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segunda-feira, 30 de setembro de 2013

5 anos após a crise

Cinco anos se passaram desde a crise da bolha de 2008 e, de lá pra cá, não muita coisa mudou... 

O efeito dominó que começou pela inadimplência de empréstimos feitos sem muito critério por banco americanos associado ao aquecimento baseado em mera especulação do mercado imobiliário levou o planeta a enfrentar uma crise que, muitos dizem, foi igual ou pior do que a de 29... 

Várias são as postagens que faço aqui comentando sobre este tema e sempre me reportando a uma das áreas mais atingidas por essa crise: o continente europeu. Não que a terra do Tio San não sentiu seus efeitos, mas volta e meia o noticiário sempre aponta pro velho continente... 

Costuma-se usar a Grécia como um dos países símbolos, mas o problema dos gregos começou em 2004, com as olimpíadas, no qual gastou-se muito e não se obteve o retorno esperado... De lá pra cá a bola de neve foi formada... 

Espanha, Portugal e Itália também aparecem nesse circuito, mas isso é agravado também por suas frágeis economias que foram impactadas de forma mais intensa do que os demais... 

De pé mesmo só ficou a Alemanha. A melhor economia do velho continente tenta liderar um "levante" junto aos outros países para que não se veja obrigada a puxar o barco sozinha ou até mesmo naufragar no mesmo barco que o resto... 

O problema é que o modo como a Alemanha quer conduzir o barco não vem agradando a população dos países onde essas medidas estão em vias de serem implementadas ou até mesmo estão sendo implementadas de fato... As famosas medidas de austeridade - reduzir os gastos públicos a qualquer custo praticamente - viraram motivo de muitos protestos pelo velho continente; protestos esses que se pautam razão da população em lutar por serviços de qualidade que foram herança do "Estado do Bem-Estar Social", mas que agora estão se esvaindo por conta dessas medidas e se tornando cada vez mais sucateados pelos governos que se veem praticamente obrigados a seguirem essas medidas para receberem a tão necessária ajuda tanto do FMI quanto do BCE que, é claro, só vem se a cartilha de ambos for seguida à risca... 

Fato é que mesmo depois de cinco anos a crise ainda ronda o planeta, mesmo que seja em maior ou menor escala. Diante disso consequências ainda estão por vir e outras se mostram cada vez mais... 

Abre parêntese (recomendo a você assistir ao filme "Grande demais para quebrar" que conta como ocorreu a crise de 2008 e como ela afetou o mundo inteiro) fecha parêntese. 

Surto. s.m.
Ambição, elevação; voo.
Manifestação súbita de alguma coisa.
Crise psicótica.
Há oitenta anos, Keynes escrevia “especuladores podem não causar danos como bolhas em um cenário estável de empreendimentos. Mas, a situação é séria quando o empreendimento se torna a bolha em um turbilhão de especulação. Quando o desenvolvimento do capital de um país torna-se o subproduto das atividades de um cassino, é provável que o trabalho seja mal feito” (1964, p. 159). Talvez fosse melhor, em termos estéticos ou palatáveis, ter deixado a citação nos moldes convencionais de uma epígrafe, mas, já outra no lugar. Ademais, tal não daria a ênfase necessária às palavras de Keynes que são mais válidas agora do que nos anos 1930, haja vista o surto de inovações financeiras atual.
O sistema financeiro, como sua própria qualificação aduz, é uma estrutura sustentada na fiança coletiva, isto é, na confiança. Sua lógica é a criação de recursos monetários do nada que permitam a ampliação da riqueza ao longo do tempo. No futuro, aquilo que era antes recurso fictício torna-se produto concreto e, assim, dá-se prosseguimento à expansão da riqueza do sistema capitalista. Porém, ao passo em que viabiliza a expansão da riqueza, quando a psicologia do mercado financeiro surta e descola-se da realidade, os impactos sobre o lado real da economia são notáveis. Há cinco anos, nos EUA, eclodiam-se os sentidos financeiro e psicológico possíveis do substantivo surto.
Antes da manifestação súbita de alguma coisa, os EUA acumulavam bons indicadores econômicos: em média, entre janeiro de 2001 e agosto de 2008, a produção industrial cresceu 1,3% ao mês e a taxa de desemprego situou-se em 5,2% mensais. Por sua vez, a expansão anual média do produto alcançou 2,52% no período 2001-2007. Em suma, tinha-se um quadro de dinâmica econômica favorável para a manutenção dos níveis de emprego e de renda no país mais rico do mundo. No âmbito financeiro, entre janeiro de 2003 e outubro de 2007, usando como proxy o comportamento dos Índices Dow Jones e Nasdaq, assistiu-se à valorização de aproximadamente 60% dos papéis, ou seja, um surto – elevação, voo – financeiro bem superior ao crescimento da riqueza real em período semelhante. Em suma, uma bolha financeira foi surtada, acompanhada por bons números do lado real da economia, mas deles descolados.
As séries de apostas dos agentes, em inovações financeiras amplamente defectíveis, tornaram-se uma crise psicótica em setembro de 2008. A onda de inadimplência iniciada no subprime espalhou-se pelo sistema financeiro, implicando toda uma cadeia de descumprimento de contratos de dívida extremamente compartidos entre os agentes e financeiramente alavancados.
Dois resultados imediatos do surto psicológico nos mercados financeiros sobre o lado real da economia foram: (i) a escassez de liquidez para financiamentos e (ii) o surto de descrença com relação ao futuro. Assim, o surto sistematizou-se: eis a crise. Os dados americanos são bastante ilustrativos: decrescimento do PIB em 2008 e 2009, – 0,35% e – 3,20%, respectivamente; desemprego elevado a 10% em fins de 2009 enquanto que a retração da produção industrial no referido ano foi da ordem de 10,1% ao mês, em média.
Do surto financeiro, fez-se o surto psicológico e a crise econômica. Para alguns, apreciação dos papéis e ganho em juros foram o resultado. Contudo, o prejuízo público foi incomensuravelmente maior. Enfim, surtos e o débâcle são regras do sistema financeiro tal qual o entusiasmo do ébrio e o comedimento do sóbrio. Sem regulamentações prudenciais que limitem as estratégias competitivas das instituições financeiras e circunscrevam os mercados do sistema financeiro a contornos diferentes aos de um cassino, a simbiose entre os lados financeiro e real será persistentemente negativa. E, não é de hoje que se diz isso.

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