finaliza.


quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Cinema, Pipoca e Geografia! Especial: Um outro 11 de Setembro - 40 anos do golpe militar no Chile

Um 11 de setembro que quase não é falado hoje completa 40 anos. Em 11 de setembro de 1973 Salvador Allende era vítima de um golpe militar e morria no palácio do governo chileno para "dar lugar" a Augusto Pinochet. 

O documentário abaixo, divido em 3 partes, retrata a saga do presidente Allende, de sua eleição até a sua morte, mostrando como o golpe foi orquestrado e com quais finalidades. 

Vale muito a pena assistir... 






















Invasão a Síria: algumas considerações

Extraído originalmente da Revista Diálogos do Sul.


A bola da vez na tensão geopolítica é a Síria, principalmente por conta do ataque que vitimou centenas de pessoas e onde foi utilizado uma arma química. 

Um país onde a onda da "primavera árabe" não bateu como "deveria", Bashar al-Assad ainda a frente do país é acusado por ter sido o responsável pelo ataque químico que vitimou pessoas inocentes... Só que nessa história, alguns fatos precisam ser mencionados, pois algo não está batendo... 

  • A área onde ocorreu o ataque é largamente dominada pelo governo de al-Assad; algo que não justificaria tamanha desproporcionalidade em sua ação. 
  • O mundo inteiro estava de olho nele mesmo antes desse episódio, já que ele resistiu a onda da "primavera árabe" e ainda se mantém no poder. Realizar uma prática assim daria mais motivo, como está dando, para que haja uma intervenção em seu governo, principalmente da "polícia do mundo" (como já fora auto-intitulada uma vez a nação pelo presidente acima representada). 
  • Apesar de os fatos atestarem "a favor" de al-Assad a História já provou que governos ditatoriais são capazes de fazer insanidades... 
Fato é que governo ou força rebelde (financiada pelos EUA, aproveitando a deixa), há muito ainda o que se apurar sobre esse ataque covarde para se chegar a uma decisão sobre esta questão. 

Outros pontos me chamam a atenção, mas de forma negativa nessa história (visto que para mim os pontos acima são questionamentos e me levam apenas a especular, nada além.) 

Bush filho invadiu o Iraque do então Saddam alegando a existência de armas químicas no país, algo que não ficou provado nem quando o mesmo foi levado à forca, como não está até hoje... 

Obama diz ter provas de que o governo sírio usou armas químicas no ataque ocorrido, embora nenhuma delas tenha sido apresentada, e anda sempre ventilando por aí a possibilidade de um ataque aéreo a Síria. (É... Qualquer coincidência não é mera semelhança, lamentavelmente...) É como se fosse um re-make onde vemos um presidente diferente cometer erros parecidos aos de seu antecessor (não que eu defenda o regime de al-Saad ou defendesse o de Saddam; não defendo nenhum dos dois) sendo que em sua campanha foi firmemente veiculado que isso não se repetiria  sendo posteriormente celebrado com a retirada de tropas do Afeganistão... 

Cabe aqui a ressalva de que Obama "ataca em duas frentes", ou seja, ele também está tentando a via diplomática da situação, principalmente depois da proposta russa feita esta semana. 

Me impressiona, negativamente também, a posição da França no meio desta situação, mais pelo seu presidente do que pela posição "do país em si". 

Quando foi eleito, François Hollande surgiu como uma nova esperança para os tempos um tanto sombrios que a França viveu na época do Sarkozy, principalmente se você é um imigrante na França, embora ele seja filho de um. Enfim, Hollande era uma nova esperança ao povo francês que preferiu um presidente mais a esquerda do que seu antecessor. 

Sinônimo de mudança na França, Hollande vem se mostrando um desapontamento para os franceses, principalmente depois que sem nem piscar apoiou os EUA numa possível invasão a Síria, embora agora já ande recuando dessa decisão. Contudo, isso não apaga o pesar de um presidente que vendia ares de mudança e renovação, mas que parece seguir, pelo menos em certo ponto os passos de seu antecessor... 

Curioso ver como os atuais presidentes cometem os mesmos erros de seus antecessores e que foram criticados por eles mesmos em suas campanhas... 

Mas, voltando ao ponto principal desta postagem, ainda é uma incógnita sobre de onde partiu o ataque covarde que vitimou milhares de pessoas e exatamente este ponto, torna ainda mais tensa a situação entre os países envolvidos...