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quinta-feira, 10 de março de 2011

O preço da arrogância

Todos acompanhamos a crise econômica dos EUA que se espalhou pelo mundo em 2008 e não parou de fazer vítimas desde então. A Grécia que o diga. Tempos depois, relatórios foram confeccionados para apontar as causas dessa crise e se chegou a conclusão que simplesmente "passaram o trator" nos avisos que a economia já vinha dando sobre o aumento dos empréstimos de risco e suas consequências. 
Talvez o posto de maior economia do mundo fosse suficiente para superar isso - na visão deles - e, então, os avisos foram sumariamente deixados de lado. Pura arrogância ? Diria que sim, mesmo sabendo que vão dizer que não e colocar a culpa na bolha especulativa...
Fato é que a arrogância cobrou seu preço não só nos EUA mas também no mundo todo...

Nas últimas semanas foram produzidos dois importantes documentos sobre a crise financeira deflagrada entre 2007 e 2008. No dia 27 de janeiro, a Comissão de Investigação do Congresso americano deu a público o Financial Crisis Inquiry Report e ontem, 10 de fevereiro, o Fundo Monetário Internacional liberou o trabalho do Independent Evaluation Office, órgão interno encarregado de avaliar o desempenho da instituição no aconselhamento dos países. Resumo da peça: a coisa foi mal. Entre tanta autocrítica, sobressai a lamentosa constatação da pagina 25. “A autocensura parece ter sido um fator significativo (para inúmeros equívocos), mesmo na ausência de pressões políticas.”
 Poucas matérias jornalísticas cuidaram do relatório elaborado pela Comissão do Congresso sobre a crise financeira. O Financial Times e a revista The Economist, entre outros menos votados, são honrosas exceções. Em vários artigos, seus jornalistas e colunistas apresentaram avaliações do relatório, algumas críticas e ácidas. É divertido observar que mesmo em publicações de alta qualidade como as supracitadas, as opiniões se dividem apaixonadamente entre a turma da “culpa é de Wall Street” e os que atribuem a responsabilidade aos reguladores, ou seja, ao governo intrometido.
Before Our Very Eyes, assim  é denominado o primeiro capítulo do Relatório do Congresso. Em linguagem popular: “Estava na Cara”. É difícil negar que ao longo dos anos de gestação da crise, os olhos – os da mídia incluídos – estiveram vendados pela trava que os hipócritas apontam na visão alheia (palavras de Cristo, de admirável sabedoria). Já no caso de muitos economistas eminentes, sempre procurados para opinar, os olhos estavam travados, mas as imagens e palavras do documentário de Charles Ferguson, Inside Job, sugerem que os bolsos estavam arreganhados para a grana que escorria das façanhas da haute finance.
No relatório do Congresso, o percurso em direção é ana lisado mediante a narrativa de episódios esdrúxulos e de depoimentos patéticos de banqueiros, altos executivos e autoridades. A articulação entre as falas e as narrativas permite uma avaliação do papel desempenhado pelos vários fatores e protagonistas que levaram a economia global da euforia à depressão: as inovações financeiras geradoras de instabilidade, a omissão sistemática das autoridades encarregadas de supervisionar os mercados de hipotecas e, finalmente, a farra da emissão de securities lastreadas em empréstimos imobiliários.
 O episódio Ed Parker é emblemático. Parker era chefe do Departamento de Investigação de Fraudes da Ameriquest, então líder no mercado de financiamento de hipotecas. Em 2003, um mês após sua contratação, o diligente funcionário detectou fraude nos empréstimos efetuados pela companhia. Comunicou à administração superior da empresa. Os relatórios foram ignorados. Enquanto isso, os demais departamentos queixavam-se da excessiva preocupação do chefe de investigação de fraudes com a qualidade dos empréstimos. Em 2005, Parker foi rebaixado de manager a supervisor.  Em maio de 2006 recebeu um aviso, outrora chamado de “bilhete azul”.
Em 2003,  o subprocurador-geral de Minnesota, Prentiss Cox, pediu informações à Ameriquest sobre os empréstimos hipotecários realizados pela empresa. Recebeu dez caixas de documentos. Examinou aleatoriamente os contratos e, perplexo, observou que, em quase todos, os tomadores eram designados como “corretores de antiguidades”, um eufemismo para designar a condição de desempregados dos pretendentes ao crédito. Essas falsificações empalidecem diante da descrição do emprego de um senhor de 80 anos que só conseguia se locomover com o auxílio de um andador. Profissão? “Trabalhos Leves na Construção.”
Cox indagou-se das razões que levaram uma empresa de tal porte ao cometimento de malfeitorias. Um amigo atilado sugeriu: “Olhe para cima”. Cox acordou para a realidade: as instituições que concediam créditos hipotecários estavam simplesmente gerando produtos para Wall Street empacotar e distribuir mundo afora.
As instituições federais bloquearam sistematicamente as tentativas de regulamentar e coibir a multiplicação de empréstimos irregulares. No pelotão de frente estavam duas autoridades federais: o Office of the Controller of the Currency (OCC), encarregado de fiscalizar os bancos comerciais nacionais – incluídos o Bank of America, o Citibank e o Wachovia; e o Office of Thrift Supervision (OTS), incumbido de vigiar as instituições nacionais de poupança. Em 2001, Julie Willians, chairman do conselho do Controller of de Currency, ministrou uma palestra para as autoridades estaduais. Em sua arenga, Willians advertiu os presentes de que iria “aniquilar” quem insistisse na investigação das práticas das instituições nacionais de crédito. Bingo!


Extraído de cartacapital.com.br

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