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domingo, 11 de julho de 2010

Cinema, Pipoca e Geografia! - Diamantes de Sangue

A indicação de hoje vem de um trabalho que fiz para umas das minhas disciplinas na faculdade. Trata-se de "Diamantes de Sangue"


Diamantes de Sangue


Inicialmente é abordado pelo filme o conflito entre o governo de Serra Leoa e a FRU (Frente Revolucionária Unida) em 1999, pelo controle das minas de diamantes. Os conflitos sempre são marcados no filme pelo massacre mais intenso de civis do que a morte dos envolvidos de fato nessa guerra.

É em um desses ataques da FRU a vilarejos que a história do filme começa. Um pescador vê seu vilarejo ser atacado pela FRU e tenta defender sua família, mas seu filho acaba sendo levado pelo grupo para ser treinado por eles, o que mais tarde resultará em uma cena marcante no filme onde filho tentará matar seu pai, o pescador, que o convence a não praticar tal ato[1]; já sua mulher e filhas sobrevivem ao ataque e conseguem fugir; e o pescador é capturado pela FRU sendo forçado pelo grupo a trabalhar no garimpo de diamantes. Ao mesmo tempo em que um traficante de armas está em outro local do país negociando armas em trocas de diamantes com a mesma FRU.

Posto a história dos dois personagens principais o filme, posteriormente, faz um bom apanhado dos motivos pelos quais a guerra existe, dentre os quais estão a exploração das minas de diamantes, por parte dos rebeldes, para trocar por armas e a venda dos diamantes para o mercado externo através de um esquema ilegal que envolve países por todo o mundo, mas que possuem como grandes compradores e, por conseguinte, mantenedores desse conflito a Europa e os Estados Unidos que os compram com a finalidade de vendê-los como adornos de luxo.

É no meio desse esquema gigante que as histórias dos principais personagens se fundem: o pescador ao trabalhar forçadamente explorando diamantes para a FRU acha um diamante de enorme valor e tenta ficar com ele para si, mas não consegue, pois o capataz percebe o seu intento e, concomitantemente a este fato, a área de exploração de diamantes onde ele trabalha é encontrada pelo exército do governo causando um conflito no local que permite ao pescador esconder o diamante enterrando-o, mas também que culmina com a sua prisão e de seu capataz.

Já o traficante é detido por tentar atravessar diamantes para a Libéria, onde segundo o filme há um esquema no qual os diamantes extraídos sem controle de Serra Leoa são atravessados para o seu fronteiriço, a Libéria, para serem vendidos legalmente neste país, que o legaliza alegando serem diamantes extraídos de seu território. Nesta parte do filme presenciamos também diversos esquemas utilizados pelo traficante para tentar atravessar os diamantes pela fronteira entre os países supracitados e os esquemas vão desde o suborno até esconder os diamantes sob a pele de animais.

Assim os dois personagens acabam na cadeia e no local o antigo capataz do pescador revela a todos na cadeia que o mesmo escondera um diamante de valor inestimável e que oferecia uma recompensa a qualquer um que fizesse o pescador dizer onde ele escondeu exatamente o diamante. Ninguém na cadeia dá crédito ao capataz, exceto o traficante que se utiliza de seus contatos para sair da cadeia e, posteriormente, retirar o pescador de lá.

Os dois travam um acordo entre si onde em troca do diamante o traficante ajuda o pescador a reunir novamente sua família. Diante deste acordo os dois praticamente cruzam o país em meio à guerra e, ao longo desse percurso, aspectos do conflito são abordados como os constantes embates entre os rebeldes e o governo que se dão quer seja no campo, quer seja na cidade onde os civis são sempre os mais atingidos; a fuga em massa da população das áreas de conflito para outras áreas do país onde a ONU dava guarita ou os conflitos ainda não tinham ocorrido e até mesmo para outros países como a Guiné, onde o pescador encontraria parte da sua família; e a existência de milícias que não possuem ligações nem com o governo e nem com a FRU e cujo intuito, pelo menos o único visível no filme, era o de recuperar que eles conseguiram resgatar das mãos da FRU.

Ao longo do filme são vivenciados por ambos os personagens situações que podem ser utilizadas inclusive como base para as nossas críticas quanto ao mesmo que serão explanadas mais adiante. As situações dizem respeito à mentalidade colonialista que se faz presente em uma conversa entre os protagonistas do filme onde o pescador diz ao traficante que uma vez lhe haviam dito que o país nem sempre fora dessa forma e que era muito melhor quando governado pelos brancos e continuaria a ser assim se os mesmo ainda governassem.

Já a outra situação mostra o quanto o país, ou melhor, o continente, sempre fora explorado e sempre foi explorado e vítima de conflitos e crueldades; o que é retratado no filme quando os personagens encontram uma milícia onde o que parece ser o presidente da mesma lhes explica que o continente sempre conviera com guerras e atrocidades muito antes daquela vivenciada por eles. Para exemplificar o que ele diz o mesmo cita o rei Leopoldo que, quando da dominação belga em parte do continente africano, mandava cortar a mão de 1 em cada 100 escravos como forma de controle.

Acreditamos que tais fatos, acima citados, expostos no próprio filme servem para criticar a utilização da frase “AEA – A África é Assim”. A mesma é utilizada por diversas vezes no filme e sempre com o intuito de mostrar que a guerra de Serra Leoa está ocorrendo por que na África as coisas são assim mesmo e só se resolvem dessa forma.

Porém o próprio filme dá elementos, como o supracitados, além é claro da história e da geografia que derrubam essa visão fatalista exposta na frase, revelando que não só em Serra Leoa, mas no continente africano com um todo os conflitos ocorreram e ocorrem em virtude de longas décadas de exploração desenfreada por outros países que até mesmo quando se retiraram deixaram traços que permitissem, disseminassem ou até mesmo mantivessem conflitos dentro do continente; dentre esses traços podemos citar tanto as fronteiras artificiais quanto a concentração do poder de um país na mão de uma única etnia.

Quanto ao desfecho do filme acreditamos que foi o mais sensato já que pescador além de conseguir reunir sua família, conseguiu ficar com o diamante e ainda denunciou o esquema de compra dos diamantes extraídos de forma ilegal de seu país; conseguindo assim tanto ter a sua família de volta e em paz quanto ficar com aquilo que fora extraído com seu esforço e não mais será vendido de forma ilegal a terceiros vindo a não gerar para o seu país divisas que possam ser investidas na melhoria das condições sociais da nação. O final foi uma utopia que, mesmo se tratando de um final de filme, poderia ser uma realidade mais do que justa com um continente que ao longo dos séculos vem sendo sistematicamente castigado.

Contudo acreditamos que o filme retrata muito bem a questão da guerra civil em Serra Leoa bem como o tráfico internacional de armas e diamantes; o mesmo também serve como instrumento de apoio em aulas visando uma melhor compreensão de como se dão as guerras neste continente assolado por tantos e tantos conflitos.






[1] Podemos presenciar essa mesma situação, o uso de crianças em exércitos rebeldes, em outros filmes que tratam da mesma temática como “O Senhor das Armas”

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