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sábado, 1 de maio de 2010

Tráfico S.A.

Como senão bastassem termos que lidar com o poder paralelo diariamente no país, o mesmo agora resolveu dar uma de empresa multinacional e agora se instala pelo Paraguai com o intuito de controlar produção e venda de drogas se aproveitando para tanto da certa instabilidade em seu governo, muito por conta da questão da soja no país que ameaça até mesmo a questão do tráfico de drogas brasileiro no Paraguai.

Como se já não fosse suficiente os paraguaios sofrerem invasões da fazendeiros brasileiros em seu país pela questão da soja, agora o tráfico de drogas brasileiro também se estabelece no país.

É... aprendemos direitinho com o Tio San como sermos imperialistas dentro do nosso "quintal".

Fiz algumas reportagens no Paraguai. Para a CartaCapital, fui visitar a base aérea de Mariscal Estigarribia, no Chaco, cuja existência foi noticiada como sendo parte de uma expansão militar dos Estados Unidos na região. É estranho, mesmo, encontrar um aeroporto daqueles no meio de um lugar quase deserto. Mas o fato é que não há tropas americanas lá.
A base, para todos os efeitos, está desativada. Pousam apenas pequenos aviões, de gente que tem propriedades de terra na região.

O Chaco já foi disputado militarmente entre a Bolívia e o Paraguai. Mariscal foi uma espécie de “Brasília” do ditador Alfredo Stroessner. Uma das formas de garantir a soberania paraguaia naquela região, mais próxima da fronteira com a Bolívia do que de Assunção. O plano era de fazer infraestrutura para um futuro polo de desenvolvimento regional. Tornou-se um imenso elefante branco.

Voltei ao Paraguai para fazer uma reportagem sobre os barões da maconha, na região fronteiriça com o Brasil. O país é um dos grandes produtores mundiais. Foi o que atraiu Fernandinho Beira-Mar à região. O traficante carioca foi o primeiro a calcular que, se controlasse as duas pontas do negócio, teria lucros maiores. Baixaria o custo de produção da maconha e, controlando a ponta das vendas especialmente no Rio de Janeiro, teria o monopólio do negócio. Isso está na origem da matança que se seguiu à disputa pelo controle da produção em Capitán Bado, onde Beira-Mar eliminou a concorrência dos irmãos Morel. Uma disputa comercial resolvida à bala.

O PCC, baseado em São Paulo, e o Comando Vermelho carioca “dividiram” a região. O PCC atua mais na área de Ponta Porã (do lado paraguaio, Pedro Juan Caballero). O CV, na região de Capitán Bado. Porém, esse é um processo bastante dinâmico, dada a “alta rotatividade” dos executivos do tráfico, e às alianças locais, inclusive com autoridades, que se fazem e desfazem. Com o avanço da soja sobre o Paraguai, no entanto, a produção está ameaçada.
A soja, produzida especialmente mas não apenas por fazendeiros brasileiros, provoca devastação ambiental, deslocamento de populações locais e… a pressão sobre as terras onde se planta maconha. A produção está migrando aos poucos para o sul, onde há menos policiamento e mais terras desocupadas.

Tendo como base as cadeias paulistas, o PCC é hoje um “partido” internacional, que expande seus negócios em direção ao Paraguai e à Bolívia. Contaminou as instituições, no Brasil e fora dele.

Há quem acredite em um nexo entre o crime organizado e as atividades do Exército Popular Paraguaio, que levou o presidente Fernando Lugo a decretar estado de emergência em regiões fronteiriças com o Brasil. Ah, sim, também há quem diga que o EPP recebe apoio das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as FARC.

Aqui eu entro no campo da opinião, pois não disponho de dados factuais sobre essas relações. Vi a expansão da soja no Paraguai. Testemunhei o ressentimento de paraguaios com a invasão brasileira. Se no Brasil a legislação ambiental não é respeitada, imaginem num país institucionalmente frágil como o Paraguai. Isso criou uma grande demanda por mudanças, da qual resultou o governo Lugo. E uma fração dos movimentos sociais, aparentemente, partiu para a luta armada, frustrada com o ritmo das mudanças. Lugo se equilibra sobre uma aliança frágil. Aparentemente, deu ao exército e à polícia liberdade para “pacificar” a região sojeira, onde o ressentimento com as condições materiais de vida é aguçado ainda mais pela presença ostensiva de brasiguaios bem sucedidos.

O que testemunhamos aqui é a expansão de grandes grupos econômicos, voltados para a exploração de recursos naturais e a exportação de água e comida, especialmente para atender ao mercado da China. E a fricção dos interesses deles com os interesses das populações locais, que tentam arrancar uma fatia desse bolo. Jogar o PCC e as FARC nessa mistura é politicamente conveniente para aqueles que acham que a questão social é um caso de polícia.



Extraído de cartacapital.com.br

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