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terça-feira, 5 de junho de 2012

OTAN: se reinventando para não se tornar obsoleta

Criada para defender a Europa do "perigo vermelho" a OTAN ficou um tanto sem rumo com o fim da União Soviética, em 1991. 

Como o poderio militar e o orçamento investido até então eram gigantes, na verdade ainda são, a OTAN precisou se reinventar para ter alguma serventia (principalmente quando o principal país por trás do grupo baseia sua economia na guerra). 

Findada a antiga URSS, a OTAN tentou partir para o campo humanitário (sic!) e prestou "ajuda" a ONU, muito embora em outras vezes funcionasse como braço militar da ONU também. 

Isso quando não parecíamos ter voltado a época de guerra-fria quando Geórgia e Ucrânia solicitaram ingresso na OTAN e a Rússia se mostrou veementemente contra. 

Até "fora do quadrado" a OTAN andou atuando, quando realizou uma ação em Kosovo. Tudo em nome de uma causa humanitária, que, à época, realmente era...

Reinvenções à parte, sabemos que a OTAN jamais deixará de ser uma organização puramente militar que agora vai tentar se esgueirar por onde puder para não ser questionada sobre sua utilidade nos tempos atuais. E não me admira nada se essas reinvenções forem das mais inesperadas, pois, afinal de contas, uma organização que tem um país mentor que baseia grande parte da sua economia em guerras precisa de algum modo, manter esse engrenagem em funcionamento; nem que seja sob a camuflagem de missões de paz. 

O fim da União Soviética (URSS) em 25 de dezembro de 1991, e consequentemente da Guerra Fria, esvaziou uma das mais importantes funções da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan): proteger a Europa e os países membros do inimigo externo, ou seja, à epóca, a ameaça socialista. Mais de duas décadas depois, a entidade retirou as tropas fortemente armadas e tanques da fronteira da Europa Ocidental. Perdeu parte de sua identidade, mas adaptou sua atuação a um novo contexto, com destaque à intervenção no Afeganistão (antiga zona de influência socialista), que teve o final anunciado nesta segunda-feira 21.
Na cúpula da Otan em Chicago ficou definida a transferência da responsabilidade pela segurança e operações de combate ao Afeganistão em 2013, além da saída das tropas estrangeiras do país no ano seguinte. Até a retirada dos cerca de 130 mil soldados, tropas do tratado ficarão encarregadas de garantir que os afegãos se adaptem “às suas novas responsabilidades”, e, depois, manterão “um sólido apoio político e prático de longo prazo ao governo afegão”, diz a organização.
Apesar de integrar uma guerra polêmica e de resultado inconclusivo, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, afirmou que a Otan “sai mais forte de Chicago, mais capaz, e no centro da segurança global”. Tudo isso, embora diversos países tenham saído do combate antes da agenda oficial. Incluindo a França, que deve retirar seus cerca de 3,3 mil soldados do Afeganistão até o final de 2012.
A Otan passou por adaptações, mas ainda cumpre a função de prevenir a guerra entre os aliados e manter a paz na Europa, pois o ataque contra um membro é um ataque contra todos, explica Juliana Bertazzo, professora da Universidade de Oxford (Reino Unido), pesquisadora da London School of Economics e especialista em Otan. “Além disso, aliados não se atacam.”
Para a analista, a força da Otan se concentra na capacidade de adaptação e de trabalhar em conjunto com diversos países e organismos internacionais. A estrutura altamente equipada e bem localizada é outro benefício, muito útil aos EUA e aos Estados-membros.
Uma característica, destaca Bertazzo, a posicionar a Otan como uma força de apoio à organizações como a Onu, sem exército próprio. “Isso fica claro no Afeganistão com a dificuldade da Onu em enviar tropas. Os países ricos mandam dinheiro, mas não soldados. A Otan tem um recurso inestimável e, enquanto as Nações Unidas mantêm apenas uma operação civil e política no Iraque, fornece apoio e treinamento de tropas. Na prática, assume uma operação da Onu e isso é significativo.”
Além disso, possui outra característica interessante: atua fora de sua área original. Mas nem sempre é fácil controlar seu financiamento ou atuação conjunta, devido à pluralidade de interesses dos integrantes.
Na intervenção na Líbia no último ano, diversos países membros não participaram diretamente da missão – entre eles a Alemanha -, levando o secretário-geral da Otan, Anders Fogh Rasmussen, a pedir mais apoio e solidariedade dos integrantes europeus. “Sempre houve um descompasso grande entre Europa e os EUA em termos de composição militar e orçamento. Algo que só mudou recentemente com a entrada da França para o componente militar”, explica Bertazzo, para quem a organização não possui custo mais elevado que outras entidades semelhantes.
Na busca por uma nova identidade, a organização defende operações de manutenção da paz – contidas no artigo 5º -, que prevê a intervenção em caso de possível ameaça à segurança dos membros. Um conceito que a permite atuar em todo o mundo em abordagens de relativizado interesse humanitário, como a missão aos países afetados pelos terremotos da Ásia em 2004. “Houve uma operação de apoio aos locais atingidos, porque aquela situação era tida como uma instabilidade internacional”, diz a analista.
Essa atuação empurra a Otan a participar de conflitos a envolver ameaças aos interesses nacionais de seus integrantes, que são distintos e definidos por consenso e não maioria. “Na Somália, há o interesse em garantir um tráfego marítimo para exportação e importação dos navios dos Estados membros que passam pela região. Os piratas afetam o fluxo do petróleo da Ásia e África, em uma das rotas mais utilizadas também para retirar produtos da China, Índia e Tigres Asiáticos. Isso atrapalha os membros da Otan, que vão pleitear uma operação.”
Após a Guerra Fria, a organização abriu algumas rodadas de filiação a novos países, que incluiu a Alemanha reunificada, por exemplo. Mas depois passou a exigir critérios rígidos para adesão. “A organização valoriza muitos países com democracias consolidadas. Por isso, a solidariedade com países onde isso não acontece”, afirma Bertazzo. E completa: “A análise é bem estudada, pois percebe-se que a Otan não funcionaria tão bem com um grupo muito diverso.”
Neste cenário, Ucrânia e Geórgia tentam se filiar com demonstrações públicas de interesse que remontam ao início dos anos 2000. Na organização, estariam protegidos militarmente da Rússia – que mantém apenas um representante fixo na Otan. A Georgia, por exemplo, teve um conflito com a Rússia em 2008 pelo controle da Ossétia do Sul.
A Rússia se opõe veementemente à iniciativa das duas ex-repúblicas soviéticas.
Com o tempo, a Otan passou a adotar de forma mais constante o conceito de intervenção humanitária.  O maior exemplo foi a ação unilateral em Kosovo em 1999. O conflito com a Sérvia provocava um fluxo intenso de refugiados e mortes de civis e, para evitar um massacre étnico semelhante ao ocorrido na Bósnia, a organização autorizou pela primeira vez uma “operação fora de área”.
Hoje, a Otan mantém parcerias com a Onu e a União Africana. “Isso para garantir que a instabilidade não afete os países-membros. Por isso, houve intervenções no Leste Europeu, África e Afeganistão”, ressalta a analista.




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